No centro da discórdia

Fazer a criança comer alimentos saudáveis é uma das tarefas mais árduas dos pais. Mas a missão pode se tornar ainda mais árida em um cenário de separação ou divórcio do casal. Como se não bastassem todos os conflitos envolvidos na dissolução do casamento, pai e mãe precisam lidar ainda com a mudança de hábitos à mesa e o contraste entre os padrões alimentares.

O impacto já é tema até mesmo em estudos científicos. No início de 2015, pesquisadores do Departamento de Psicologia da Universidade de São Francisco (EUA) estudaram por cinco dias o comportamento à mesa de 37 crianças entre 9 e 11 anos. O resultado, publicado na revista científica Childhood Obesity, mostrou que os filhos de pais divorciados tendem a ingerir mais refrigerantes, jantar fora de casa com mais frequência e não se alimentar adequadamente no desjejum – hábitos que favorecem os crescentes índices de obesidade. “As crianças estão à procura de consistência em seu ambiente familiar que forneça segurança e continuidade”, declarou um dos autores do artigo, o psicólogo Jeff Cookston.

As consequências podem ser ainda piores quando os pais têm pensamentos opostos sobre o regime de alimentação. Por exemplo: um deles é onívoro e o outro, vegano. O pai libera os doces e o fast-food, enquanto a mãe obriga a comer brócolis e arroz integral. Como conciliar?

Adepta do vegetarianismo em alguns períodos da vida, a terapeuta psicocorporal Lila Dione Metidieri, 49, viveu esse drama com o filho Gabriel, hoje com 21 anos. “Acredito muito no poder da alimentação saudável e quis que esse princípio fizesse parte da vida do Gabriel desde a gestação. Ele nunca teve problemas para comer legumes, não gostava do sabor de chocolate e até chegou a passar mal quando comeu brigadeiro em uma festinha de aniversário”, recorda. Porém, os hábitos na casa da família paterna eram bem diferentes. Churrascos e fast-foods, por exemplo, eram bastante comuns aos fins de semana de guarda compartilhada. “O pai queria agradá-lo e achava bacana oferecer tudo isso, realizando as vontades como forma de manifestar afeto. E, para piorar, quando foi crescendo, meu filho começou a gostar de comer carne”, conta.

Contrariada, Lila ainda tentou estimular a dieta mais natural dentro de casa, inserindo carne branca uma vez por semana. “Oferecia uma comida gostosa e saudável, às vezes, divertida, com decoração colorida e atraente. Evitava frituras e guloseimas com corantes e, quando possível, o incluía no preparo da comida.” Ainda assim, a mãe teve que aceitar o fato de Gabriel gostar de carne – exceto porco e derivados – e, na adolescência, se render aos refrigerantes, salgadinhos e hambúrgueres. “Agora, meu filho é adulto e mora sozinho. Mas percebo que muitos aprendizados sobre a qualidade na alimentação vão sendo resgatados à medida que o tempo passa”, diz, esperançosa.

Casos como esses podem terminar até em disputa judicial. Em junho deste ano, o Tribunal de Bérgamo, na Itália, obrigou uma mãe adepta da dieta macrobiótica (regime de origem oriental que valoriza os alimentos naturais, com pouco ou nenhum processamento) a incluir carne nas refeições do filho de 12 anos ao menos uma vez na semana. A ação partiu do próprio pai do garoto, defensor da ideia de que a alimentação onívora é essencial para o desenvolvimento saudável. Em contrapartida, o juiz definiu que o pai não deverá servir carne ao garoto mais que duas vezes no fim de semana.

A base do “acordo” demonstra preocupação com a saúde da criança, mas também revela preconceito. “De forma geral, a lei lida de maneira muito negativa com questões alimentares. Juízes e advogados não são especialistas no assunto e têm pouco conhecimento sobre dietas que restringem algum tipo de alimento”, analisa o advogado italiano Carlo Prisco, em entrevista à Vida e Saúde. Ativista vegano em Milão, ele relata que os tribunais tendem a favorecer o senso comum, a necessidade de comer carne, leite e ovos, sem levar em conta que a alimentação correta não depende necessariamente da proteína animal. “A tendência é haver repressão ao pai que fez uma escolha de alimentação diferente. Isso parte inclusive dos advogados, que alertam sobre o risco da perda da guarda”, diz.

