Por enquanto

Mais triste do que sair de cena é estar no palco sem saber como atuar

Só recebi o clip do meu casamento após três anos de casada. Foi uma odisseia conseguir o material correto conforme o combinado. Mas, enfim, o vídeo chegou e eu estava ansiosa para vê-lo. Naquele instante, voltei no tempo e fiquei profundamente emocionada. Chorei com cada música, com cada momento…

Que dia lindo foi aquele! E aconteceu como eu havia sonhado, detalhe por detalhe. Sou grata a Deus pelo sonho realizado, mas também pelos dias que vieram a partir dali.

Entre uma e outra emoção, me peguei observando quantas mudanças haviam ocorrido no pequeno intervalo de três anos: casais que hoje já não estão mais juntos; outros que se casaram pouco tempo depois. Crianças nasceram; madrinhas engravidaram. Alguns se graduaram e ingressaram na carreira; outros encontraram uma nova profissão; outros ainda perderam o emprego ou pediram demissão. Há os que conseguiram construir a própria casa e aqueles que se mudaram de cidade e até de país.

Quanta coisa aconteceu em tão pouco tempo! Quantas histórias em constante movimento. Cada qual buscando seu lugar ao sol, sua mais apropriada oportunidade, um espaço a pertencer.

Caminho e destino

Se, por um lado, o caminho pode ser mais importante do que o destino; por outro, o destino pode ser a última esperança. Digo isso porque de todas as imagens valorosas que pude reviver, uma me deixou especialmente enternecida. Uma das madrinhas, noiva de um primo, veio a falecer dois anos depois, antes de se graduar e de se casar. Uma doce jovem, de 22 anos, sonhadora e romântica. Lembro-me ainda dela me perguntando sobre os custos do casamento, imaginando-se, talvez, naquele mesmo lugar. Mas, algum tempo depois, ela foi diagnosticada com um tumor maligno e raro. Entre o diagnóstico e seu óbito se passaram apenas treze dias, findando assim toda a sua quimera.

Pausei. Pensei…

É impossível não se lembrar de Salomão e de sua célebre conclusão de que tudo, absolutamente tudo é vaidade, de que tudo passa, inclusive nós.
No entanto, embora seja fato que um dia nós também passaremos, não podemos nos esquecer de que morreremos somente um dia, ou seja, em todos os outros estaremos ainda aqui e ali, tendo a vida como nosso maior material empírico, nosso maior experimento humano.

Mais triste do que sair de cena definitiva e precocemente, é estar no palco sem saber como atuar. A fragilidade da vida, bem como a brevidade do tempo, e o desafio de lidar com tudo isso, me faz pensar que esta é uma questão tanto universal quanto atemporal.

Já na época de Jesus alguém Lhe perguntou: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei?” (Mateus 22:36). Em outras palavras, ele queria saber o que importava na vida. “E Jesus lhe disse: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo’” (Mateus, 22:37-39).

Podemos planejar muitas coisas: estudar, viajar, comprar, casar. Só não podemos escolher quanto tempo teremos por aqui. Porém, por enquanto, ainda podemos usar a liberdade de escolha da nossa ampulheta incerta para amar e deixar um rastro de amor por onde passarmos.

Agatha Lemos é editora associada de Vida e Saúde

 

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