domingo, 09 agosto

Quais as motivações que nos levam a buscar um novo estilo de vida? Ágatha Lemos

 

Não é novidade para ninguém que estamos vivendo um momento em que as pessoas têm dado bastante valor à saúde. Para falar a verdade, chega a ser constrangedor em nossos dias não ser praticante de uma atividade física, ou não estar em busca de um estilo de vida mais saudável. No entanto, não é todo mundo que sabe exatamente definir o porquê de estar caminhando em direção à saúde. Na verdade, poucos talvez entendam o real conceito que está por trás da importância de uma vida mais sustentável.

E o problema reside exatamente aí: se o conceito não é claro, dificilmente se compreende o preceito. E é por isso que o equilíbrio ainda não é o principal determinante da vida fitness. Estamos falando da saúde como recurso para a vida ou como objetivo de viver?

Essas questões podem parecer muito filosóficas diante de algo que demanda a simplicidade da prática, mas é preciso entender o significado da vida saudável antes de se aventurar a ser alguém saudável.

O que é saúde?

No fundo, no fundo, a gente confunde saúde com muitas coisas. Quer ver só? Responda com sinceridade: Saúde é ausência de doença? É o corpo biologicamente em dia? Saúde é sentir-se bem? É virtude, beleza, marcador social e epidemiológico? De quem é a culpa quando falta a saúde?

Se essas questões deixaram você em dúvida, não se sinta mal. O processo de sair do automático para a compreensão mais profunda requer mesmo esforço.

E conceituar saúde é um desafio ainda hoje para os teóricos da área. Podemos partir do princípio estabelecido pela Organização Mundial da Saúde, lá no ano de 1946, que diz que saúde é uma condição de bem-estar integral e não apenas ausência de enfermidades. Só isso?

Convenhamos que o bem-estar integral de uma pessoa, isto é, bem-estar físico, mental, social, espiritual é muito subjetivo. Sendo assim, conferências nacionais e internacionais de saúde sempre aperfeiçoam esse entendimento. Em 1986, por exemplo, a Carta de Ottawa ampliou a concepção de saúde ao dizer que ela tem que ver com paz, habitação, educação, alimentação, renda, ecossistema estável, recursos sustentáveis, justiça social e equidade (Biblioteca Virtual em Saúde, 2002).

Diante disso, fica claro que saúde, por si só, não é algo que está nas mãos apenas do indivíduo, mas que também depende da interseção do contexto, de saberes, setores e poderes.

A Carta ainda destaca que, “para atingir um estado de completo bem-estar físico, mental e social, os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. Nesse sentido, saúde é um conceito positivo, que enfatiza os recursos sociais e pessoais, bem como as capacidades físicas. Assim, a promoção da saúde não é responsabilidade exclusiva do setor de saúde, e vai para além de um estilo de vida saudável, na direção de um bem-estar global” (Biblioteca Virtual em Saúde, 2002).

Saúde no passado, no presente e no futuro

No passado

Por séculos, o binômio saúde-doença foi permeado pelo aspecto espiritual, ou seja, as pessoas adoeciam ou eram saudáveis por intervenção (agrado ou desagrado) divina ou de entidades espirituais.

As histórias bíblicas apontam como os leprosos tinham de conviver tanto com a doença física e incurável quanto com a culpa por ter, segundo a cultura vigente, desagradado a Deus, sendo, portanto, merecedores da enfermidade. Além de imundos fisicamente, eles eram considerados “imundos” moralmente, dignos do isolamento do convívio social.

Mas não parou por aí. Toda a Idade Média é caracterizada por esse aspecto moralizante da saúde e da doença sobre os seres humanos. Para Roma Papal, por exemplo, a explicação para o caso de uma pessoa que saísse para trabalhar no domingo e se machucasse estaria no castigo divino por trabalhar nesse dia.

A moralização da saúde e da doença causava muita angústia sobre os doentes e acidentados que se sentiam culpados por suas mazelas. Sem contar que a medicina ainda era muito carente de recursos, podendo um simples procedimento para os padrões atuais causar, naquela época, dor, trauma e até pavor.

