Fuga e proteção

Pessoas muito defensivas emocionalmente se protegem demais da dor, da tomada de consciência, de pensamentos e sentimentos difíceis de encarar, e assim se afastam da verdade sobre si mesmas. Quanto mais vivem na defesa (talvez não mais necessária), mais impedimento há para o amadurecimento mental. Permanecer na defesa é não admitir os próprios problemas, é negar as próprias limitações, bem como medos, tristezas, angústias e até defeitos de caráter.

Uma pessoa em negação dá desculpas para seus erros, tem dificuldade em admitir que erra. Não é à toa que o apelido do alcoolismo, doença que atinge 15% da população, é “doença da negação”. Um alcoólatra quando confrontado por alguém que tenta lhe mostrar que já perdeu o controle, diz: “Sei me controlar e paro de beber quando eu bem quiser.” Como seria bom se isso fosse verdade! O problema é que, na maioria das vezes, esse mesmo alcoólatra bebe exageradamente há cinco, dez, quinze anos ou mais. Ou seja, ele perdeu, sim, o controle sobre a bebida, apesar de negar a verdade.

A defesa psicológica, portanto, é uma atitude mental que usamos para lidar com uma verdade que não queremos ou não estamos prontos para lidar ainda. Em casos de luto, por exemplo, é comum ver quem perdeu o ente querido dormir além do normal. Isso ocorre a fim de fugir da dor. Interessante que, mais adiante, quando a dor da perda por morte começa a ser enfrentada e o desconforto emocional também, o sono exagerado começa a diminuir. Dessa forma, o sono volta a ficar regular, pois o sofrimento encoberto foi tratado, deixando a pessoa mais fortalecida.

Dois lados da mesma moeda

A defesa pode ser comparada a uma moeda: em uma face, ela protege da dor e na outra, serve como fuga da verdade. Contudo, é muito importante pensar que saúde tem que ver com verdade. O corpo e a mente não são um burro de carga, antes, eles sabem a verdade. Quando o corpo adoece é porque ele ficou confuso sobre as mensagens que enviamos a ele. Se você insiste em dar a seu corpo alimento, bebida, pensamentos, sentimentos não saudáveis, chega a hora em que ele não aguenta mais: é quando surge a doença. A doença é o alarme, o aviso para parar, pensar, analisar o estilo de vida e ver o que precisa ser modificado para que a saúde seja restituída.

Pode ser difícil conviver com alguém que vive muito na defesa emocional. O casamento, por exemplo, é um tipo de relação em que as defesas de cada cônjuge precisam ir caindo para que a verdade surja e então ocorra o crescimento afetivo. Se um dos dois se torna uma pessoa muito defensiva, que sempre se fecha quando o outro deseja falar de assuntos mais profundos da vida a dois, não admite ter problemas no seu jeito de ser, e pensa que só pelo fato de ter muita “emoção”, já é o suficiente para a felicidade conjugal, ela está enganada quanto ao que produz harmonia no casamento. Mas, é preciso lembrar-se de que a emoção em si não é o amor.

Algumas esposas, por exemplo, querem ser amadas, elogiadas. Há mulheres que desejam que o marido seja mais romântico com elas. No entanto, elas não querem sair da autodefesa, não querem abaixar o orgulho e admitir que também têm defeitos de caráter e problemas no seu jeito de funcionar como pessoa.

Se você é bem defensivo, ou seja, quando é preciso admitir para si mesmo e para outros os seus problemas, para que surjam justiça, sinceridade, humildade e esperança de crescimento no relacionamento, você se fecha, não olha para seus defeitos reais, os quais possivelmente estão sendo sinalizados por outra pessoa (mesmo sem tom de crítica, e feito com cautela, carinho, respeito). E, ao contrário, dá uma de vítima, você está fugindo da realidade.

Talvez você já tenha ouvido ou dito algo do tipo: “Ah! Você só olha meus defeitos!”, ou “Procure alguém ideal e me deixe!” Esse tipo de frase vem logo após a tentativa de uma conversa sobre a relação. Mas, saiba que essa defesa bloqueia a percepção dos problemas que interferem no relacionamento.

A fuga da verdade pode ocorrer por motivo corrupto consciente, para obter vantagens econômicas, poder sobre os outros, ficar na zona de conforto, etc. Mas nas relações, especialmente no casamento, em geral é algo inconsciente. A pessoa pode não conhecer e reconhecer seu defeito de caráter, o qual escapole entre os dedos e só os outros notam.

Quando um cônjuge sinaliza a existência de um problema comportamental no parceiro que não enxergava até então, pode haver dois tipos de resposta: 1) “É verdade. Sinto muito, não havia percebido isso em mim, mas obrigado por me mostrar. É difícil reconhecer, mas não quero viver me enganando e prejudicando meus relacionamentos”, ou 2) “Você só vive me criticando! Não quero falar sobre isso porque você sempre exagera!”

No primeiro caso, trata-se de uma pessoa não defensiva que quer amadurecer e entendeu que para isso ela precisa admitir que tem problemas também, o que não diminui seu valor como pessoa. No segundo caso, se trata de alguém bem defensivo, que foge da verdade, embora possa ser cheia de emoções, romance e ilusões. O que cura a pessoa e os relacionamentos é a verdade e o amor. Saímos da mentira, da defesa neurótica, ao estarmos prontos e querendo mesmo a verdade sobre nós mesmos. Essa é decisão pessoal.

 

Cesar Vasconcellos é médico psiquiatra e apresentador do programa Claramente da TV Novo Tempo 

www.doutorcesar.com.br / www.novotempo.com/claramente.

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