Nos últimos anos, o jejum tem recebido atenção científica, graças aos seus potenciais sobre a saúde humana.

Por Késia Diego Quintaes

 

O padrão alimentar mais comum nas sociedades modernas – três refeições intercaladas por lanches todos os dias – está sendo colocado em xeque. Hoje há um crescente interesse por outro aspecto fundamental da dieta: o tempo entre as refeições, devido aos benefícios potenciais de períodos intermitentes com ingestão de energia muito baixa ou nula. Em situação de privação de alimentos, o corpo humano mostra respostas adaptativas à falta deles. Nessa condição, o organismo usa respostas comportamentais, bioquímicas, fisiológicas e estruturais para reduzir o metabolismo, prolongando o período em que as reservas energéticas corporais podem suprir as necessidades basais.

As descobertas atuais sugerem que períodos intermitentes de restrição de energia de apenas 16 horas podem melhorar os indicadores de saúde e neutralizar os processos de doenças. Os mecanismos envolvem uma mudança orgânica no metabolismo de gordura, com produção de corpos cetônicos e estimulação de respostas de estresse celular adaptativo que previnem e reparam danos moleculares. Assim, nos últimos anos, o jejum tem recebido atenção científica, dadas as suas potenciais implicações sobre a saúde humana.

 

 

O jejum medicinal atraiu um número crescente de pacientes a partir da década de 1950. As curas com uso do jejum foram desenvolvidas e estabelecidas com sucesso em sanatórios especializados, incorporando períodos de jejum total ou modificado dentro de tratamentos com abordagem integral e de alteração do estilo de vida.

Uma breve história do jejum

Durante séculos, muitas formas de jejum foram adotadas pelo ser humano com propósitos religiosos/espirituais. A restrição energética (calorias), com ou sem obrigatoriedade de limitação de certo tipo de alimento, é um componente-chave da maioria das religiões. No entanto, jejuar como tratamento medicinal tem sido usado como método terapêutico de valor também para doenças crônicas e agudas.

Na medicina europeia, o jejum foi estabelecido como terapia desde Hipócrates (460-370 a.C.) e, posteriormente, recomendado pela maioria das escolas médicas como coadjuvante no tratamento de várias doenças. O uso do jejum no tratamento medicinal seguiu a observação empírica de que infecções e doenças agudas são frequentemente acompanhadas por uma resposta anoréxica.

Ainda na Europa, o jejum medicinal atraiu um número crescente de pacientes a partir da década de 1950. As curas com uso do jejum foram desenvolvidas e estabelecidas com sucesso em sanatórios especializados, incorporando períodos de jejum total ou modificado dentro de tratamentos com abordagem integral e de alteração do estilo de vida.

Em 1982, a Sociedade Médica para o Jejum e a Nutrição foi fundada e, em 2002 foram publicadas as primeiras diretrizes sobre o jejum terapêutico, sendo atualizadas em 2013. No início do século 20, três médicos norte-americanos propuseram um método de jejum composto por privação de alimentos com permissão para água e chá. Durante o tratamento, eram feitas sessões de exercício e lavagens intestinais. Posteriormente, apesar da base científica, pouca atenção foi dada ao jejum nos Estados Unidos.

Recentemente, o interesse foi renovado com as crescentes evidências do jejum em proporcionar efeitos fisiológicos benéficos substanciais, até na prevenção de doenças. Maior longevidade e ação antienvelhecimento decorrentes do jejum foram descritas para uma infinidade de espécies, com detalhamento dos mecanismos moleculares responsáveis pelas respectivas consequências. Hoje, o jejum é uma terapia que tem sido usada em hospitais especializados em vários países da Europa e dos Estados Unidos.

Outro mecanismo ativado pelo jejum está relacionado aos produtos finais derivados de reações entre glicoseproteína ou glicose-lipídio, conhecidos pela sigla AGEs, os quais são gerados pela dieta em grande quantidade. A ligação dos AGEs com seu receptor orgânico (RAGE) gera ativação celular, tendo como resultado o aumento na expressão de mediadores inflamatórios e de estresse oxidativo. Os AGEs são intimamente ligados à patogênese e à progressão da inflamação e das doenças relacionadas à idade. Há evidências de que o jejum pode reduzir a quantidade de AGEs no corpo humano.

