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Pesquisas científicas mostram que fomos programados para funcionar em períodos definidos. Levar isso em conta significa ter mais saúde

Por Everton F. Alves

 

O organismo humano mantém seu próprio relógio biológico. Ele possui um ritmo circadiano interno de 24 horas que impulsiona o aumento e a diminuição de moléculas nos diversos sistemas do nosso corpo.¹ Esse relógio também influencia nossa maneira de reagir aos remédios. Por exemplo, a cisplatina, medicamento contra o câncer, é mais eficaz e menos tóxica se for administrada à noite.² A adriamicina, por outro lado, é mais eficaz se for administrada de manhã. Outro fator conhecido é a necessidade que o ser humano tem de descanso. Nesse sentido, pesquisas afirmam a existência do ciclo circaceptano, um ritmo endógeno que exige um descanso a cada sete dias.

Ambos os tipos de ritmos biológicos são explicados pela cronobiologia, um novo campo científico interdisciplinar.¹ Nele, os cientistas percorrem os caminhos dos ritmos e seus movimentos oscilatórios, sua ligação com o ambiente externo, como as informações são recebidas e transmitidas através de um mundo pulsante para uma compreensão melhor da natureza humana. Essa não é fácil tarefa, pois é difícil detectar a maioria dos tique-taques de relógios biológicos. Eles operam logo abaixo da consciência humana, escondida nas estruturas celulares.

Em relação ao ritmo circaceptano, especificamente, o cronobiólogo Jeremy Campbell diz que essa é uma das grandes surpresas que surgiram pela cronobiologia moderna.³ Há alguns anos, poucos cientistas teriam esperado que ciclos biológicos de sete dias viessem a ser tão difundidos e estabelecidos. A origem desse ritmo é muito antiga, aparecendo em organismos unicelulares como as bactérias, afirma o autor. O fundador da cronobiologia, Franz Halberg, encontrou o ciclo de sete dias em uma alga primitiva (Acetabularia mediterranea) de supostos cinco milhões de anos na linha evolutiva de tempo.¹ Devido à semelhança de suas células microscópicas com uma taça de champanhe, a alga (planta) é popularmente conhecida como “copo de vinho da sereia”. Quando essa alga é exposta a horários artificiais alternados de luz e escuridão, ao longo de muitos dias, ela é de alguma forma capaz de traduzir toda essa influência em medidas de sete dias.

A existência do ritmo circaceptano também foi observada em um estudo realizado nos Estados Unidos que acompanhou durante vários anos a excreção de metabólitos urinários em homens saudáveis.4 Os resultados desse estudo demonstraram que a excreção urinária de metabólitos ocorreu em um período exato de sete dias, sugerindo que os ritmos circaceptanos são realmente endógenos e determinados geneticamente. Ao mesmo tempo, parece que esse ritmo de sete dias é capaz de responder aos reflexos circadianos do dia e da noite.4, 5 O transplante de órgãos em seres humanos, por exemplo, também é afetado pelo ritmo circaceptano.4 Jeremy Campbell explica que, quando um paciente recebe um transplante de rim, há um ritmo de cerca de sete dias, um aumento previsível na probabilidade de que o sistema imunológico rejeitará o novo rim. Um pico principal de rejeição ocorre sete dias após a operação, e quando um soro é dado para suprimir a reação imune, ocorre uma série de picos, com o aumento do risco de rejeição, em uma semana, duas, três e quatro semanas.³

Ademais, verificou-se que a frequência de acidente vascular cerebral,6 hemorragia cerebral subaracnoidea,e crise coronariana,8 seguem ciclos de sete dias, possivelmente devido à pressão sanguínea que também varia de acordo com um ritmo semanal. A taxa de mitose (divisão celular) no corpo também segue o ritmo circaceptano, o que torna isso importante para otimizar a administração de medicamentos contra o câncer.9 Além disso, um ciclo de sete dias foi encontrado no teor de ácido no sangue, nas células vermelhas do sangue, na frequência do batimento cardíaco, na temperatura oral, na temperatura da mama feminina, na taxa entre os neurotransmissores noradrenalina e adrenalina, e no aumento e diminuição do hormônio de enfrentamento do estresse, o cortisol.4, 10, 11

