Seus benefícios nada têm que ver com perda de peso ou proteção do coração.
Késia Diego Quintaes

 

O mercado é afetado pelas constantes idas e vindas de alimentos que prometem revolucionar a saúde. Atualmente, o óleo de coco é um bom exemplo dos modismos alimentares que surgem envoltos em promessas milagrosas: prevenção de doenças cardiovasculares, degenerativas, combate à obesidade, redução do colesterol, além de proporcionar benefícios dermatológicos ao cabelo e à pele, entre outras vantagens.

Entretanto, essas alegações são muito mais antigas do que se pensa. Por milhares de anos, os produtos à base de coco têm sido considerados de alto valor na medicina popular indiana, sendo atribuídas a eles propriedades anti-hemorrágicas e antimicrobianas, por exemplo.

Óleo, leite, creme e água de coco já eram usados para tratar perda de cabelo, queimaduras e problemas cardíacos, na Índia, há pelo menos quatro mil anos. Lá, o óleo de coco ainda é considerado “uma farmácia em um frasco”.

Já nos Estados Unidos há registros de que o óleo de coco era uma das principais fontes de gordura dietética, em conjunto com as gorduras lácteas e animais, até 1940, justamente antes do advento da indústria de refino de óleos (soja e milho, principalmente).

Frente a tantos possíveis benefícios, a demanda mundial pelo produto aumentou muito, bem como sua produção, que pode ser obtida por meio de dois grupos distintos de coqueiros: o anão e o alto.

A produção anual de cocos já chega a 7.562 milhões, com média de 5.300 cocos por hectare plantado. Em 2010, foram produzidas 3,5 milhões de toneladas métricas de óleo de coco, sendo as Filipinas, seguidas pela Indonésia e Índia, os principais produtores. No entanto, a maior parte do total produzido é exportada (dois milhões de toneladas métricas). Um dos grandes países importadores são os Estados Unidos, onde a média anual do consumo de óleo de coco é de 1,28 kg por pessoa. Na União Europeia, o consumo anual é similar (1,3 kg por pessoa). Não há dados sobre o consumo no Brasil, onde o preço de um frasco com 200 ml de óleo de coco beira os 20 reais.

Tipos de óleo de coco

Basicamente, há dois tipos de óleo de coco: o comercial (OCC), produzido a partir da polpa de coco desidratada e passada por processos de refinação, branqueamento e desodorização, e o óleo de coco virgem (OCV), que é obtido a partir da polpa fresca e madura, por meios mecânicos ou naturais, com ou sem o uso de calor, isento de refino químico. O OCV pode ainda sofrer fermentação posterior, conforme o interesse do produtor.

Ao contrário do OCC, que é produzido por método seco, o OCV é produzido por método aquoso, sem uso de solventes. O custo da produção é menor, porém o teor de óleo obtido é baixo, limitando o interesse comercial. O processo aquoso envolve a quebra da emulsão do leite de coco, tarefa complexa devido à alta estabilidade do produto. Assim, a produção do OCV vem predominantemente do trabalho de cooperativas, com extração artesanal, de forma amigável com o meio ambiente. Como requer tempo e mão de obra, o preço final do OCV é mais alto do que o do OCC.

Até o momento, não foi estabelecido nenhum requisito específico para a produção de OCV. Com base na definição de óleo virgem, entende-se que, enquanto o óleo não passar pelo processo de refino, branqueamento e desodorização, e não levar à alteração da sua natureza, ele pode ser considerado OCV. A composição química dos dois tipos de óleo de coco (OCC e OCV) se diferencia ligeiramente, sendo as maiores diferenças observadas entre os variados produtos do coco (água, polpa fresca e polpa desidratada).

 

Fonte de ácidos graxos?

Em função do alto teor de lipídios saturados (83 a 92%), o óleo de coco, comercial ou virgem, tem sido classificado como fonte de ácidos graxos saturados, os quais devem estar presentes na dieta humana em baixa quantidade. Destrinchando os tipos de lipídios encontrados no óleo de coco, é possível ver que há predomínio do ácido graxo láurico, saturado e com 12 carbonos, representando até 53% dos ácidos graxos encontrados.

