Medicar o comportamento

Vivemos numa sociedade supermedicada. Gente irritadiça, crianças agitadas e pirracentas, adultos impacientes, jovens rebeldes são tidos como portadores de algum transtorno mental e, com isso, saem dos consultórios médicos com prescrição de medicamentos controlados.

Estudo na Universidade de Illinois, em Chicago, analisou entre 2003 e 2014 o volume de prescrições medicamentosas para a saúde mental destinadas a crianças e jovens de até 19 anos. Foram coletados, por meio de questionário, dados de 23 mil participantes.

E o resultado?

A investigação revelou que uma em cada cinco crianças e adolescentes usavam pelo menos uma medicação prescrita. Cerca de 7.5% usavam dois ou mais remédios. Nas meninas adolescentes, o índice foi de 28%, enquanto que nos meninos entre seis e doze anos chegou a 26.5%. Dentre os que usavam mais de uma medicação, o risco de uma droga interagir com outra atingia um em cada doze indivíduos, sendo uma boa parte ligada ao uso de antidepressivos.

Os estudos mostram que cerca de duzentas mil crianças e adolescentes são levados anualmente a atendimentos de emergência nos Estados Unidos devido a efeitos colaterais de medicamentos, vários deles psiquiátricos.1  

Prevenir ainda é o melhor

A população precisa se atentar para os efeitos dos remédios. É melhor educar no sentido da prevenção e uso de princípios saudáveis de vida, e explicar que medicamentos são para situações mais emergenciais.

Não nos esqueçamos de que a mudança no estilo de vida é o que realmente promove saúde e recuperação. Isso significa que é preciso adotar hábitos alimentares saudáveis, prática de exercícios físicos, sono repousante, equilíbrio quanto à dedicação ao trabalho, convívio com a natureza, uso da água por dentro e por fora do corpo, evitar bebidas alcoólicas, tabaco e outros drogas, evitar bebidas cafeinadas e outros estimulantes, tomar sol diária e moderadamente.

É igualmente importante aprender a lidar com as emoções. Isso deve ser ensinado pelos pais desde quando o filho é ainda bebê. Muitos adultos e crianças sem controle emocional são medicados, quando o que eles realmente precisam é de psicoeducação, ou seja, aprender a administrar sentimentos difíceis, educar os pensamentos, abrir mão de atitudes egocêntricas, desenvolver paciência, cultivar gratidão e respeito.

Enrico Gnaulti, psicólogo clínico, comenta que entre 2013 e 2016 houve um aumento de 33% nos diagnósticos de depressão nos Estados Unidos e que estima- se que cerca de 80% dos antidepressivos sejam prescritos por médicos não psiquiatras.²

Tudo é depressão?

Outro perigo atual é o excesso de diagnóstico não só de depressão, como de outras doenças mentais. Se a pessoa vive uma tristeza normal e isso é confundido com a doença depressão, ela passará a usar antidepressivos. Contudo, o uso deles pode mascarar a necessidade de reflexões e impedir a pessoa de amadurecer, aprender sobre si mesma e, consequentemente, adiar o processo de cura.

Gnalti, completa: “Agora, mais do que nunca, com a crescente medicalização da depressão, precisamos compreender a depressão ‘normal’ como uma resposta humana relativamente natural à perda; um sistema inato de sinalização que nos estimula a recalibrar quem somos, quem nos tornamos e quem precisamos ser; e uma indicação de que a solidão produtiva pode ser necessária para um período de introspecção pessoal, e que a tristeza, a culpa e o remorso, se reconhecidos e processados, fornecerão alívio e aceitação.”

 

Cesar Vasconcellos de Souza é psiquiatra

www.doutorcesar.com.br | www.novotempo.com/claramente

www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4724429/

https://madinbrasil.org/2018/07/em-defesa-da-depressao-saudavel

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