Não chute a barraca!

Diante dos paredões da vida, somente a paz e o descanso que vêm do alto podem mostrar a saída

Certo dia, andando pelas ruas de São Paulo, avistei um homem de aproximadamente 50 anos de idade. Ele se aproximou de mim e me pediu uma ajuda financeira. Eu o ajudei, embora com uma quantia pequena (na verdade, era o que eu tinha no momento). No entanto, o modo constrangedor com que ele pediu essa ajuda me chamou a atenção. Aproveitei o momento e iniciei um diálogo com ele, que se estendeu por mais ou menos duas horas. Nesse diálogo, ele me contou um pouco de sua história.

Tratava-se de alguém com boa formação acadêmica, mas naquele momento encontrava-se em uma fase difícil de sua existência: desempregado, longe da família e sem perspectiva. Depois de ouvi-lo por um bom tempo, eu lhe perguntei: “Como você chegou a esse ponto?” Ele prontamente me respondeu: “Eu já imaginava que você me faria essa pergunta. Ela é lógica. Sabe, tempos atrás, por conta do meu trabalho, conflitos em minha família e outras situações [se absteve de mais detalhes], não suportei a carga emocional que diariamente vinha sobre mim. Isso me causou pesado estresse e ansiedade incontrolável, até que um dia ‘chutei a barraca’ e adotei o seguinte lema: ‘Cansei de me preocupar com a vida; ela que se preocupe comigo.’”

Duas semanas depois, voltei àquele mesmo lugar na esperança de rever aquele amigo e retomar o diálogo, mas não o encontrei.

Prezado leitor, eu não preciso lhe dizer que esse diálogo deu origem a este texto, não é mesmo?

De fato, diariamente, as pessoas acumulam uma forte carga emocional. Isso se dá em razão dos atropelos da vida moderna: conflitos familiares, problemas existenciais, incertezas e perspectivas sombrias quanto ao futuro. Tudo isso se encarrega de massacrar as pessoas e leva ao desencadeamento das chamadas doenças psicossomáticas.

Dentro de seus apartamentos, escritórios, estúdios de gravação, igrejas, nas ruas, etc., as pessoas estão sendo consumidas por esses males. Embora estejam bem vestidas, frequentem bons restaurantes, desempenhem excelente profissionalismo, muito disso não passa de mera aparência. A própria maquiagem usada acaba se tornando, às vezes, uma máscara para esconder um interior massacrado por medo, angústia, sentimento de culpa, mágoas, ódio… Ah… a lista vai longe.

Há cerca de dois mil anos, o contexto social não era muito diferente do nosso. Claro, não havia internet. Era impensável fazer compras pelos “famosos sites”, enfim! Mas o drama do interior do ser humano era o mesmo. E foi exatamente nesse contexto que Cristo proferiu as seguintes palavras: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). É bom lembrar que o acesso a Ele é ininterrupto. Pode ser a qualquer momento, inclusive agora.

Todo ser humano tem dentro de si o anseio pelo transcendente. E esse anseio atinge seu ponto máximo quando se depara com situações extremas da vida. Essas situações se encarregam de mostrar o quanto nós, seres humanos, somos limitados e impotentes diante dos paredões da vida.

A paz e o descanso que Cristo oferece não eliminam os problemas do cotidiano, porque Ele também disse: “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: Eu venci o mundo” (João 16:33, NAA). Isso torna o ser humano gigante em face dos desafios da vida. Esse descanso nos leva a contornar com ânimo, disposição e confiança os problemas do dia a dia.

Independentemente de qualquer credo religioso ou mesmo do ateísmo, o ser humano moderno precisa de paz e descanso. E isso ele não encontra nas coisas materiais. As próprias circunstâncias o levam a buscar o socorro de que tanto necessita em uma dimensão vertical. Ou seja, no “Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1:17).

E isso tem tudo que ver com saúde!

Nerivan Silva é editor associado de Vida e Saúde

 

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