quinta-feira, 18 julho

A experiência de vida e de superação de quem perdeu parte do corpo e encontrou no exercício físico saúde e grande fator de motivação. Débora Borges e Pablo Uilquer Alves Wincler

 

Fernanda Rodrigues Machado havia perdido a vontade de viver depois de ter a perna esquerda amputada por causa de um acidente de moto em 2010. Achava-se inútil e um fardo para os familiares, especialmente para o esposo e o filho adolescente. Ela pensava que nunca mais conseguiria realizar as atividades simples do dia a dia, como limpar a casa, por exemplo. A tristeza aumentava cada dia, juntamente com seu peso, que passou de 60 kg, antes do acidente, para 90 kg. Estava realmente difícil se locomover com apenas uma perna e com todos aqueles quilos extras. A perna cansava rápido e os braços doíam pelo esforço com as muletas. Não tinha ânimo para nada e não queria sair de casa por causa dos olhares indiscretos. Toda aquela situação de dependência e o trauma das lembranças do acidente a levaram a um quadro depressivo e até mesmo a uma tentativa de suicídio. Embora a família demonstrasse total amor e dedicação, ela não conseguia superar aquela perda. Estava constantemente dopada pelo uso de vários medicamentos, pois era a única forma que encontrava para dormir e relaxar. E dormir era o que ela mais queria fazer, para fugir do sofrimento.

Fernanda tinha a expectativa de que, quando pudesse usar uma prótese, sua vida poderia voltar a ser semelhante à de antes. Porém, o custo do equipamento era muito alto para sua condição financeira. A ajuda só veio quatro anos depois, quando uma amiga lhe indicou o Hospital Lucy Montoro, em São Paulo, especializado em atender pessoas amputadas. Foi lá que a história de Fernanda começou a tomar novo rumo.

É verdade que no começo ela ficou um pouco frustrada. Pensava que era só encaixar a prótese e sair andando, mas era muito mais difícil do que ela imaginava. O primeiro obstáculo foi o excesso de peso. Ela teria que mudar a alimentação e fazer exercícios físicos, se quisesse voltar a andar.

A cada 30 dias Fernanda retornava ao hospital e tinha que levar a avaliação de um profissional de educação física que a estivesse acompanhando. Sem muitas alternativas, ela começou a fazer hidroginástica e pôde ver pequenos resultados. Mas, para que o processo de preparação para o uso da prótese fosse mais rápido, ela ficou três meses internada no hospital em São Paulo. Foi uma experiência transformadora, pois ela desenvolveu uma rotina de atividades diárias. Vendo outros pacientes na mesma condição superando seus limites na academia do hospital, Fernanda se sentiu motivada a se esforçar mais. Saiu de lá vitoriosa e com uma prescrição médica: manter o programa de exercícios.

Mas é em casa que os maiores desafios são vividos. Todos nós somos tentados a ceder à pressão de uma intensa agenda de atividades e deixar os exercícios em último lugar. É preciso manter a motivação e não perder o foco. Para uma pessoa sadia já é desafiador, imagine para quem está com depressão e sem uma perna… A luta é gigantesca!

Fernanda manteve a hidroginástica, que já praticava, e descobriu como é bom fazer musculação na academia. Mesmo assim, a depressão às vezes a impedia de continuar os treinos. Nessa fase, conforme ela acredita, Deus colocou mais uma pessoa importante em sua vida, para que ela não desistisse: a professora e treinadora Jaqueline deu todo o incentivo de que Fernanda precisava. 

Chegou até a ir à casa dela para buscá-la, a fim de que ela não faltasse aos treinos.

Com a ajuda de Jaqueline, gradualmente Fernanda percebeu que poderia superar novos desafios. Ela foi se sentindo capaz e confiante, aumentando a carga e ganhando equilíbrio para novos exercícios. Com o tempo, percebeu que o corpo ficou bem mais forte e resistente à dor. Além disso, com o acompanhamento de um médico, ela pôde diminuir a quantidade de remédios para dormir, pois o cansaço físico e o relaxamento da mente vieram naturalmente e trouxeram o sono tranquilo.

Outra modalidade que trouxe verdadeiro prazer à vida de Fernanda foi a natação. Ela, que nem sabia nadar, atualmente nada trinta minutos por dia, cinco vezes por semana. Os exercícios físicos auxiliam no tratamento da depressão, pois, além de melhorar a aparência e a autoestima, produzem endorfina e causam sensação de bem-estar. Ela ainda não está livre da doença, mas encontrou um remédio sem efeitos colaterais; ao contrário: a qualidade de vida está melhor do que antes do acidente, pois ela conta que fumava, era sedentária e se alimentava mal. Hoje com 40 anos, Fernanda tem uma vida saudável e segue a meta de perder os quilos que ganhou. Já conseguiu perder 20 kg. Agora faltam dez. Ela é uma inspiração e tem influenciado muitas pessoas, incluindo o filho. Com o exemplo da mãe, ele decidiu treinar musculação, deixou de ter sobrepeso e substituiu gordura por massa magra e definição muscular.