 

Ritmos semanais

Para os pesquisadores Susan Perry e Jim Dawson, os ritmos semanais parecem mais facilmente detectáveis quando o corpo está sob estresse, como quando ele está se defendendo contra um vírus ou bactéria. Por exemplo, os sintomas do resfriado (que indicam que o corpo está se defendendo contra um vírus) passam em cerca de sete dias. Os sintomas da varicela, como febre alta e pequenas manchas vermelhas geralmente aparecem quase exatamente duas semanas após a exposição à doença.12 Os médicos também têm observado que a resposta à infecção da malária e da pneumonia atinge o estado crítico em um período máximo de sete dias. Isso não é tudo, pois experimentos envolvendo ratos, moscas, plantas, artrópodes, abelhas, besouros e outras formas de vida também revelaram ritmos circaceptanos.1, 5, 13, 14

À primeira vista, pode parecer que o ciclo semanal de sete dias tenha sido herdado por uma cultura humana de milhares de anos atrás.12 Mas essa teoria não se sustenta quando se percebe que o ciclo circaceptano ocorre em outros seres vivos, além de humanos. Portanto, a Biologia, não a cultura, provavelmente seja a fonte da semana de sete dias.10 Aliás, a França (1793-1805) mudou a semana de sete dias para uma semana de dez dias, e a União Soviética (1929-1940) a mudou para uma semana de cinco dias, ambos os países acreditando que os sete dias fossem mera influência religiosa, mas a experiência da mudança terminou em fracasso completo em ambos os países, e a semana voltou ao seu modelo original.15 Nesse sentido, Campbell afirma que o ciclo de sete dias tem que ver com a lógica interna do corpo, não com a lógica externa do mundo.3 Para Campbell, a estrutura temporal interna parece determinar a estrutura do tempo exterior, em vez do contrário. Ritmos de cerca de sete dias surgiram em milhões de criaturas vivas anos antes de a semana do calendário ser inventada, o que pode ser a razão pela qual ela foi inventada.³

Ao mesmo tempo em que existem ritmos diários (circadiano) e semanais (circaceptanos) para determinadas funções biológicas nos seres vivos, também existem ritmos para o descanso. Temos um relógio biológico que determina quando necessitamos descansar. Pesquisas indicam uma associação positiva entre o descanso no sétimo dia da semana e a longevidade humana. Observou-se que indivíduos que descansam no sábado têm uma expectativa de vida maior que outros que não o fazem.16, 17, 18 Os números apontam um acréscimo de vida de quatro a dez anos, pelo fato de o descanso nesse dia representar uma forma de gestão do estresse e diminuição da pressão sobre o organismo. Em 2014, outro estudo realizado em uma amostra de 5.411 pessoas revelou que aqueles que descansam no sábado são mental e fisicamente mais saudáveis do que os que consideram esse dia como qualquer outro da semana.19

Embora a ciência moderna necessite de mais pesquisas a fim de validar essas evidências em favor do sétimo dia da semana como o dia ideal de descanso, a Bíblia há muito tempo já indicava um dia abençoado e separado especialmente para satisfazer as necessidades humanas de descanso semanal. Esse dia é, sem dúvida, o sétimo de cada semana, o sábado. O Criador diz: “O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Marcos 2:27; leia também Êxodo 20:8-11). É o ritmo do projeto ideal, uma sincronia para viver e funcionar de forma saudável, como planejado.

 

A cronobiologia e os ritmos do ser humano

A cronobiologia é uma área das ciências médicas e biológicas reconhecida oficialmente em 1960. O primeiro cientista a suspeitar da existência de autênticos relógios biológicos foi um astrônomo – o francês Jean-Jacques De Mairan, que, em 1729, observou que uma planta (a mimosa-sensitiva) ao lado do seu telescópio abria conforme a luminosidade. Intrigado, levou o vaso para o porão, dentro de um baú. De Mairan verificou que mesmo nessas condições de total escuridão a planta continuava a se movimentar como se acompanhasse o dia e a noite.