O ácido graxo láurico apresenta digestão e metabolismo similar aos ácidos graxos de cadeia longa, sendo majoritariamente (70-75%) absorvido como quilomícrom. Tais características se contrapõem aos ácidos graxos de cadeia curta (C6 a C10), os quais são rapidamente e quase que totalmente (95%) absorvidos pela veia porta e levados ao fígado. Em função das diferenças nas estruturas, absorção e metabolismo, fica evidente que o comportamento dos ácidos graxos caproico, caprílico e cáprico não pode ser aplicado ao principal componente do óleo de coco, o ácido láurico.

Além dos constituintes lipídicos, o óleo de coco apresenta outros compostos de interesse funcional. Entre eles se destacam os compostos fenólicos, a vitamina E (alfa-tocoferol) e o betacaroteno (provitamina A), que conferem capacidade antioxidante ao óleo.

Entre os compostos fenólicos se destacam a epicatequina, catequina e os ácidos gálico, vanílico, p-cumarínico e clorogênico, conforme demonstrado por pesquisadores poloneses em 2016. No entanto, durante a produção do OCC, os antioxidantes são parcialmente eliminados, enquanto o OCV fermentado tem um acréscimo deles. A redução no teor dos antioxidantes naturalmente implica numa redução na capacidade antioxidante do produto e, por conseguinte, dos benefícios esperados à saúde.

 

 

 

Óleo de coco virgem

Produzido a partir da polpa fresca e madura, por meios mecânicos ou naturais, com ou sem o uso de calor, isento de refino químico. Pode sofrer fermentação posterior, segundo os interesses do produtor.

Óleo de coco comercial

Produzido a partir da polpa de coco desidratada, passa por processos de refinação, branqueamento e desodorização.

 

 

 

 

 

 

Óleo de coco na pele

– Friccionar o óleo diretamente sobre a pele auxilia na hidratação.

 Em caso de picadas de insetos, ele pode ser aplicado no local. Suas propriedades anti-inflamatórias auxiliam na recuperação.

 Pode ser usado nos lábios para prevenir ou tratar o ressecamento.

 

 

 

Pesquisas

Há 40 anos, quando dados dos nativos Tokelau (Nova Zelândia) foram coletados, os produtos à base de coco estavam sendo consumidos como parte de uma dieta caracterizada por baixa ingestão de alimentos processados.

Posteriormente, muitas populações nativas passaram a consumir a dieta ocidental, com importações de alimentos não saudáveis (alimentos enlatados, alimentos fast-food e ingredientes processados), levando a aumento expressivo na obesidade e na precariedade da saúde dessas populações nativas, conforme constatou a Organização Mundial da Saúde em 2010.

Os dados epidemiológicos referentes às populações que consomem regularmente o coco são mencionados como prova de que o óleo de coco não tem efeitos negativos sobre a saúde cardiovascular. Contudo, é importante notar que as populações nativas estudadas consomem a polpa do coco ou o creme de coco espremido, o que não é sinônimo de óleo de coco industrializado (OCC).

As populações nativas que consomem quantidades significativas de produtos à base de coco são da Índia, Sri Lanka, Filipinas, Polinésia e Melanésia. Suas estatísticas de saúde são frequentemente citadas como evidência de que o consumo de óleo de coco não apresenta risco para doenças cardiovasculares.

Nos estudos clínicos e experimentais, em que as variáveis podem ser mais bem controladas, o risco de doenças cardiovasculares em função do consumo de óleo de coco tem sido analisado com mais cuidado. Em agosto de 2016, foram publicados resultados de uma pesquisa conduzida na Índia, envolvendo uma centena de pacientes com doença coronariana. Os pacientes foram divididos em dois grupos: um recebeu óleo de coco e o outro, óleo de girassol.

Após dois anos usando os respectivos óleos no preparo de alimentos, foi verificado que, embora o óleo de coco seja rico em ácidos graxos saturados, em comparação com o de girassol, sua utilização culinária não resultou em alteração no perfil lipídico, bem como nos fatores de risco cardiovascular.

