Não deixe sua chama apagar

Frustração com o trabalho, decepção com a vida profissional, esgotamento mental e emocional, cansaço intenso e falta e energia para ir para a empresa, enxaqueca, gripes e resfriados frequentes, sentir-se a ponto de ter um ataque histérico, não suportar mais as pessoas em seu ambiente profissional. Esses são alguns dos sintomas que geralmente ocorrem com pessoas que sofrem com a Síndrome de Burnout. Se você se identifica com as situações acima, poderá estar compondo o time de tantos profissionais que atualmente sofrem (muitas vezes sem saber) com essa síndrome. Isso pode ocorrer porque nem sempre a pessoa conseguirá alcançar realização profissional em seu trabalho. Na realidade, a atividade profissional poderá, por vezes, até provocar problemas que vão desde a insatisfação até à exaustão.

Burnout é uma expressão de origem inglesa, que pode ser compreendida como “queimado até o fim”, “estar acabado”. Ela corresponde a um quadro clínico também conhecido como Síndrome do Esgotamento Profissional (Grupo V da CID-10). Igualmente denominada como “a doença dos perfeccionistas no trabalho”, é principalmente de origem ocupacional. Essa síndrome, juntamente com o estresse no emprego, ocupa o terceiro lugar na escala das principais doenças que geram afastamento do trabalho.

Na sala de aula, vê-se professores à beira de um ataque de nervos. Nas penitenciárias, há agentes carcerários na expectativa de rebeliões que parecem que vão se desencadear a qualquer momento. Nas salas de telemarketing, os atendentes estão estressados pela intensidade das reclamações e das agressões verbais que ouvem durante grande parte do seu turno. Na emergência superlotada de hospitais ou postos de saúde, enfermeiros trabalham com medo de agressões (verbais e físicas) de pacientes insatisfeitos que aguardam atendimento. Gerentes comerciais estão sofrendo do que julgam ser o “descomprometimento” da equipe, associado às cobranças por resultados que ultrapassem as expectativas previstas. São realidades que fazem desses profissionais os primeiros alvos na lista dos reféns da síndrome.

Um dos principais pesquisadores a estudar essa síndrome foi Herbert Freudenberg, o qual a associa a “um incêndio devastador, um incêndio interno que reduz a cinzas a energia, as expectativas e a autoimagem de alguém que antes estava profundamente envolvido em seu trabalho”. Segundo esse autor, o perfil de pessoas mais propensas a esse “apagão interno” é o de (1) pessoas com alto grau de dinamismo e propensas a assumir papéis de alta liderança e responsabilidade, e (2) idealistas que canalizam intenso empenho a fim de alcançar metas normalmente inalcançáveis.

Doença comum no século 21

Adoecer emocional e/ou mentalmente em consequência de vivências no trabalho tem sido algo muito frequente no século 21. Estudos têm apontado principalmente para os profissionais que trabalham diretamente com pessoas como sendo os mais suscetíveis a desenvolver a Síndrome de Burnout. Segundo Freudenberg e Richelson, “o profissional paga por sua dedicação ao cuidar de outras pessoas ou por causa de intensa luta para alcançar uma grande realização”.

O burnout seria uma forma de “resposta emocional” para todo o estresse (que em muitos casos já se tornou crônico) decorrido da relação do indivíduo com o trabalho. “É um estado que vai corroendo progressivamente a relação da pessoa com sua atividade profissional.”¹ Em consequência disso, o profissional se sente intensamente esgotado e destituído de energia para dar conta das atividades de trabalho a ser desempenhadas no dia seguinte.

As reações geralmente apresentadas por profissionais com tamanho esgotamento são: intolerância, irritabilidade, nervosismo, amargura (no trabalho, fora do ambiente corporativo, com a família e até mesmo com os amigos), pouca generosidade, insensibilidade, comportamento rígido, inflexível, distanciamento de clientes e colegas de trabalho, pessimismo.

