Maturidade saudável

O Brasil tem cerca de 205 milhões de habitantes. Destes, mais de 26 milhões têm 60 anos ou mais, idade em que uma pessoa é considerada idosa. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) do IBGE, feita em 2013 com 362.555 pessoas em 1.100 municípios e divulgada no ano passado, houve leve crescimento no número de idosos (0,4%). Cresceu também o número de pessoas entre 40 e 59 anos (alta de 0,2%) no período de um ano. Essa é a faixa etária com maior número de pessoas no Brasil, com cerca de 50 milhões de indivíduos.

Já o número de jovens entre 25 e 39 anos permaneceu estático (23,6%), assim como o de adolescentes entre 15 e 19 anos (8,7%). Por outro lado, todos os outros indicadores mostraram queda: de 6,7% para 6,6% no número de crianças entre 0 e 4 anos; de 7,6% para 7,5% entre 5 a 9 anos; de 8,5% para 8,2% entre 10 a 14 anos; e queda de 8% para 7,9% na faixa etária de 20 a 24 anos.

Em resumo, 38,9% da população brasileira têm entre 0 e 24 anos; 23,6% entre 25 a 39 anos e 37,6% têm 40 anos ou mais. Não precisa ser economista nem matemático para perceber que há um decréscimo no número de nascimentos e de crianças e adolescentes, além de um aumento no número das pessoas mais maduras e dos idosos, embora haja um equilíbrio momentâneo.

Pensar em um país já não tão jovem é algo novo no cenário nacional. E não é só o Brasil que reflete essa tendência. Projeções feitas pela Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que “uma em cada nove pessoas no mundo tem 60 anos ou mais, e estima-se um crescimento para uma em cada cinco por volta de 2050”. Estima-se ainda que em 2050 haverá, pela primeira vez, mais idosos do que menores de 15 anos. Em 2012, 810 milhões tinham 60 anos ou mais, o que deva 11,5% da população mundial. Em alguns anos, espera-se que esse número alcance um bilhão de pessoas.

Velhice não é sinônimo de doença

Mas se envelhecer é inevitável, ficar doente pode ser, quem sabe, facultativo. “Envelhecer não é sinônimo de adoecer”, ressalta a psicóloga Edneia Salviano, mestre em gerontologia e doutora em psicologia clínica. De acordo com ela, “a prevenção começa na juventude”. Entretanto, alerta: “O processo de envelhecimento está associado a maior vulnerabilidade à doença, com tendência a se tornar crônica; a várias patologias que se repetem e a maior risco de situações de dependência e de perda de autonomia.”

Contudo, ressalta Edneia, “não existem ‘doenças próprias do envelhecimento’, embora seja evidente que certas patologias apresentem maiores taxas de prevalência nos idosos. Essas doenças são chamadas ‘dependentes da idade’, porque sua frequência aumenta bastante na faixa etária acima dos 65 anos. São os casos da hipertensão arterial, das demências, da dificuldade de mobilidade e dos transtornos de equilíbrio, da doença vascular cerebral, do mal de Parkinson, da insuficiência cardíaca, da depressão, da catarata e até da incontinência”.

A boa notícia, segundo Edneia, é que, de acordo com Alexandre Kalache, médico e doutor em saúde pública, “apenas 20% dos fatores que determinam a forma como chegamos a uma idade avançada são genéticos”. “Em grande parte, nossa saúde depende de eventos e escolhas que fazemos durante a vida”, diz ele. E essas escolhas envolvem todos os aspectos: físicos, mentais, ambientais e espirituais.

 

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Além da saúde, Kalache aponta outros três eixos no preparo para o envelhecimento.

1 – O primeiro é a capacitação e a educação continuada, que significa que o idoso deve sempre aprender novas habilidades para permanecer ativo e relevante na sociedade. Por isso é muito importante que as políticas sociais tenham foco em novas oportunidades.

2 – Outro aspecto é o lado social, ou seja, as pessoas precisam participar ativamente da sociedade, ter amigos, socializar-se e buscar contato com gerações mais novas.

3 – Finalmente, deve-se ter uma atitude positiva diante da vida. Isso nada mais é do que a forma de encarar as coisas, e também o envelhecimento. Kalache explica que qualidade de vida já não é correr ou competir e ser campeão, mas ser capaz de cuidar do próprio corpo.

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“Hoje já não é mais segredo que, para se atingir a longevidade com qualidade de vida, deve-se, em primeiro lugar, cultivar hábitos saudáveis, tendo-se em mente que a longevidade com qualidade de vida é algo que se conquista com alimentação saudável, prática regular de atividade física, repouso e lazer adequados, vida familiar e social de valorização do envelhecimento e uma vida espiritual rica com vivência da fé”, diz Edneia.

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Rosângela Barbosa Soares, psicóloga clínica que trabalhou por anos no Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial e treinou psicologicamente o primeiro e único astronauta brasileiro, ressalta também a importância de “água, luz solar, repouso, alimentação balanceada, exercícios físicos, equilíbrio em tudo (inclusive no trabalho, nas finanças e relacionamentos), e a confiança em Deus”. Ela afirma que essas práticas levam ao bom humor, fator muito importante para o indivíduo em qualquer fase da vida, especialmente com o passar dos anos, quando devido a debilidades físicas passa-se a ter algumas limitações.

Idade e saúde

A ciência já comprovou a íntima relação entre bons hábitos e envelhecimento saudável. Entre os povos mais longevos, os hábitos estão totalmente relacionados com boa saúde física, mental e espiritual.