Para além do âmbito jurídico, Prisco defende que a sociedade ocidental precisa reverter o paradigma de que onívoros são bons pais apenas por que são… onívoros. “A solução é mostrar que nem tudo aquilo que consideramos alimento o é realmente, pelo menos não para os vegetarianos. Ao contrário: muitas vezes representa ameaça para a saúde e para a vida”, raciocina.
O problema é que, mesmo nos meios médicos e acadêmicos, ainda existe a falsa ideia de que as proteínas de origem animal devem ser a maior fonte de ingestão proteica, pois teriam um valor biológico superior às de origem vegetal. No caso da criança, o mito adquire contornos ainda maiores, com o temor de que a dieta vegetariana incorra em deficiências nutricionais, comprometendo o desenvolvimento saudável.
“O fato é que a retirada da carne não afeta negativamente a nutrição. O reino vegetal nos fornece os nutrientes de que precisamos, inclusive o ferro”, afirma o médico nutrólogo Eric Slywitch, autor dos livros Virei Vegetariano, e Agora? e Alimentação sem Carne, ambos publicados pela editora Alaúde. Segundo ele, a dieta vegetariana tem, na verdade, pontos positivos para a criança, que tende a crescer com hábitos alimentares mais saudáveis e diversificados. “A alimentação sem proteína animal contribui muito para reduzir a prevalência de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, doenças cardiovasculares, diversos tipos de câncer e obesidade”, enumera. A vitamina B12 é o único nutriente encontrado apenas nos alimentos de origem animal. “Nesse caso, precisa ser obtida por meio de alimentos fortificados ou suplementação indicada”, diz o médico.

Substituição sem abusos
Em termos nutricionais, a substituição da carne não deve ser feita com abuso de ovos, leite e derivados – isso, sim, pode provocar deficiência nutricional. O melhor substituto em fonte de ferro é o feijão. “A troca básica é de 100 gramas de carne por uma concha de feijões cozidos, pois fornecem a mesma quantidade calórica e ainda mantêm um excelente perfil de aminoácidos essenciais”, indica Slywitch. Outras excelentes fontes vegetais de ferro são: ervilha, soja, grão-de-bico, quinoa, aveia, espinafre, lentilha, sementes de abóbora, castanha de caju e folhas verde-escuras. Anote aí: comer frutas cítricas como acerola (a campeã!), laranja, goiaba e limão duas vezes ao dia também ajuda a intensificar a absorção de ferro.

Verduras e legumes devem fazer parte da dieta infantil, mas não como base. Especialmente para crianças pequenas, o cardápio pode ser dividido em três partes similares, contendo cereais (arroz, pães, aveia), proteínas (ovos, laticínios, leguminosas, como feijão e lentinha; e oleaginosas, como nozes e castanhas) e hortaliças (verduras, legumes e amidos, como batata e mandioca). “Convém adicionar às refeições principais uma colher de azeite de oliva com linhaça. Além de o cérebro da criança demandar mais gordura que o do adulto, a linhaça é excelente fonte de ômega 3”, sugere Slywitch.

Vale lembrar que, em casos de divórcio, a preocupação com a alimentação da criança, vegetariana ou onívora, não deve ser assumida com exclusividade por um dos pais, de forma que um passe a imagem de rigoroso e o outro de permissivo. Afinal de contas, não existe ex-pai e ex-mãe, e a ruptura do casal, por si só, já provoca muito sofrimento. “A criança pode ter o apetite alterado devido à ansiedade com relação à dissolução do casamento e também descobrir na alimentação uma arma poderosa para chamar atenção e conseguir que seus desejos e vontades sejam facilmente realizados”, alerta a nutricionista Cláudia Lobo, pós-graduada em Educação Infantil e autora do livro Alimentação Saudável na Infância (MG Editores).

Não dá para evitar que a criança passe por uma fase de “luto”. Os pais, porém, não devem tentar aplacar a culpa da situação com concessões à mesa. “Recusas, birras e manhas são normais e inevitáveis. Faz parte do processo de aprendizagem”, afirma Cláudia. As batalhas à mesa devem ser tratadas da mesma forma como se a família continuasse debaixo do mesmo teto, isto é, prevendo a situação como normal e não se deixando estressar ou se render às vontades do pequeno reizinho (veja algumas dicas da nutricionista no quadro da página 12).