Uma pesquisa² realizada com trinta mil educadores revelou que um em cada quatro professores de escolas estaduais de ensino fundamental e médio do país apresenta alta exaustão emocional. Esse estado é definido como uma “situação em que o trabalhador sente que não pode dar mais de si mesmo”. A constatação é de uma pesquisa do Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília (UnB), feita a pedido da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE). Somando aos professores que manifestam alta exaustão emocional aqueles que têm traços moderados desse problema, chega-se à metade do contingente de profissionais que participaram da pesquisa. Esse estudo constatou que uma das maiores fontes de burnout na categoria é a sensação de desprestígio da profissão.

Um ranking nada bom

Essa síndrome não atinge apenas a área da educação. Cada vez mais profissionais estão sendo atingidos por esse “apagão” de energia. Um estudo realizado em oito países (Estados Unidos, Alemanha, França, Brasil, Israel, Japão, China e Fiji) e em Hong Kong (China) pela International Management Stress Association (Isma) mostrou que no índice de burnout o Brasil só perde para o Japão. Os japoneses lideram disparado o ranking entre os locais pesquisados: cerca de 70% dos trabalhadores vivem em estado de exaustão física e mental (no Brasil, o percentual chega a 30%). Em um estudo realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), “considerou-se o burnout uma das principais doenças dos europeus e americanos, ao lado do diabetes e das doenças cardiovasculares”.³ Na área de saúde, também são muito recorrentes casos desse tipo de esgotamento. Isso se evidenciou principalmente após estudo realizado no Rio Grande do Norte com 205 profissionais de três hospitais universitários.4 O resultado apontou para 93% dos participantes de um desses hospitais com níveis de burnout variando de moderado a elevado.

Sintomas

A principal característica observada é o estado de tensão emocional e estresse crônicos decorrentes das condições de trabalho física, emocional ou psicologicamente desgastantes. Segundo Maslach & Jackson, a síndrome de esgotamento profissional é composta por três elementos centrais:

Exaustão emocional – sentimentos de desgaste emocional, esvaziamento afetivo, desesperança, solidão, depressão, raiva, impaciência, irritabilidade, tensão, sensação de baixa energia, fraqueza, cefaleias, náuseas, tensão muscular, dor lombar ou cervical, distúrbios do sono.

Despersonalização – reação negativa, insensibilidade ou afastamento excessivo do público que deveria receber os serviços ou os cuidados do trabalhador.

Diminuição do envolvimento pessoal no trabalho – sentimento de diminuição de competências e de sucesso no trabalho.

As profissões em que mais recorrentemente se encontram esse tipo de síndrome são as relacionadas com cuidadores, tais como: professores, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, recursos humanos, agentes penitenciários, bombeiros, policiais e mulheres que enfrentam dupla jornada.

Se você é ou tende a ser vítima do burnout, é melhor tentar livrar-se dele logo. Segundo a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da Isma no Brasil, “esse é o nível de estresse mais devastador e, se agravado, pode levar à depressão profunda”.

Segundo Jaqueline Brito, pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), que entrevistou 265 professores, 55% deles estavam com alto nível de exaustão emocional por causa do trabalho. “Trabalhar com gente faz adoecer, e não é pouco. E não é o adoecer físico; é o mental”, diz Jaqueline. “Esses dados precisam nos levar a profundas reflexões sobre nossa relação com o trabalho.

Um do principais motivos que levam o profissional que está com esse intenso grau de esgotamento mental e emocional a adoecer também fisicamente é que todo esse sofrimento psíquico é projetado para o físico. “A pessoa tende a adoecer mais porque o sistema imunológico está comprometido. Há casos de pessoas que saíram de férias, descansaram e estavam bem, mas, ao voltar ao trabalho, apresentaram os sintomas novamente”, explica Ana Maria Teresa Benevides-Pereira, psicóloga e autora do livro Burnout: Quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador.

Consequências para as empresas

O estresse e o burnout também geram consequências para as empresas. Um exemplo disso pode ser percebido na fala de Anecelmo Macedo, assistente de departamento pessoal de uma grande indústria há 18 anos. Ele afirma que o número de funcionários com faltas ao trabalho (absenteísmo) e entrega de atestados médicos vem aumentando consideravelmente a cada ano. “Dificuldades gastrintestinais, cardíacas e emocionais, principalmente no que se refere aos desdobramentos
do estresse no trabalho, são os principais desafios enfrentados, juntamente com os problemas advindos do consumo de álcool”, declara.