 

Não deixe para amanhã

A grande maioria das pessoas sabe da importância da prática de atividade física, visto que as mídias falam disso o tempo todo. Mas, infelizmente, o ser humano tem o péssimo hábito de deixar muitas coisas para depois ou para a última hora, e com a saúde não é diferente.

Dados do IBGE de 2015 mostram uma triste realidade: 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais não praticam atividades físicas (cerca de 100,5 milhões de pessoas), o que reflete diretamente nos altos gastos com saúde pública e milhões de pessoas doentes. Grandes problemas de saúde mundiais, como diabetes, hipertensão e obesidade podem, em sua grande maioria, ser evitados com programas de exercícios e dieta saudável. Um programa de treinamento físico é tão potente que até mesmo quando essas doenças já estão instaladas é possível obter grandes melhorias.

Mas quais são esses exercícios? Existem diversas atividades disponíveis para se praticar, porém, falaremos aqui sobre o treinamento com pesos, também conhecido como musculação, modalidade tida hoje como uma das mais completas formas de cuidar do corpo e da mente.

 

Muito além da força e da forma

A prática da musculação é responsável pela melhora do trabalho hormonal, do controle do açúcar no sangue, da ansiedade e até mesmo no combate aos sintomas da depressão, além de melhorar os níveis de concentração e cognição (indispensáveis para melhor desempenho nos estudos e no trabalho). Fernanda descobriu isso, e o Tiago Rodrigues dos Santos também. Ele é outro exemplo de superação. Assim como Fernanda, Tiago sofreu um acidente de moto quando ia para o trabalho. Teve sérias complicações e quase perdeu a vida. Passou 20 dias na UTI e tinha apenas 3% de chances de sobreviver. Depois de alguns meses no hospital e de várias cirurgias, Tiago passou um ano e dois meses sendo cuidado pela esposa e utilizando uma cadeira de rodas. A vida dele mudou drasticamente. Era superagitado, trabalhava, estudava e ajudava a esposa a cuidar dos filhos pequenos. Depois do acidente, passou a sentir falta da independência, das atividades e das brincadeiras com os meninos.

No primeiro ano após o acidente, viu o corpo ser alterado rapidamente pelo ganho e pela perda de peso. Ainda no hospital, chegou a pesar 150 kg, por causa da retenção de líquidos. Em seguida, devido às cirurgias e aos medicamentos que lhe causavam náuseas, foi para 83 kg. Em casa, como cadeirante, novamente voltou a ganhar peso. Ele queria praticar algum tipo de exercício, mas a maior dificuldade era a bolsa de colostomia que ele usou por um ano. Além de atrapalhar, aquilo trazia constrangimento para Tiago. Quando finalmente retirou a bolsa e se recuperou da cirurgia, sentiu-se liberto e pôde fazer hidroginástica. Com isso, Tiago estava se preparando para usar uma prótese, pois ele precisava fortalecer a musculatura.

Nessa mesma época, ele conheceu por meio de vídeos na internet a modelo e atleta amputada Camille Rodrigues, que lhe trouxe grande inspiração. Graças ao exemplo dela, Tiago acreditou que era possível melhorar a qualidade de vida e também praticar algum esporte. A partir daí ele começou a praticar natação e musculação, já que o tônus muscular é importante para o bom desempenho no nado. No começo ele nadava apenas 25 metros, pois não tinha fôlego. Atualmente, nada mil metros por dia, duas vezes por semana. Inclusive já participou de competições e ganhou medalha de ouro na modalidade 200 metros crawl.

Depois de algum tempo, Tiago não mais sentia dor nos braços ao usar muletas e estava pronto para usar a prótese. Atualmente, a rotina de atividades voltou a ser intensa: adaptou sua função no trabalho, todas as noites vai à academia com a esposa e ainda pratica natação. Ao nos contar sua história, Tiago deixa um importante conselho para quem ainda está postergando o dia de começar atividades físicas: “Pense na sua família, para que você tenha um bom futuro com eles. Pense em quem você tem.”

 

Atividade inclusiva

A musculação é uma atividade totalmente inclusiva, em que pessoas que possuem os mais diversos tipos de limitações conseguem se engajar em um programa de treinamento. (Lembra-se de que falamos que, ao elaborar um treino é preciso respeitar a individualidade do aluno? Pois bem.) Os cientistas recomendam o treinamento com pesos para todos – crianças, adolescentes, adultos, idosos, sejam eles saudáveis ou com algumas doenças, como diabetes, obesidade, osteoporose e até depressão.

Entre eles estão as pessoas com deficiências físicas. Sim, pessoas que, por motivo de doenças, acidentes ou problemas congênitos, têm alguma limitação física ou não possuem um membro (perna, braço ou até mesmo ambos). Para essas pessoas o treinamento é um dos melhores meios para a superação de limites e melhora na qualidade de vida.

Com o treinamento aprendemos a superar obstáculos. Quando treinamos o corpo, treinamos também a mente, pois ela controla tudo. Mais do que quaisquer outras, essas pessoas com limitações são experts nesse assunto. É comum na academia você se deparar com pessoas deficientes dando o seu melhor no treino, esforçando-se ao máximo, enquanto a maioria não chega nem perto daquilo que pode oferecer. Aí está a diferença! Força de vontade para alcançar os objetivos. É um aprendizado para a vida.