(Fonte: Superinteressante)

 

Everton F. Alves é enfermeiro e mestre em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Maringá

 

Referências:

  1. Halberg F. “Quo Vadis Basic and clinical Chronobiology: promise for health maintenance.” Am J Anat., 1983; 168(4):543-594.
  2. Hrushesky WJ. “Circadian timing of cancer chemotherapy.” Science, 1985; 228(4695):73-5.
  3. Campbell J. Winston Churchill’s Afternoon, Nap. New York: Simon and Schuster, 1986.
  4. Levi F, Halberg F. “Circaseptan (about-7-day) bioperiodicity – spontaneous and reactive – and the search for pacemakers.” Ric Clin Lab.1982; 12(2):323-70.
  5. Meyer-Rochow VB, Brown PJ. “Possible natural circaseptan rhythm in the beach beetle Chaerodes trachyscelides white.” Acta Neurobiol Exp (Wars). 1998; 58(4):287-90.
  6. Manfredini R, Gallerani M, Portaluppi F, Salmi R, Fersini C. “Chronobiological patterns of onset of acute cerebrovascular diseases.” Thromb Res.1997; 88(6):451-63.
  7. Feigin VL, Anderson CS, Anderson NE, Broad JB, Pledger MJ, Bonita R, “Australasian Co-operative Research Group on Subarachnoid Haemorrhage Study (ACROSS) and Auckland Stroke Studies. Is there a temporal pattern in the occurrence of subarachnoid hemorrhage in the southern hemisphere? Pooled data from 3 large, population-based incidence studies in Australasia, 1981 to 1997”. Stroke. 2001; 32(3):613-9.
  8. Kanabrocki EL, Sothern RB, Bremner WF, Demakis JG, Bean JT, Ringelstein JG, Riley C, Fabbrini N, Crosby TJ, Mermall H, Jane III LHC, Shirazi P, Olwin JH. “Weekly and yearly rhythms in plasma fibrinogen in hospitalized male military veterans.” Am J Cardiol. 1995; 76(8):628-31.
  9. Blank M, Cornelissen G, Halberg F. “Circasemiseptan (about-half-weekly) and/or circaseptan (about-weekly) pattern in human mitotic activity?” In Vivo 1995; 9(4):391-4.
  10. Haus E. “Chronobiology in the endocrine system.” Adv Drug Deliv Rev.2007; 59(9-10):985-1014.
  11. Lee MS, Lee JS, Lee JY, Cornélissen G, Otsuka K, Halberg F. “About 7-day (circaseptan) and circadian changes in cold pressor test (CPT).” Biomed Pharmacother.2003; 57(Suppl 1):39s-44s.
  12. Perry S, Dawson J. The Secrets Our Body Clocks Reveal. New York: Rawson Associates, 1988.
  13. Mikulecky M, Bounias M. “Worker honeybee hemolymph lipid composition and synodic lunar cycle periodicities.” Braz J Med Biol Res.1997; 30(2):275-9.
  14. Schweiger HG, Berger S, Kretschmer H, Mörler H, Halberg E, Sothern RB, Halberg F. “Evidence for a circaseptan and a circasemiseptan growth response to light/dark cycle shifts in nucleated and enucleated Acetabularia cells, respectively.” Proc Natl Acad Sci USA.1986; 83(22):8619-23.
  15. Zerubavel E. The Seven Day Circle. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1985.
  16. Buettner D. “The secrets of long life.” (Cover story). Nat Geogr.2005; 208:2-27.
  17. Buettner D. The Blue Zones: Lessons for Living Longer from the People Who’ve Lived the Longest. Washington, D.C.: National Geographic Society, 2009.
  18. Lee JW, Morton kr Walters J, Bellinger DL, Butler TL, Wilson C, Walsh E, Ellison CG, McKenzie MM, Fraser GE. “Cohort Profile: The biopsychosocial religion and health study” (BRHS). Int J Epidemiol. 2009; 38(6): 1470-1478.
  19. Superville DJ, Pargament KI, Lee JW. “Sabbath keeping and its relationships to health and well-being: A mediational analysis.” International Journal for the Psychology of Religion 2014; 24(3):241-256.