Estilo de vida e depressão

Depressão é um sofrimento emocional que atinge cerca de 18% da população geral. Segundo a Organização Mundial da Saúde, em 2020, provavelmente, ela seja a segunda doença mais frequente no mundo e, em 2030, a primeira.

Parecem dados alarmantes, mas não é para menos. Encontramos ao redor no mundo muitas fontes de desesperança: corrupção, violência, injustiça social, queda violenta dos valores morais, predomínio de ideias confusas e contraditórias sobre o sentido da vida, informações e programas de TV e Internet cheios de mensagens desconexas, negativas, abusivas (sob o ponto de vista da exploração da sensualidade), banalização e distorção dos relacionamentos saudáveis.

Além disso, a ganância dos ricos, que os leva à exploração dos pobres por meio de salários injustos, carga horária de trabalho cruel, a cobrança de altos e múltiplos impostos por parte dos governos…

Como ter esperança se a impressão é de que o mal avança indiscriminadamente?

Ainda que deprimido e inserido nessa realidade, você pode lutar para desenvolver um sentido para a vida que não seja superficial, mesquinho nem inútil.

Para tanto, é preciso parar e pensar sobre seu estilo de vida. Contribuiu você para diminuir o sofrimento ao seu redor, ou seu tempo é desperdiçado em isolamento egoísta?

Compartilha você o que tem aprendido de importante para a vida, para vencer as dores, ou sua disposição em dividir seus aprendizados está condicionada à possibilidade de obter alguma vantagem?

Luta você contra suas carências emocionais, as quais sempre requerem mais atenção, carinho e valorização, ou você reage contra elas pedindo a Deus forças para não sucumbir na angústia e para socorrer alguém que esteja sofrendo ainda mais?

Desafios no tratamento

Tratar a depressão com medicação e não mudar o estilo de vida, tomar os comprimidos antidepressivos e continuar mantendo uma vida egoísta, orgulhosa, prepotente, materialista, equivocadamente dependente, não permitirá que a sabedoria da fisiologia (maneira pela qual seu corpo e mente funcionam) coopere com o que se deseja, que é sair da depressão.

O corpo e a mente não são “burros”. A fisiologia muito menos. Se você quer sair da depressão para voltar a uma vida leviana, sua busca orgânica automática de equilíbrio vai ficar confusa e a restauração não será verdadeira, pois o corpo e a mente funcionam melhor quando os propósitos são nobres.

Quer melhorar sua condição? Não coloque sua (única) esperança na medicação. Ela não faz tudo. Apenas alivia sintomas e produz efeitos colaterais. É como ter uma diarreia por ter comido alimento contaminado, tomar antidiarreico querendo ficar bom, sem parar de ingerir a comida contaminada.

Talvez, você precise mudar o foco do sentido da vida. Talvez necessite parar de manter uma exigência interna de querer ser o centro das atenções, por exemplo. Provavelmente, precise aprender a lidar melhor com as perdas e as frustrações e aceitar que não somos deuses, não podemos tudo, não ganhamos tudo nem precisamos de tudo para que sejamos felizes.

Quer sair da depressão? Quer evitá-la? Cuide de sua forma de pensar. Lute contra os pensamentos de conteúdo trágico, desajuda, desesperança, autodepreciação, irritação, impaciência. Troque-os, lutando diariamente com seus pensamentos, por ideias de gratidão, de ajuda ao próximo, sem esperar nada em troca, de valorização do que funciona em sua vida e daquilo que você tem de bom, reconhecendo que há pessoas que gostam de você do jeito que elas conseguem.

Não costumamos ver desse jeito, mas os pensamentos também devem ser treinados e educados. Não é natural ter pensamentos saudáveis, assim, temos que lutar por eles como se fosse um exercício diário. Com o tempo, você verá que pensamentos saudáveis, de gratidão, alegria, reconhecimento, autoproteção e autovalorização equilibrados, surgem na consciência mais facilmente do que antes.

Entenda que os medicamentos antidepressivos não mudam a forma de pensar. Eles mudam, temporariamente, a forma de sentir.

Quer sair da depressão? Ajude para que o ambiente ao seu redor se torne melhor pela sua presença. As pessoas deprimidas, ou as que não querem entrar em depressão, precisam cuidar melhor da própria vida, de seus pensamentos e sentimentos, esperando menos dos outros. Aceitar a realidade e cobrar menos de si mesmo também são boas maneiras. Doar-se mais, adotar um estilo de vida que seja valoroso, útil e significativo para o bem são grandes e, quem sabe, simples remédios para uma nova vida.

Cesar Vasconcellos de Souza é psiquiatra / www.doutorcesar.com.br

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