Além desses mecanismos, existem outros que envolvem o sistema endócrino e as respostas neuroendócrinas. Os mecanismos biológicos incluem a redução de disponibilidade de glicose ao cérebro, redução dos níveis de leptina e insulina e da sensação de fome. O jejum leva à baixa de leptina, sendo este um sinal forte para a adaptação biológica à privação de alimentos. Os neurotransmissores cerebrais também podem estar envolvidos nas respostas neurobiológicas decorrentes do jejum.

Situações patológicas

O jejum ou eliminação de certos alimentos da dieta tem sido indicado como benéfico pelos pacientes com artrite reumatoide. Estudo norueguês realizado com 27 pacientes com artrite reumatoide submetidos a jejum de 7 a 10 dias seguido por um ano sob dieta vegetariana personalizada mostrou redução na atividade da doença e também numa variedade de marcadores laboratoriais. Os autores concluíram que esse tratamento poderia ser uma alternativa ao tratamento convencional. Um amplo estudo de revisão publicado em 2001 mostrou que o jejum seguido por dieta vegetariana é benéfico aos pacientes com artrite reumatoide. Também pacientes com osteoartrite têm sido beneficiados com o jejum, apresentando melhoria na intensidade da dor, na qualidade de vida e nas funções articulares, segundo pesquisa alemã de 2010.

Quanto ao câncer, até recentemente, o jejum não era considerado uma opção válida, dado que o objetivo do tratamento paliativo dos pacientes oncológicos reside em evitar a perda de peso. Porém, como os efeitos colaterais da quimioterapia são mediados pelo estresse celular, a restrição energética para promover a resistência ao estresse ganhou interesse na pesquisa oncológica. O jejum intermitente ou de curto prazo pode proteger o organismo de efeitos tóxicos de agentes oxidativos e quimioterápicos e, ao mesmo tempo, não causar perda de peso crônica. Ademais, o jejum reduz o fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1 (IGF-1), uma proteína-chave na promoção do câncer.

Em 2012, pesquisadores da University of Southern California demonstraram em laboratório os benefícios do jejum de curto prazo no câncer. Ciclos de jejum foram tão eficazes como os agentes quimioterápicos no atraso da progressão de diferentes tumores e aumentaram a eficácia dos quimioterápicos contra o melanoma, glioma e células de câncer de mama. Em ratos com neuroblastoma, os ciclos de jejum junto à quimioterapia resultaram em sobrevivência sem câncer em longo prazo. O jejum de 48 a 60 horas ainda protegeu os ratos dos efeitos secundários do etopósido (droga anticâncer).

Também foi mostrado que o jejum impede os processos de reprodução e de crescimento em células normais do corpo, realocando a energia para as vias de manutenção. A mudança antiestresse ocorre nas células normais quando há escassez de nutrientes, mas não nas células cancerosas. A incapacidade das células cancerosas em responder ao déficit de nutrientes representa um mecanismo útil no tratamento oncológico.

Pacientes oncológicos que voluntariamente decidiram fazer quatro a cinco dias de jejum em combinação com a quimioterapia experimentaram significativamente menos efeitos adversos, segundo estudo liderado por Fernando Safdie, da University of Southerm California. Até o momento, tem sido sugerido que os períodos de jejum em pacientes oncológicos sejam mantidos pelo menos até 24 horas após a quimioterapia para minimizar a toxidade aumentada do tratamento às células normais na fase de realimentação.

Clinicamente, jejuar por dois ou três dias antes e 24 horas depois da quimioterapia parece ser bem tolerado pelos pacientes oncológicos. Após os dias de jejum, a recuperação do peso perdido ocorre naturalmente. Pesquisadores norte-americanos mostraram que os ciclos de jejum foram tão eficazes quanto os quimioterápicos para retardar a progressão de alguns tumores e aumentaram o resultado dos fármacos contra melanoma, glioma e células de câncer de mama. No entanto, o estado atual da pesquisa não garante o jejum como tratamento autônomo, mas como aditivo sinérgico à quimioterapia e, possivelmente, também à radioterapia.