Segundo a Isma, somente os EUA gastam, em média, 300 bilhões de dólares por ano com as faltas dos funcionários ao trabalho, a redução da produtividade e as despesas médicas e legais com profissionais que processam as empresas por terem adoecido.

A Síndrome de Burnout traz consequências negativas para as organizações, para a pessoa, para o segmento de trabalho (profissão) e para a sociedade.

Será que eu tenho?

O primeiro passo para identificar o burnout consiste em observar a si mesmo. É preciso prestar atenção e se autoanalisar racionalmente. Verificar como andam as expectativas, sensações e emoções no que tange à vida profissional.

Analisar também o que as pessoas ao redor falam a seu respeito. Verificar se há, repetidamente, comentários como: “Você anda muito estressado”, “Está irritado(a) novamente”, “Tenha mais paciência”. Também é importante prestar atenção às reações orgânicas. Verifique se não tem desenvolvido doenças de forma repetitiva (gripe, resfriado, dores de cabeça, problemas gástricos ou cardíacos).

Um dos métodos mais utilizados durante o processo de investigação é a utilização de um instrumento autoadministrável para avaliar como os profissionais vivenciam seu trabalho. Trata-se do Maslach Burnout Inventory (MBI), o primeiro instrumento a ser criado visando a avaliar a incidência da Síndrome de Burnout. Ele foi elaborado por Christina Maslach e Susan Jackson, em 1978. A versão atual do MBI é composta por 22 perguntas fechadas relacionadas à frequência com que as pessoas vivenciam determinadas situações em seu ambiente de trabalho. Apresenta escala do tipo Likert, com escala ordinal variando de 1 a 7 (1-nunca, 2-algumas vezes por ano, 3-uma vez por mês, 4-algumas vezes por mês, 5-uma vez por semana, 6-algumas vezes por semana e 7-todos os dias).

Prevenção é o melhor remédio

Muito melhor do que correr atrás do prejuízo é prevenir-se por meio de ações simples, mas que certamente fazem toda a diferença. A prevenção pode ocorrer em três esferas, sendo individuais, grupais e organizacionais:

Individuais – informação, autoanálise e autoconhecimento; gerenciamento das emoções e relação com o emprego.

Grupais – busca de apoio nos colegas e superiores; busca de apoio emocional e de outros tipos de ajuda de que se necessite.

Organizacionais – medidas de melhoria do clima organizacional; consciência e ações preventivas para com a Síndrome de Burnout como um problema de caráter coletivo e não individual.

Uma das melhores formas de prevenção é o cuidado com o estilo de vida. Hábitos saudáveis fazem sempre a diferença. Nesse caso, um programa sistemático de atividades físicas é indispensável, tanto na prevenção quanto durante o tratamento. Atividades como caminhada (se possível ao ar livre), corrida ou até mesmo musculação certamente farão a diferença. Exercícios de relaxamento também atuarão de forma poderosa no combate às tensões do corpo e, consequentemente, esse benefício se estenderá à mente. Invista em atividades que promovam descontração e lazer. Isso é fundamental para equilibrar as tensões e cobranças decorrentes da atividade profissional. Aproveite para se apegar mais à sua família. Estabeleça programas com seu cônjuge, fi lhos, pais, irmãos. Isso irá desencadear apoio emocional, acolhimento, união familiar, relax, lazer, descontração e desaceleração.

Outro remédio acessível e extremamente importante é a luz solar. Rica fonte de vitamina D, o sol energiza o corpo, melhora o humor e revigora a mente. É igualmente importante investir na hidratação do corpo. Portanto, beba cerca de oito a dez copos de água diariamente. Saboreie a água, beba calmamente, aos goles. Tome banhos mornos antes de dormir, utilizando bucha para friccionar a pele, eliminando, assim, as células mortas.

