Aceitação que liberta

Apesar de ruim, a sensação de impotência diante dos problemas pode ser a chave para a superação deles

O alcoolismo tem um apelido: “doença da negação”. As vítimas do alcoolismo, que é uma doença, geralmente justificam o beber exagerado com argumentos que negam a verdade de que, no fundo, eles perderam o controle sobre a ingestão do álcool. Quando param com a negação e admitem ser impotentes diante da bebida, dão o primeiro passo para a recuperação, afinal, como alguém pode se recuperar de um problema que nega ter?

Vamos refletir aqui não somente sobre o alcoolismo, mas sobre as pessoas que convivem com alguém adicto, isto é, viciado ou compulsivo por algo: álcool, sexo, jogo, comida, trabalho, etc.

É comum que o familiar que convive com parente compulsivo (viciado) se torne exausto pela energia gasta ao longo do tempo para tentar fazer com que esse familiar pare com o vício. Ele pode ter tentado de tudo para ajudar, mas o comportamento da pessoa adicta (viciada), continua sem progresso.

Aliás, em se tratando de apoio ao alcóolatra, grupos de ajuda mútua chamam algumas atitudes de “três c” (causa, controle e cura): (1) Não causei o problema; (2) não posso controlar o problema; (3) não posso me curar do problema.

 

Não posso curar você

A palavra “problema” se refere ao vício. Então, se a compulsão for por drogas, o familiar precisa começar a pensar seriamente que ele não causou a adicção, não pode controlá-la e não pode curá-la.

É muito importante refletir sobre os três “c” porque é comum pensar algo do tipo: “Onde é que eu errei para que ele se tornasse uma pessoa compulsiva?”, “Se eu me tornar mais afetivo, ajudarei para que a pessoa abandone o vício?”

A resposta é simples: se você não causou, não pode controlar nem curar o problema. Você deve deixar nas mãos do adicto a responsabilidade pelos atos dele e pela escolha de procurar ajuda. Caso contrário, você perderá suas forças tentando “salvar” alguém. Sob profundo estresse, é possível até desencadear uma depressão.

A adicção é algo poderoso que altera o humor, tornando a pessoa muito egocêntrica e, por isso, nada do que alguém tente fazer funciona para mudar o comportamento do compulsivo, que nega ter problemas e que não quer ajuda. Então, é preciso abrir mão do controle, porque não se muda uma pessoa agindo diretamente sobre ela. O vício do alcoólico é o álcool, e o vício do parente do alcoólico é o controle.

Quanto mais um familiar negar a própria impotência diante da atitude compulsiva da outra pessoa, mais provavelmente continuará a tentar “salvar” essa pessoa das consequências do vício dela, facilitando a continuidade da adicção, porque o viciado pensará: “Ela faz tudo para mim. Quando bebo demais e passo mal sem poder ir trabalhar, minha esposa (filha, irmã, tia, mãe, etc.) telefona para o patrão e diz que estou passando mal porque tive uma indigestão. Quando vou preso por dirigir embriagado, pagam minha fiança e me libertam.” Na verdade, isso só reforça a continuidade do vício.

Admitir a impotência diante do viciado é o mesmo que entender que você não tem poder para mudar nem controlar a pessoa. Daí terá que abrir mão do controle, aceitar e enfrentar a realidade de que o viciado terá que decidir por si mesmo entrar num tratamento. E para que isso possa ocorrer, o melhor caminho é não mais ser manipulado pelo viciado, e deixar que ele assuma as responsabilidades naturais das escolhas que tem feito.

Parece contraditório, mas há poder em aceitar a impotência. Aceitando-a, você para de se estressar tentando mudar outra pessoa que talvez não queira mudar; para de ficar se culpando injustamente pelo vício do outro, e começa a viver a vida que é sua, e que é a que você precisa viver e deixar que o outro viva a vida que ele quer.

A melhor maneira de o outro admitir que precisa de ajuda é você deixar que ele assuma o preço do que ele faz. Quando, então, a pessoa compulsiva tiver que enfrentar as consequências dos seus exageros ou da perda de autocontrole sobre a substância ou comportamento vicioso, é mais provável que ela aceite e busque tratamento.

Cesar Vasconcellos de Souza
www.doutorcesar.com.br

 

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