No entanto, no começo de 2016, foi publicada na revista Nutrition Reviews uma revisão sistemática sobre o efeito do consumo de coco nos fatores de risco cardiovascular, em humanos. De modo geral, o consumo de óleo de coco resultou em aumento do colesterol tipo LDL e HDL em relação aos óleos vegetais usados na comparação, porém em menor grau em relação ao consumo da manteiga. Foi concluído, também, que os óleos vegetais tradicionais são mais apropriados para a saúde cardiovascular em relação ao óleo de coco.

Assim, embora haja certa controvérsia sobre a questão do risco cardiovascular, não se pode esquecer que o OCV tem importantes compostos fenólicos que atuam como antioxidantes e protegem o colesterol LDL da oxidação, conforme já demonstraram pesquisas in vitro. A oxidação do colesterol LDL é altamente indesejável, enquanto sua proteção à oxidação é saudável.

Em estudo publicado no European Journal of Integrative Medicine, em janeiro de 2017, pesquisadores mostraram que os polifenois do OCV são capazes de inibir a resposta inflamatória derivada do colesterol LDL oxidado. Assim, concluiu-se que há um uso potencial do OCV como anti-inflamatório natural. Anteriormente, em 2014, pesquisadores reportaram no periódico International Immunopharmacology as potenciais vantagens do OCV no tratamento da artrite induzida em ratos, atribuindo as melhorias às atividades antioxidantes e anti-inflamatórias do produto.

Um estudo publicado na Food Chemistry, também envolvendo ratos, mostrou que o consumo do OCV estava associado ao aumento nos níveis das enzimas que compõem o sistema antioxidante do organismo, superando os demais óleos usados no teste. Os efeitos observados no grupo que ingeriu o OCV foram atribuídos às diferenças na absorção, no transporte e catabolismo dos ácidos graxos que compõem o referido óleo. Ademais, os pesquisadores ressaltaram que o OCV extraído do coco fresco tem maior conteúdo de componentes bioativos e é superior na capacidade antioxidante em relação ao óleo de coco obtido por processo seco (OCC).

Ensaio experimental publicado em março de 2017 mostrou que o OCV exerce um efeito protetor no fígado de ratos expostos ao metotrexato (droga anticâncer). Os pesquisadores sugerem que a proteção observada poderia ter aplicação benéfica aos pacientes que fazem uso de tratamento quimioterápico, devido ao dano ao fígado, embora seja necessária maior investigação.

Ainda no âmbito experimental, em maio de 2017, pesquisadores canadenses divulgaram na revista Neurochemistry International resultados promissores referentes à proteção dada pelo OCV aos neurônios corticais. O mecanismo do benefício observado poderia ser resultante da capacidade antioxidante do óleo, atribuída aos polifenois e aos ácidos graxos de cadeia média. Em 2014, os pesquisadores já haviam relatado resultados de experimento com OCV mostrando a sobrevivência de neurônios em culturas de células que receberam o composto.

O periódico Regulatory Toxicology and Pharmacology publicou em novembro de 2016 que o OCV fermentado, usado como alimento na medicina tradicional no sudeste da Ásia, é seguro para uso crônico. Para chegar a essa conclusão foram feitos testes de toxidade em animais experimentais (5.000 mg/kg). O grupo que recebeu o OCV fermentando consumiu mais água e alimentos em relação ao grupo controle, porém, sem evidências de anormalidades clínicas e morfológicas.

Os autores salientaram que, além de seguro para consumo, o OCV atende aos requerimentos das agências regulatórias. Pesquisadores também afirmam que o principal ácido graxo do óleo de coco, o láurico, tem funções antivirais, antibacterianas, anticáries, antiplaca e antiprotozoário.

Experimento conduzido com óleo de coco, em concentrações de 5 a 40%, indicou haver atividade bactericida contra P. aeruginosa, E. coli, Proteus vulgaris e Bacillus subtilis, o que foi atribuído ao monoglicerídio monolaurina (derivado do ácido láurico), já fazendo parte de composição de alguns cremes terapêuticos.