Mas é importante salientar que o treinamento para pessoas com deficiência precisa ser adaptado em algumas situações. Por exemplo, uma pessoa com a perna amputada acima do joelho (conhecida como amputação transfemural), que esteja iniciando um programa de treinamento. Em muitos casos, ela precisa começar com exercícios em que o equilíbrio seja introduzido aos poucos, como em exercícios em pé ou que trabalhem movimentos de quadril e joelho. Após um tempo de treinamento (que pode variar, dependendo do aluno), é possível, sim, realizar exercícios mais complexos, ainda que adaptados, como agachamentos, remadas e saltos, para os quais é preciso ter muito mais equilíbrio.

Com o tempo é possível a essas pessoas ter grandes ganhos de força e massa muscular, obtendo, assim, uma melhoria considerável na qualidade de vida e independência para a realização das atividades diárias. Além do mais, elas relatam grande diminuição das dores no membro amputado, no encaixe da prótese, e também menos dores nos braços e ombros, quando precisam usar muletas. A musculação não aumenta somente a força muscular, aumenta também a tolerância à dor.

 

Retroceder, jamais!

Sara Hidalgo Nunes Coelho decidiu que precisava mudar de vida. Para levantar da cama com seus então 100 kg, com uma perna mais curta que a outra e com o auxílio de muletas, ela reunia todas as suas forças físicas e psicológicas. As tarefas mais simples pareciam extremamente difíceis.

Sara nasceu com um problema chamado luxação congênita. Isso causou um desgaste gradativo na cabeça do fêmur, que, além de ficar mal encaixado na bacia, deixou sua perna esquerda mais curta. Quando era pequena, ela foi diagnosticada erroneamente com paralisia infantil e a família não procurou ajuda para melhorar sua condição. Com isso o quadro foi só piorando.

Apenas aos 20 anos um médico especialista disse que era necessário fazer uma cirurgia urgentemente. Na verdade, foram três cirurgias em 40 dias. Foi preciso colocar uma prótese interna, pois a cabeça do fêmur estava totalmente desgastada. Entretanto, as cirurgias não pararam por ali. Pela falta de equilíbrio e devido a acidentes frequentes, a prótese quebrou em algumas quedas que Sara sofreu. Por isso, no total, ela passou por sete cirurgias. No decorrer do tempo em recuperação, ela foi engordando cada vez mais.

Por ocasião da primeira cirurgia, há 30 anos, ela pesava 50 kg. Em 2017, aos 49 anos, estava obesa e se sentindo quase inválida. Não tinha vontade de sair de casa, pois qualquer atividade a deixava cansada. Mulher de fé, Sara clamou a Deus por uma mudança, já que seu sofrimento era sentido também pelo esposo e pelos filhos.

A resposta chegou por meio do convite de uma vizinha para fazer hidroginástica. Embora ela tenha desistido de acompanhar Sara, despertou nela o desejo de experimentar as aulas. Como sempre, alguns obstáculos teriam que ser vencidos e o primeiro era voltar a dirigir para chegar lá. Com algumas aulas ela estava pronta para ir aonde quisesse.

Sara conta que, no começo, tinha muito medo de cair, por isso não soltava da barra na borda da piscina. Em pouco tempo ela sentiu as mudanças no corpo e na mente. Passou a animar as colegas de aula e sempre dizia: “Somos daqueles que não retrocedem, e sim avançam.” Sara foi avançando mesmo! Venceu a vergonha de ir à academia, iniciou um treino de musculação específico para seu caso, e ainda começou a nadar. As dores intensas que sentia desapareceram e em poucos meses perdeu nove quilos. Ao se olhar no espelho da academia parou de concentrar-se nas gordurinhas, vislumbrou a saúde que estava ganhando e seu semblante ficou mais feliz.

Com os músculos fortalecidos, ela teve o prazer de alcançar os próprios pés e calçar os sapatos sozinha – algo que você talvez faça sem perceber nem agradecer foi motivo para ela louvar a Deus. Hoje ela comemora a independência: vai às compras, à igreja, limpa a casa e mantém um programa diário de exercícios físicos. Musculação quatro vezes por semana, natação e hidroginástica duas vezes. Nem é preciso falar como a família dela ficou feliz com a “nova Sara”!

Toda dificuldade que encontramos no dia a dia se torna insignificante diante dos desafios que as pessoas com deficiência têm que encarar a todo momento. Elas são exemplo de superação em vários aspectos, e com o treinamento de musculação não é diferente. Fazem coisas que parecem impossíveis para pessoas em suas condições. O que de “impossível” você já fez? Qual é a sua desculpa para não treinar? Por que você ainda não começou a cuidar de um dos bens mais preciosos que existem na vida? Lembre-se, você é o artesão e seu corpo e mente são a escultura. 

 

Débora Borges Pedagoga é pós-graduada em Aconselhamento Familiar e Pablo Uilquer Alves Wincler é Professor de Educação Física

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