quarta-feira, 18 setembro

Ansiedade: Ela é o vácuo entre o agora e o depois

Texto por: Equipe VS 28 junho, 2019 Sem comentários

Quando não estamos bem conosco mesmos é porque temos alguma característica que nos incomoda ou certos comportamentos inadequados. Para melhorar é necessário o desejo de mudar, de se aperfeiçoar. Mas só o desejo não é suficiente, é preciso algo mais forte que boa intenção. É necessário acreditar que a mudança é possível e ter vontade para levá-la a efeito. Decidir mudar não basta. Para mudarmos é exigido um posicionamento de execução completa. Sem a ação e as consequências correspondentes não podemos avaliar os rumos de nossa caminhada ao longo da vida.

Só entenderemos o rumo que estamos seguindo se entrarmos em contato com nossas características e comportamentos, algo que nos exigirá atenção especial, coragem e percepção clara. Não podemos negar o que percebemos, mas admitir, sem condenação nem julgamentos. Se não respeitarmos essas condições nos afastamos da mudança para melhor, ao custo de permanecer num estado inferior de desenvolvimento. 

Características pessoais e ansiedade

Reconhecer as características pessoais é mais complicado do que reconhecer os comportamentos. Há várias razões para isso, mas uma é bem reconhecida: as influências recebidas nos primeiros anos, quando não tínhamos muito poder de escolha para saber o que nos afetava. Por isso, uma pessoa que na infância recebeu porção adequada de calor humano, viveu num ambiente de segurança e confiança, e pode fazer as próprias escolhas será mais adequada. Por crescer nesse ambiente apresenta um ego mais forte e mais saudável quando comparada com quem não teve as mesmas oportunidades. Apesar de reconhecermos que o ambiente por si só não tem poder para alcançar o ideal desejado, a pessoa que passou por ele e o aproveitou terá menos preocupação em controlar o futuro e poderá viver com menos sofrimento relacionado às incertezas do incontrolável. Acreditamos que essa pessoa estará propensa a sofrer menos ansiedade. Suas características pessoais serão mais resistentes à ansiedade do que outra que viveu num ambiente instável, de desconfiança, de crítica, de hostilidade e de insegurança. 

As características que nos afetam estão mais gravadas em nós porque receberam a contribuição das forças externas nas mãos de nossos cuidadores. São influências que recebemos, mas não tínhamos consciência delas nem podíamos controlá-las. 

Em laboratórios, os pesquisadores podem observar que quando uma pessoa é exposta a situações de ameaça constante e dolorosa sem o poder de controle demonstra sinais de ansiedade. Sinais visíveis de nervosismo, inquietação, tensão muscular, comportamento repetitivo, expressões faciais de desconfiança. 

Medo não resolvido 

A ansiedade não é resultado de um objeto específico temido, mas de um medo não resolvido, não concluído. Na espera do ansioso sempre há um componente negativo, de fracasso. A ansiedade que vai provocar o fracasso porque ensaiamos para fazê-lo acontecer. 

Lidar com nosso comportamento é mais tranquilo porque temos o poder de escolha para agir ou não agir. Então, sobre eles, podemos exercer uma influência direta para regulá-los e até omiti-los ou camuflá-los. Podemos mesmo chegar a expressar o oposto do que sentimos. O problema é que com a repetição crônica dessa distorção, corremos o risco de acreditar no próprio disfarce, fuga ou defensividade. 

Quanto mais insistimos na tentativa de conquistar a certeza do futuro mais desesperados ficamos com nossa inadequação e insuficiência. Caminhamos para o fracasso em nossa cegueira sobre nós mesmos buscando algo que jamais teremos: a certeza absoluta.

Aqui se conecta adequadamente com a definição dada à ansiedade por Frederick S. Perls: “A ansiedade é o vácuo entre o agora e o depois” (Gestalt Terapia Explicada, p. 15). Perls tem uma visão positiva do ser humano. Ele acredita num impulso vital em constante fluxo. Um tipo de energia em constante movimento que nos impele a viver o agora e não o depois. 

Viver no agora

Se não sabemos o que é esperado de nós, nem o que esperamos de nós mesmos nossa energia fica estagnada. Se conhecemos nosso papel, se sabemos como agir, se estamos presentes no agora, em vez de preocupados com o depois, a estagnação desaparece e como consequência nossas atitudes serão mais espontâneas. Se vivermos no agora, respeitando nossos sentidos, como uma criança, encontraremos as soluções necessárias. Seremos mais criativos e produtivos.

Viver no agora não significa entregar-se à impulsividade, nem se jogar nos vícios, nos remédios ou nas drogas que prometem alívio ou prazer instantâneos. Viver no agora é aprender a lidar com o vazio de incertezas do futuro. 

A incerteza não é privilégio de uma pessoa exclusiva, é de todos. Do depois não temos certeza de coisa alguma. Acontece que a pessoa que mais precisa viver o agora é a mais preocupada com o depois. Ela não só se preocupa como também “catastrofiza” o que está por vir. Ela quer o controle do incontrolável. 

Ansiedade é não viver o agora angustiado pelo depois. Nossa energia vital deve ser aplicada no agora e não no depois. Se cuidarmos do hoje, no amanhã, se estivermos aqui, cuidaremos de nós assim como cuidamos hoje. Nossa energia vital deve manter seu fluxo constante. 

Se existe um vazio entre o agora e o depois é para aproveitarmos nossos recursos, preencher nossas necessidades reais, ampliar nossa capacidade e contribuir para um mundo melhor agora. É o momento para transcender as frustrações, resolver os conflitos e agir para realizar nossos sonhos. 

O desconforto do presente nos deve motivar a aperfeiçoar agora. Assim estaremos regulando nossas emoções e nossa vida. Contudo, jamais chegaremos à perfeição, à certeza ou ao controle absoluto como deseja o ansioso.

Ou entramos em contato com a realidade ou o desconforto se transforma em sofrimento, e o sofrimento, além de aumentar a ansiedade, poderá se aprofundar no pânico, na fobia com TOC ou depressão. Devemos recuar do controle do futuro ou nossa ansiedade em excesso poderá nos levar à imobilidade, ao travamento e à incapacidade total. Não viveremos o depois e perdemos o agora. Mas, a consciência do agora nos transporta para um depois feliz!

Belisário Marques é Doutor em Psicologia

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