Fundamentado nesse princípio, o óleo de coco tem sido usado como hidratante para a pele, de forma eficiente e segura, com efeitos antissépticos. Segundo estudo in vitro publicado na revista Drugs Dermatology em 2007, a monolaurina mostrou ter atividade significativa contra isolados bacterianos gram-positivos e gram-negativos, encontrados em infecções superficiais da pele. Em 2008, a revista Dermatolgy sugeriu o uso do OCV e da monolaurina como coadjuvantes no tratamento proativo em casos de dermatite atópica devido à sua atividade in vitro de amplo espectro contra S. aureus.

Outros estudos têm mostrado com sucesso o efeito do óleo virgem de coco contra certos tipos de vírus (Epstein-barr, influenza, hepatite C, entre outros), bem como no combate aos fungos (Aspergillus sp, Penicillium sp, Fusarium sp, C. albicans, entre outros), sendo a monolaurina o principal responsável pelas atividades citadas. Estudos recentes têm usado com sucesso o óleo de coco como repelente de insetos, indicando o grande potencial do produto.

Atenção!

A resistência à oxidação e à polimerização conferem ao óleo de coco estabilidade culinária. Porém, há ressalva: ele é adequado para fritura por imersão, mas não deve ser reutilizado, devido ao seu baixo ponto de fumaça (temperatura na qual há produção de fumaça tóxica), o que pode levar à produção de substâncias potencialmente carcinogênicas quando superaquecido.

Além disso, estudo conduzido na Malásia e publicado em 2015 mostrou que animais experimentais que consumiram OCV aquecido (até 10 vezes sequenciais) tiveram elevação da pressão sanguínea e de biomarcadores inflamatórios, além de redução nos níveis de prostaglandina. Então, nada de superaquecer ou mesmo reutilizar o óleo de coco!

 

Afinal, o óleo de coco ajuda a emagrecer?

Depois de ler sobre tantas maravilhas do óleo de coco virgem, seria ótimo pensar que ele também atue no tratamento para perda de peso corporal, afinal, o excesso de peso é um dos problemas recorrentes na atualidade. No entanto, a literatura não apresenta evidências nessa área. Inclusive, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), bem como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e a Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), têm se posicionado contra o uso do óleo de coco como terapia emagrecedora.

Uma dieta variada, incluindo diversidade de tipos de óleos e gorduras, pode ser muito mais eficaz na perda de peso. Conforme divulgado pela revista Vida e Saúde, em 2017, o consumo regular de 25 g/dia de nozes contribui para o estabelecimento de um peso corporal saudável, entre outros benefícios.

Muitas pesquisas sobre os efeitos do OCV na saúde continuam em andamento. No entanto, merece destaque o fato de que o óleo de coco refinado ou comercial (OCC) tem composição e comportamento distintos do óleo de coco virgem (OVC), sendo este último dotado de potenciais propriedades benéficas à saúde e alvo das pesquisas científicas.

Até o momento, o que pode ser afirmado é que o OCV não é tóxico ao ser humano e possui compostos fenólicos com efeitos antioxidantes. Sua aplicação em formulações de produtos para a pele tem sido recomendada. Os efeitos do OCV em situações patológicas, como artrite e Alzheimer, permanecem em estudo e talvez num futuro próximo ele possa ser recomendado como parte do tratamento.

Todavia, não há evidências de que o OCV seja benéfico para perda de peso corporal. Por outro lado, quanto ao risco cardiovascular, os resultados são inconclusivos até o momento, aparentemente tendendo a mostrar que não há aumento no risco comparativamente a outros tipos de óleos, embora o OCV tenha elevado teor de ácidos graxos saturados.

Óleo de coco virgem ou refinado?

Pesquisadores da Universidade das Filipinas conduziram uma avaliação sensorial com consumidores para testar os atributos dos óleos de coco virgem e refinado (comercial). A comparação sensorial mostrou que o comercial apresentava coloração amarela, sabor levemente salgado e estava isento de aroma. Por outro lado, o óleo virgem de coco era incolor, tinha sabor doce e salgado e aroma perceptível de nozes.

 

Késia Diego Quintaes é doutora em Alimentos e Nutrição