sexta-feira, 24 maio

O dever de amar

Texto por: admin 8 março, 2016 Sem comentários

Outro dia, recebi uma ligação de alguém que estava preocupado com outro alguém de importância para mim. Após alguns minutos de conversa, desliguei, apreensiva, o telefone. Estar distante das pessoas que você gosta, sem poder atuar diretamente sobre o bem-estar delas causa grande aflição.

Afinal, você ainda teria influência sobre essa pessoa? Ela provavelmente mudou, mas você também mudou! Que tipo de fala poderia reintegrar ambas ao mesmo contexto? Pode ser complicado ter vontade de ajudar sem saber por onde começar.

Bem, mas quando falamos de ajuda, preocupação e influência, evidentemente, estamos falando de pessoas, e se falamos de pessoas, falamos de relacionamentos, e se falamos de relacionamentos, falamos da desafiadora missão de construir pontes, canais de significados eficazes a ponto de aproximar e não repelir.

Quando penso em relações de sucesso, imediatamente me vem à mente um ideal de família. Digo ideal, porque como seres humanos temos a tendência de idealizar quase tudo. Ah! E como somos duros quando a realidade nos afronta, expondo (com certo grau de crueldade) quão diferente o mundo real é do mundo de cristal que fantasiamos.

Pais perfeitos? Filhos que não testam a paciência? Irmãos, primos e tios que, vez ou outra, não se estranham ou, quem sabe, até se invejam? Acaba que a gente vai aprendendo a se acostumar com essas coisas, bem como a se proteger delas. Mas o ponto deste texto é outro, então prossigamos.

O que tenho para dizer tem que ver ainda com a ligação que recebi. Uma criança de pais já avançados em idade que, de repente, decidem se separar. A criança, com 13 anos, começa a “dar trabalho”. Cavando um pouco mais fundo, o que se percebe é a quebra da cláusula invisível que diz que amar é se responsabilizar até o fim.

Não se trata de falta de alimento, moradia, acesso à saúde, à educação ou qualquer outra coisa da ordem das necessidades básicas. Trata-se de um conflito entre “grandes” que se torna maior do que o valor “do pequeno”. Acho muito difícil falar para uma pessoa sobre coisas que são claras demais para mim, mas não são para ela. Sob alguns aspectos, isso pode soar ofensivo, arrogante ou até uma tentativa de colonização de um ponto de vista diferente. Mas também acho difícil não falar.

Não é regra, mas, na maioria das vezes, as crianças são concebidas com promessas veladas de amor e paz. Contudo, os votos de uma vida segura e cheia de ternura se diluem implicitamente pelos entraves colocados justamente por aqueles que fizeram tais promessas.

Senso de sacralidade

Os problemas sempre virão, os propósitos e as tão belas e boas intenções de ontem podem ser atropelados por circunstâncias inesperadas. Sim, isso é a vida! O que fazer com a responsabilidade de amar a criança quando os adultos, ao enfrentar suas intempéries pessoais, podem colocar em primeiro plano os próprios sentimentos e preferências?

Jamais existirá a situação perfeita e muitas coisas poderão, em algum momento, sair do controle, fugir da rota almejada. Mas o compromisso com a família, honrando a responsabilidade de amar (o que, na verdade, deveria ser um prazer), precisa ocupar o topo da lista; é desviar a atenção de si para pensar naquilo que trará harmonia a todos.

Eis uma oração curta, mas que colabora para a retomada do senso da sacralidade dos relacionamentos familiares: “Ó Senhor, Tu és Deus! […] Por Tua bondade, abençoa a família de Teu servo, para que ela continue para sempre na Tua presença; pois o que Tu, Senhor, abençoas, abençoado está para sempre” (1 Crônicas 17:26, 27, NVI).

Agatha Lemos é editora associada de Vida e Saúde

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