O ex-casal também deve tomar muito cuidado para que a criança não seja usada como munição para as desavenças e disputas materiais. “O processo de separação é naturalmente conturbado, e se a criança for usada como bode expiatório, tudo vai piorar, com o risco de abrir a porta para transtornos alimentares futuros, como bulimia e anorexia. A despeito de mágoas e rancores, o melhor caminho sempre é o diálogo aberto para definir o que é melhor para o filho, para evitar dualidades, com a consciência de que continuam juntos como pais”, pondera a psicóloga Melina Blanco Amarins, do Departamento de Psiquiatria e Psicologia Infantil do Hospital Albert Einstein, em São Paulo (SP).

Flexibilidade
Em casos de divergência, é importante um quê de flexibilidade. “O pai vegetariano, por exemplo, deve explicar para o filho que a carne não é o alimento mais saudável, mas não pode impedir a mãe onívora de servir o alimento, se a criança desejar comê-lo. O assunto deve ser tratado de forma natural, não punitiva”, orienta a psicóloga. O princípio do raciocínio é o de não criar associações equivocadas, como se, em uma das casas, a carne fosse um presente, e na outra a exclusão fosse uma punição. “A alimentação precisa ser um prazer. Rigidez demais confunde a mente infantil.”

O ex-cônjuge que saiu de casa precisa se reestruturar rapidamente para não cair na armadilha fácil de comer apenas fora de casa, onde, apesar da oferta de alimentos saudáveis, é mais difícil controlar teores de sódio, gordura e açúcar. Esse foi um impasse enfrentado pela consultora de negócios Daniela Dalla Vechia Brigo, 30, mãe de Filipe, de 9 anos. “Quando me separei, pouca coisa mudou na rotina alimentar do Filipe nos dias em que ele estava comigo. Mas tive que ser bastante paciente ao orientar o pai sobre a alimentação e entender que ele estava se adaptando a uma nova vida e a uma nova casa. Acredito que, em geral, é mais difícil para o homem oferecer uma estrutura melhor; demora um pouco… No início, a busca é pela praticidade”, diz ela.

A tal busca pela praticidade eram as refeições em fast-foods, quando Filipe estava com o pai. O menino gostou da “novidade” e pedia à mãe para comer esse tipo de comida também com ela. “Precisei explicar várias vezes que ele iria crescer e ficar mais forte com a comida da mamãe”, conta. Com o tempo, o diálogo e o amadurecimento, as coisas foram se ajeitando. “A alimentação com o pai melhorou bastante nos dois últimos anos. Hoje, o Filipe raramente faz mais que duas refeições por semana em fast-foods, e entende bem a importância de frutas e sucos naturais. Até mesmo nos fins de semana ele mantém essa escolha”, comemora Daniela. Outra preocupação foi a escolha da escola de período integral: a qualidade do cardápio foi fator decisivo na escolha. “Não tem chocolate, frituras e biscoito recheado. Então, ele nem sente falta dessas coisas.”

Em alguns casos, um nutricionista e um terapeuta familiar podem ajudar os pais a chegar ao consenso e a formular diretrizes que priorizem o bem-estar do filho. Mas essencial mesmo é que ambos o levem a consultas periódicas com o pediatra de confiança. É esse profissional que irá avaliar o cardápio oferecido, fazer o exame físico completo, incluindo a aferição de peso, altura e Índice de Massa Corporal (IMC). “Também podem ser necessários testes complementares para diagnóstico de problemas de nutrição, como anemia, carência de vitamina D e hipercolesterolemia, a elevação patológica do colesterol”, informa a pediatra Maria Márcia Nogueira Beltrão, do programa de pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Vale frisar que, mesmo com o fim do casamento, a paternidade é para sempre. Há algo ali a mais do que a herança genética: amor. E esse sentimento deve unir pai e mãe no sentido de dividir as responsabilidades pelo bem-estar da criança. “Saúde é uma construção que precisa ser compartilhada pelos familiares de forma harmônica, coerente e respeitosa, ainda que vivendo em casas separadas, com o pacto de diretrizes alimentares a ser seguidas por ambos na tarefa de alimentar o filho”, finaliza a pediatra.

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