Enfrentando a angústia

Todos os seres humanos passam por angústia. Se ela é percebida conscientemente ou não, é outro caso. Há a angústia existencial, inerente ao ser, passada de geração em geração, e há a angústia originada em sofrimentos emocionais. É comum pessoas tentarem resolver sua angústia com métodos variados: compulsões sexuais, por exemplo, ou romances.

Mas o que é angústia? A primeira coisa a saber é que angústia não é depressão. Ela é, na verdade, sinônimo de ansiedade. Alguns autores comentam que angústia é uma ansiedade com aperto no peito. Ansiedade é uma sensação de vazio, de faltar algo que não se sabe o que é e que causa apreensão, inquietude, desconforto em seu mundo emocional, sensação de falta de serenidade.

Todo mundo tem angústia ou ansiedade, mas nem todo mundo a tem em nível exagerado. Quando a ansiedade existe de forma excessiva, ela pode se manifestar de diferentes maneiras. Pode aparecer como ansiedade mesmo, inquietude, com ou sem aperto no peito. Pode se manifestar por meio de fobias (medos exagerados e muitas vezes infundados), obsessões-compulsões (pensamentos obsessivos que perturbam a pessoa e a empurram para repetir compulsivamente certos atos), somatizações (repercussões de tensões emocionais no corpo), crise de pânico (que é um transbordamento agudo da ansiedade alta), etc.

Válvulas de escape

Muitas pessoas canalizam, inconscientemente, sua angústia para atitudes compulsivas sexuais. Tornam-se viciadas em sexo, pornografia, romances, relacionamentos. Pensam nisso dia e noite. Estão presas. Seus desejos, fantasias, impulsos sexuais e românticos as dominam. Em vez de dominarem seus sentimentos de atração, desejo, carência afetiva, são os sentimentos que as dominam.

Novelas e livros de romance promovem uma solução superficial da angústia ao enfatizarem a necessidade de um “novo amor”. Trocar de parceiro, sem resolver os problemas básicos do relacionamento, não elimina a angústia pessoal e a do próprio relacionamento. Um novo amor não resolve a “velha” angústia mal resolvida, talvez bem pouco percebida e provavelmente negada pela pessoa.

Alguém pode se apegar a outra pessoa com um impulso exagerado de dependência afetiva e sexual e achar que isso é amor, enquanto que, o mais provável é que seja um vício. A pessoa que experimenta amor maduro por outra não é obsessiva pelo outro, por sexo, nem por afeto. A angústia ou ansiedade pode levar pessoas a se tornarem obsessivas e compulsivas por alguma coisa, além do sexo: comida, jogo, dinheiro, compras, trabalho, organização, poupança, etc.

A ansiedade ou angústia inconsciente é uma denúncia de que há algo no psiquismo da pessoa, no seu mundo emocional ainda sem solução. É como a febre. Temperatura corporal alta geralmente significa que há um processo infeccioso em andamento no organismo. Tomar um medicamento para a febre não resolve a infecção. Envolver-se em práticas sexuais obsessivamente, ficar fissurado em relacionamentos não resolve a angústia existencial nem emocional. A angústia ou ansiedade exagerada revela que a pessoa tem conflitos interiores à espera de elaboração e resolução.

A solução para as pessoas obsessivas e compulsivas por alguma coisa não é aumentar, diversificar, trocar a prática da sua obsessão e compulsão. A pergunta certa que a pessoa que tem obsessões e compulsões precisa fazer, se ela quer entrar no processo de cura, é: de onde vem a angústia ou ansiedade que sinto ao tentar parar com minhas manias?

A verdade está dentro da pessoa. Mas ela pode não querer olhar para ela. Algumas não querem olhar e, então, ou continuam com o problema das suas obsessões e compulsões, ou querem um medicamento para se sentir melhores, sem ter que pensar no assunto. Não funciona. Alivia o sintoma, mas não cura a causa. É como querer tomar antitérmico para reduzir a febre e esperar que ele resolva o problema da infecção.

Se você tem uma ansiedade excessiva, que existe de forma explícita, consciente ou não, um “novo amor” resolve sua angústia ou adia a resolução dela? É preciso coragem para encarar sua angústia pessoal e procurar soluções construtivas para ela.

Gosto de pensar na pessoa de Jesus Cristo. Segundo Sua história, quando Ele viveu aqui, em tudo foi angustiado, mas sem cair em nenhuma obsessão ou compulsão. Creio ser Ele o melhor exemplo, por ser o único ser humano pleno de sanidade a passar pela Terra.

Dr. Cesar Vasconcellos de Souza é Psiquiatra e apresentador do programa Claramente da TV Novo Tempo www.doutorcesar.com.br / www.novotempo.com/claramente.

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