Nos dias de hoje, em diversas regiões do mundo ainda existem pessoas que acreditam ser possível dar alívio ou causar dor a alguém por meio de curandeiros. Tribos animistas continuam a espiritualizar a saúde e a doença.

Mas grande parte disso mudou a partir do cientificismo iluminista, no século 18. A partir de então, a lógica e a razão humana tomaram o lugar da moralização. Não mais por causas sobrenaturais, mas por ajuste ou desajuste do corpo é que se estabelecia a relação saúde-doença.

Dali em diante, cada vez mais, a ciência se tornaria a voz autorizada, não mais havendo espaço para julgamentos do indivíduo por sua condição. Tudo haveria de ter uma explicação. Bastava os órgãos estarem em silêncio para determinar se o corpo era saudável ou não. O surgimento de medicamentos e o desenvolvimento de aparelhos capazes de ajudar no diagnóstico e tratamento deram ainda mais notoriedade à ciência, cuja credibilidade veio a perpassar os séculos.

No presente

Ainda hoje, a ciência é imprescindível no que diz respeito à prevenção da saúde e ao tratamento e erradicação de doenças. Contudo, os tempos mudaram. A constituição e a destituição dos valores sociais jogaram a saúde para o topo, provocando reflexões até então desprezadas.

A saúde e sua antagonista, a doença, já não mais são tão “matemáticas” como antes. Fatores externos e internos trazem influências que fazem da vida saudável uma experiência cultural.

Os desdobramentos são muitos, afinal, com o advento da revolução das tecnologias da informação, formou-se o que especialistas chamam de “paciente expert”. Trata-se de todos nós, munidos de resultados de exames, que recorremos ao Google e outros sites de busca a fim de encontrar supostas respostas para o que imaginamos ter.

Também passamos a consumir informações de blogueiros e famosos que dividem a rotina do seu estilo de vida. Certos ou não, multidões copiam o que consideram modelo de vida saudável.

Os bens, produtos e serviços de saúde revestem-se de aparatos tecno-científicos, tornando-se mais e mais atrativos, no entanto, nem sempre acessíveis a todas as camadas da sociedade.

O turismo da saúde mobiliza milhares de pessoas anualmente, especialmente estrangeiros, aquecendo a economia do país. Academias para toda e qualquer modalidade, personais para todo tipo de público, produtos personalizados.

A cultura contemporânea confere poder a quem consome. O consumo é sinônimo de sucesso. Não é à toa que a saúde se tornou um negócio lucrativo, capaz de passar pela crise econômica brasileira sem ser afetado.

É por essas e outras que muitos críticos vêm levantando a seguinte pergunta: Teriam a vida e a saúde se tornado meras mercadorias?

 O corpo

Dentro do cenário presente, é importante ressaltar que saúde-doença como experiência cultural ocorre sempre na matriz chamada “corpo”. O corpo é o grande protagonista dos dias de hoje. “A centralidade do esforço de permanecer belo, jovem, magro e feliz por muito tempo no conjunto das preocupações existenciais dos indivíduos ajuda a explicar por que a indústria farmacêutica pôde ter crescido tanto nos últimos 30 anos” (Portugal, 2012).

A valorização da extensão do corpo tem que ver com várias coisas: é no corpo que se manifestam os estigmas, sejam eles de normalidade, vitalidade, longevidade. É o corpo que atua no mercado de trabalho, que nos faz ir e vir e que faz ser notada nossa presença. É também no corpo que se verificam as diferenças sociais, raciais e de etnia. É o corpo que proporciona o consumo visual que poderá se tornar contato posterior. Mas é no corpo também que ocorrem grandes conflitos. Tentamos por meio do corpo equilibrar a forma irreversível do tempo e a forma do tempo calculável.

Já que o tempo é irreversível, a busca imediata do prazer e o alívio da dor por meio do corpo são indispensáveis. Há pouca ou quase nenhuma regra para a realização das vontades. Muita comida, muita bebida, pouco exercício, mas muito investimento em produtos que possam oferecer resultados rápidos, como cirurgias plásticas e anabolizantes.