Nas orientações de consenso de especialistas sobre a terapia de jejum, bem como na prática clínica, o jejum também é indicado como opção de tratamento para outros problemas, como intolerâncias alimentares, doenças de pele (ex.: urticária, neurodermite) e infecções recorrentes. Doenças como asma, doença inflamatória intestinal, esclerose múltipla e alergias, nas quais a ativação dos linfócitos T2 está envolvida, têm indicação para o jejum terapêutico, embora apenas dados preliminares de ensaios prospectivos estejam disponíveis.

Efeito do jejum em animais

Estudo com animais realizado na Universidade Jonhs Hopkins, nos Estados Unidos, enfatizou os efeitos do jejum intermitente na melhoria do funcionamento do cérebro (sinalização neurotrófica, biogênese mitocondrial, etc.) e redução dos danos cerebrais relacionados à idade, como os observados no mal
de Parkinson e Alzheimer.

Avaliação do jejum intermitente sobre a saúde de animais experimentais indicou que o ­tratamento reduziu o peso (16%), a glicemia (25%) e a insulina (40%) após seis meses. Porém, o retorno dos animais à dieta sem jejum fez com que o peso voltasse ao valor previamente estudo. Pesquisadores mostraram também que animais submetidos ao jejum intermitente apresentavam desde o primeiro mês redução na pressão sanguínea e nos batimentos cardíacos.

O jejum alternado com dietas rica (4,76 kcal/g) e pobre (3,85 kcal/g) em gordura foi estudado em ratos. Ambos os grupos tiveram ganho de peso até o fim da quarta semana do ensaio. No entanto, a gordura visceral decresceu enquanto a subcutânea aumentou. Os níveis dos triglicérides reduziram 55 e 31% nos grupos com pouca e muita gordura, respectivamente; enquanto o colesterol total reduziu 27% apenas no grupo que fazia jejum alternado com dieta pobre em gordura.

De forma geral, os estudos com animais têm mostrado que o jejum intermitente melhora a composição corporal, ativa diferentes vias metabólicas resultando em redução do dano inflamatório, melhorando a proteção celular, aumentando a sensibilidade à insulina, melhorando a resposta celular adaptativa e desencadeando a autofagia. Porém, ainda não se sabe até que ponto os resultados podem ser os mesmos para os humanos.

Contraindicações e intercorrências

Relatos científicos apontam que óbitos durante o jejum ocorreram apenas em indivíduos obesos submetidos a ­períodos prolongados de jejum (mais de dois meses) sob dietas proteicas líquidas. Esses pacientes ficaram desnutridos e morreram durante a fase de realimentação, por desequilíbrio eletrolítico com consequente insuficiência respiratória e cardíaca. Por outro lado, não há na literatura casos de síndrome de realimentação após o jejum de curto prazo. Com relação às proteínas, existe a preocupação com a perda de reservas proteicas (massa magra) induzida pelo jejum. No entanto, as evidências sobre o jejum terapêutico mostram que ele é uma abordagem segura, não levando a uma perda proteica relevante.

Pequenos efeitos adversos são relatados por 10 a 20% dos indivíduos e incluem dor de cabeça inicial (geralmente devido à falta de cafeína), dores nas costas e tontura por pressão baixa. Pessoas que têm síndrome de Gilbert, caracterizada por alteração no metabolismo das bilirrubinas, podem apresentar altos níveis de bilirrubina no sangue e desconforto geral durante o jejum. Outros problemas do jejum terapêutico estão relacionados à interação medicamentosa (ex.: diuréticos).

Na prática, os estudos têm mostrado que a fome é moderada durante o jejum, com leve desconforto na fase inicial, do primeiro ao terceiro dia de jejum, quando o metabolismo está entrando em lipólise e produzindo corpos cetônicos. As queixas típicas nesse contexto incluem cansaço, náusea e alteração dos padrões de sono. Pessoas saudáveis podem praticar o jejum intermitente, visando a driblar possíveis riscos e obter os máximos benefícios à saúde. No caso de jejuns de longa duração e/ou presença de patologia, o acompanhamento médico é indispensável.