Como exemplo, podemos retomar a matéria de capa da revista Vida e Saúde de janeiro de 2015, que cita os habitantes de Okinawa, província mais ao sul do Japão, os habitantes da Sardenha, na Itália, e os adventistas do sétimo dia, especialmente os que vivem em Loma Linda, no estado norte-americano da Califórnia. Entre os costumes que contribuem para o envelhecimento saudável e feliz desses povos, está o estilo de vida que une bons hábitos de saúde mais a cordialidade.

Mas se existem hábitos peculiares de cada povo, outras orientações de saúde já são de “domínio público”: não fumar, ser fisicamente ativo, manter-se socialmente inserido, ter um forte vínculo familiar e uma dieta baseada em vegetais.

Bem mais perto de nós, Hugo Basso, de 92 anos, mora há mais de 50 na agitada zona sul de São Paulo (Capão Redondo, para ser mais específico). Nascido em Rio Claro, SP, e filho de pais italianos, tem hábitos simples como comer bananas amassadas com aveia e amendoim no café da manhã. Além disso, ingere outras frutas e duas castanhas-do-brasil por dia. No almoço, o cardápio tradicional é composto de arroz integral, feijão, mistura de PVT (proteína texturizada de soja) e salada de repolho roxo.

Vegetariano há quatro anos (nunca é tarde), não come nada entre as refeições e mantém hábitos diários de leitura. Após a morte da esposa, Nair, em agosto de 2006, Hugo se dedicou à leitura e devorou dezenas de milhares de páginas; apoiou-se na fé cristã, nos amigos e na família.

Um dos fatores que podem também ter contribuído para a longa vida de Hugo é seu trabalho. Durante 47 anos, ele atuou como topógrafo na mesma empresa. O ofício requer simultaneamente esforços físicos e mentais (diferentes cálculos matemáticos). Durante praticamente toda a sua existência não bebeu nem fumou e teve apenas uma esposa.

Outro exemplo é o da dentista Rachel Lucacin, de 79 anos. Com consultório no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo, desde 1965 ela ensina o caminho da vida: “A parte da alimentação é fundamental.” Sua dica de comida inclui o uso de banana, jiló, quiabo, mandioca e mamão. Ela enfatiza também a importância do descanso e de não ter vícios como álcool, fumo, nem assistir à TV até tarde. Como profissional, deixa um conselho: “Seria bom usar fio dental todos os dias, pois previne a gengivite.”

Francisco Simão, morador da zona norte paulistana, teve que fazer algumas mudanças nos hábitos alimentares para envelhecer saudavelmente. Aos 76 anos, trabalha pesado na construção civil, muitas vezes a quase dez metros de altura. Entre os ajustes na alimentação, abandonou o líquido durante as refeições e passou a comer como um rei pela manhã, almoçar como um príncipe e jantar como um mendigo. Simão diz que de manhã come um baião de dois diferente: “Em vez de misturar arroz com feijão, cozinho arroz com amendoim.” A receita é simples: “Cozinho o amendoim em água por 15 minutos, depois deixo descansar por 45 minutos antes de acrescentar o arroz integral e cozinhar tudo junto.”

Longevidade saudável: aqui e ali

Andando pelo mundo, encontramos o centenário jamaicano Robert Kennedy, de 101 anos, que também revela seu segredo de saúde: dieta vegetariana, longas caminhadas, rotina diária de leitura e fé em Deus.

A nutricionista Charyl Farley, moradora do Estado do Maine, no nordeste dos Estados Unidos, deixa algumas dicas para quem deseja envelhecer sem adoecer: “Você é o que come”, portanto, “coma bons alimentos”. Para dar crédito ao que diz, ela lembra a famosa frase do pai da medicina, Hipócrates: “Faz do teu remédio o teu alimento e do teu alimento o teu remédio.”

Ela acrescenta: “Variedade de frutas, vegetais, grãos, legumes, castanhas e sementes. Sobretudo, fibras, vitaminas, minerais e enzimas em alimentos vegetais são os melhores para diminuir a inflamação em nosso corpo, assim como reduzir os riscos de câncer de cólon.”

“Coma alimentos diversificados cada dia, misture suas cores e beba bastante água entre as refeições”, pois “ficar hidratado é vital para manter o corpo funcionando corretamente”, aconselha.

No quesito movimento, a nutricionista, que também é voluntária no “The Ark”, restaurante na pequena Lewiston (também no Maine, EUA) que tem como objetivo instruir e melhorar a vida de seus clientes, menciona outro conselho de Hipócrates: “Caminhar é o melhor remédio para o homem.” Farley conta que tem testemunhado melhor recuperação de doenças crônicas em pessoas que simplesmente caminham diariamente ao ar livre. “Esses indivíduos”, explica, “têm seu sistema imunológico impulsionado.”

Outro fator que Farley destaca é a importância do descanso. “Embora seja verdade que necessitamos de menos sono à medida que envelhecemos, ele é muito importante na manutenção da saúde ideal.” Ela ressalta que é fundamental a regularidade na hora de dormir, assim como levantar cedo, para manter o ritmo circadiano trabalhando perfeitamente.

Para concluir, Farley faz uma aplicação simples, mas bastante coerente sobre o envelhecimento. Assim como de todo fruto obtém-se os melhores nutrientes e sabor quando está maduro, no ponto, assim também acontece com a vida, mas é preciso chegar até lá! “Portanto, dê o que tem de melhor, mantenha-se ativo e continue usando seus talentos e dons, mesmo em seus ‘anos dourados’, e eles serão seus melhores anos.”

Márcio Basso Gomes é jornalista

 

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