O ar puro é outro excelente remédio para equilibrar corpo e mente. Procure desfrutar desse elemento natural diariamente. Separe pelo menos cinco minutos a cada dia para exercitar sua respiração. Encoste os calcanhares no rodapé da parede; depois, os quadris, os ombros e a cabeça. Afaste-se da parede assim, ereto. Faça, então, seu exercício de respiração. Levante os braços, inspire (pelas narinas) tanto ar quanto lhe seja possível. O ar deve ocupar primeiro a base do pulmão, inflando automaticamente a região abdominal (não encolha a barriga). Segure-o nos pulmões por 20 a 30 segundos. Abaixe lentamente os braços, expire (pela boca). Inspire novamente, segure, expire, e assim por diante.

A confiança em Deus é o remédio que moverá todas as outras iniciativas de prevenção e cura. Somente Ele poderá, de fato, suprir nossas expectativas, ajudar a vencer nossos medos, ansiedades e promover equilíbrio em nosso ser. Dedique diariamente um momento para orar e para ler um trecho da Bíblia.

Reconsidere seu envolvimento emocional com o trabalho. É certo que estamos inseridos em um contexto de alta competitividade e a necessidade de autossuperação e conquista de resultados diferenciados de forma rápida são elementos essenciais para quem busca uma carreira promissora. Entretanto, é preciso respeitar os limites do próprio organismo.

É sempre importante refletir sobre o grau de expectativas que colocamos em nossa atividade profissional. Para alguns, a atividade profissional é o que possuem de mais importante. Isso é verdadeiro, em parte. Estar empregado é fundamental para nossa subsistência, senso de realização pessoal e profissional. Na realidade, o trabalho foi idealizado pelo próprio Deus. Entretanto, como tudo que é feito em excesso, traz prejuízos. Assim, precisamos investir uma equilibrada dose de energia na carreira, para podermos desfrutar dela sem perder a saúde.

Quem perde a saúde para se dedicar ao trabalho poderá em algum momento da vida ter que abrir mão da carreira profissional para se dedicar ao resgate da saúde. Portanto, o equilíbrio necessário a todas as áreas da vida também se faz necessário em nossa atividade profissional.

Wélida Dancini é pós-graduada em Psicopedagogia Clínico-Institucional, consultora de empresas, escritora, palestrante e mestranda em psicologia organizacional MBA em Gestão de Pessoas.

Referências:
1. França, A; Rodrigues, A. Stress e trabalho: uma abordagem psicossomática. São Paulo: Atlas, 2013.
2. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff21049827.htm
3. Glina, Débora e Rocha, Lys. Saúde Mental no Trabalho: da teoria à prática. São Paulo: Roca, 2010.
4. Borges, L.; Argolo, J.; Machado, E.; Silva, W. “A síndroma de burnout e os valores organizacionais: um estudo comparativo em hospitais universitários.” Psicol. Refl ex. Cris., v. 15, 2002.

 

JUNTAR AS ARTES AOS TRECHOS ABAIXO

 

Consequências do burnout

NO CORPO:
fadiga constante e progressiva, dores musculares, distúrbios do sono, cefaleias, perturbações gastrintestinais, imunodeficiência, resfriados e gripes constantes, afecções na pele, transtornos cardiovasculares, disfunções sexuais (diminuição do desejo sexual, dispareunia/anorgasmia em mulheres, ejaculação precoce ou impotência em homens), alterações menstruais.

NO PSIQUISMO:
falta de concentração, alterações de memória, lentidão de pensamento, sentimento de solidão, impaciência, sentimento de impotência, baixa autoestima, desânimo, agressividade, perda de iniciativa, consumo de substâncias (álcool, café, fumo, tranquilizantes, substâncias ilícitas), comportamento de alto risco e até suicídio.

 

TRABALHO:

Diminuição na qualidade do trabalho por mau atendimento, procedimentos equivocados, negligência, imprudência, predisposição a acidentes, falta de atenção, diminuição da concentração, abandono psicológico e físico do trabalho.

SOCIEDADE:

Comportamentos agressivos, distância afetiva, isolamento de familiares (cônjuges e filhos).

PROFISSÃO:

Rotulagem de profissão com alto nível de desgaste, afastamento de bons profissionais, escassez de mão-de-obra.

 

CRIAR TABELA COM OS PRINCIPAIS SINTOMAS

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