domingo, 16 junho

Sinais emocionais no corpo

Texto por: Equipe VS 23 maio, 2019 Sem comentários

Apesar de não entendermos bem as emoções e, por vezes, parecerem misteriosas, elas exercem grande efeito sobre a vida. No aspecto físico, podem causar, inclusive, danos, minando o sistema imunológico e levando a doenças variadas. Tome-se o câncer como exemplo!

Nos relacionamentos, a má qualidade das emoções pode arruinar amizades, destruir casamentos, provocar isolamento e solidão. No trabalho, pode nos induzir ao choque com os colegas, confronto com os superiores, rejeição e, finalmente, decepção e fracasso.

Contudo, há também o lado otimista: assim como a emoção pode ser muito prejudicial, pode ser também muito benéfica. Dependendo da direção que damos a ela, podemos ser agraciados com um sistema imunológico mais robusto; ter excelente saúde e consequentemente longevidade. Graças a uma comunicação mais afetiva e branda, estabelecer relacionamentos satisfatórios; fazer o cônjuge mais feliz; ter mais sucesso no trabalho e usufruir de grande bem-estar. As emoções nas quais mais prestamos atenção ou valorizamos são as que realmente contribuem para vida ou morte.

A palavra emoção normalmente causa certo incômodo porque desperta em nós sentimentos, ora confusos, ora conflitantes, ora de rejeição. Na maioria das vezes, nossa reação à palavra é ambivalente. Não a aceitamos plenamente nem a rejeitamos totalmente. Talvez seja porque a simples palavra já provoque algum tipo de emoção. Nem sempre ao ser dita, é possível identificar se seu sentido é de afeto, humor ou de nada disso. É apenas um sentimento? É uma emoção específica, como raiva, medo, tristeza?

As emoções e você

Independentemente de a emoção ser desconfortável para nós, o fato é que ela precisa ser reconhecida. Devemos e precisamos com ela nos familiarizar, basicamente, por dois motivos:

  • Fisiológico: a emoção age sobre o corpo e chega até a consciência;
  • Motivacional: a emoção é a motivação que nos impele a agir em função dos sinais e pressões que ela exerce.

Ao me referir sobre a parte fisiológica da emoção, não estou preocupado em estabelecer uma fisiologia específica de cada emoção, apenas chamar sua atenção para pensarmos um pouco na importância de estar atento aos sinais e reações emocionais no corpo. É um modo de estar alerta para nosso estado emocional, muitas vezes ignorado, negado. Os efeitos de uma conduta assim levam, fatalmente, a um desajustamento emocional. Daí, chegar a certas patologias mentais e doenças físicas. Não se pode esquecer que o corpo insiste em nos conscientizar a fim de entendermos que precisamos respeitar os sentimentos se desejamos tomar boas decisões.

Você pode perceber suas emoções no seu corpo, começando pela face, que tende a empalidecer de medo, como avermelhar de vergonha. Além disso, na mudança da face pode ser observada a expressão feita pelo rosto ao refletir diferentes emoções como raiva, tristeza, repugnância, surpresa.

Nos olhos, a pupila se dilata para captar o máximo de estímulos para enfrentar o perigo iminente. A boca fica seca. A respiração acelera para levar oxigênio aos músculos das extremidades do corpo. O coração dispara a fim de transportar o oxigênio o mais rapidamente possível. Essas ocorrências são mais facilmente sentidas por nós, porque são perceptíveis. Podemos dar valor, prestar atenção a elas ou não. Conforme nos conscientizamos do que sentimos, podemos exercer maior ou menor controle da vida.

Sinais invisíveis

Além dos sinais visíveis das emoções, há muitas ocorrências operando no corpo sem que o indivíduo esteja percebendo. Onde e como a emoção começa é o problema. Há muitas perguntas e poucas respostas. As conclusões a respeito da operação das emoções sobre o cérebro mudaram muito no ultimo século.

Alguns atribuem ao sistema límbico o centro responsável pelas emoções. É por meio do Sistema Nervoso Autônomo que o sistema límbico exerce o controle dos comportamentos fundamentais à sobrevivência. Cabe ao Sistema Nervoso Autônomo, através do Simpático e Parassimpático, exercer a função de ativar rigorosamente o corpo para correr do perigo, ou para atacar o perigo.

É nesse momento que as pálpebras se alargam, as pupilas se dilatam, as glândulas sudoríparas entram em ação, os vasos sanguíneos dos músculos grandes se dilatam, os brônquios dos pulmões se abrem. Já, outras funções são inibidas. As glândulas na produção de seus hormônios aumentam ou diminuem sua produtividade. Não se pode desprezar a função do hipotálamo na atuação do Simpático.

Por outro lado, Joseph E. Ledoux apresenta a amígdala cerebral como um componente desempenhando… “um papel central na emoção; ela é vista não como um centro emocional, mas antes como um componente de uma rede emocional” (Emotional Networks in the Brain. Em M. Lewis, E.J.M. Haviland, p.110).

O conceito de rede emocional parece indicar que há vários componentes do corpo, todos reagindo em função da emoção. A amígdala interrompe muitos impulsos, reagindo de forma que o estímulo nem chegue ao conhecimento da pessoa.

Nas palavras de John T. Cacioppo e outros, “a emoção humana representa fenômenos que incluem cognição (sentimentos, memórias, avaliações), reações viscerais, humorais e imunológicas; gestos, vocalizações e demonstrações expressivas; orientações posturais e comportamentos abertos; ou combinações variadas de todos esses” (The Psychophysiology of Emotion, em Michael Lewis e Jeannette M. Haviland, p.119).

Percebe-se, assim, a complexidade da rede emocional. Porém, por mais complexa, somos responsáveis por conhecê-la, ainda que demore. Ela é despertada ou provocada por estímulos aos quais nos expomos. Eles podem vir de dentro ou de fora da pessoa. Uma vez que os estímulos foram iniciados não temos como agir voluntariamente sobre eles. É exatamente por essa razão que os sentimentos ou emoções são automáticos. O aparecimento deles ocorre fora da nossa capacidade de recebê-los. A partir daí se torna crucial buscar obter consciência para reconhecer e identificar os sinais mais sutis dos sentimentos e admiti-los como nossos. Então, após aceitá-los, orientá-los, sob nosso dever, podemos aprender a regulá-los, administrá-los e até interromper sua causa, se for o caso. O sentimento em si não muda, mas a maneira de lidar com ele e de resolver o problema pode mudar, só depende de nós.

Aprendamos a ler em nosso corpo os sinais emocionais para uma vida mais autocentrada e menos preocupante.

Belisário Marques é doutor em Psicologia

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