Mas, para quem tenta calcular e controlar os efeitos nefastos do tempo, o corpo é o instrumento de abstenção dos prazeres de agora para evitar prejuízos futuros. Nesse caso, há muita regra, muita moralização e culpabilização do indivíduo por seu estilo de vida.

A supremacia corporal se dá em uma época cujas esperanças em algo além da matéria se diluíram. “Sem dimensão religiosa, pode não haver sentido para a vida e para o sofrimento, o qual antes levava à recompensa futura. Mas quando a cultura diz que não há recompensa, nem esperança ou futuro, o corpo e sua dor são mais valorizados, pois só existe o hoje, o agora e o prazer” (Vaz, 2007).

Todos nós um dia morreremos. Mas morreremos somente um dia. O que faremos nos demais? Por mais assustadora que pareça a morte, ela ocorre apenas um dia, uma vez.

No futuro

No que diz respeito à relação saúde-doença, o quadro é bem diverso. Ao mesmo tempo em que as apostas na inovação científica por meio da tecnologia são grandes, há também o vislumbre de movimentos que surgem, desde agora, voltados para a simplificação da vida e um retorno ao natural.

As expectativas giram em torno da coexistência de nanorrobôs e uma engenharia genética capaz de mapear e projetar a longevidade caminhando ao lado de dietas predominantemente à base de plantas, diminuição do consumo de produtos de origem animal e aumento do uso dos fitoterápicos.

Quase paradoxal, a previsão para o futuro indica ainda mais evolução da ciência na aplicação de bens, serviços, produtos e tratamentos de saúde, mas aponta também para pessoas mais conscientes de sua responsabilidade quanto ao estilo de vida.

Um estilo preventivo e sustentável habitará o imaginário coletivo, a fim de que o planeta e os animais também sejam beneficiados. Tal estilo será o ápice da compreensão da nossa “pegada ecológica”.

Outras previsões também chamam a atenção. É o caso de segmentos da sociedade que se voltam para a física quântica em busca de uma “equalização integral do ser”.

Já o mais recente relatório global de bem-estar diz que não será a estabilidade econômica a responsável pela sensação de bem-estar e felicidade das pessoas. Em um futuro não tão distante, o tecido social será a ferramenta que qualificará a felicidade. Isso significa que a qualidade das relações estará no topo dos motivos que farão uma pessoa se sentir bem, realizada e feliz.

Saúde para quê?

Você já percebeu como o conceito de saúde é amplo. E se pararmos para pensar nas motivações que nos levam a buscar um novo estilo de vida, poderemos nos surpreender ainda mais. Saúde, estética, convicção filosófica, amor à vida… são muitas as razões pelas quais as pessoas desejam ser saudáveis e cuidar mais de si. Contudo, não podemos negar que nesse emaranhado surgem também incoerências. Busca-se a longevidade, mas não se quer envelhecer. Busca-se a perda de peso, mas sem renunciar hábitos nocivos. Busca-se saúde física, mas se esquece da saúde mental. De parte em parte, renovamos a vida de modo fragmentado, ao contrário do bem-estar integral que nos é proposto.

Por outro lado, há também quem veja essa corrida pela vida saudável como uma grande perda de tempo, afinal, temos apenas uma certeza: a de que todos, inevitavelmente, um dia morreremos. E se um dia morreremos, por que nos preocuparmos com saúde?

Realmente, todos nós um dia morreremos. Mas morreremos somente um dia. O que faremos nos demais? Por mais assustadora que pareça a morte, ela ocorre apenas um dia, uma vez. Mas a vida se desenrola ao longo de muitos e muitos outros dias. Como poderei aproveitá-los sem saúde?

Entenda que a saúde não é um fim em si mesma. Ela é o recurso necessário para o bom desfrute da vida e daqueles a quem amamos, da realização dos nossos sonhos, dos aprendizados que devemos ter e deixar.

Por que você precisa de saúde? Uma pergunta retórica que requer uma pergunta anterior: Para que existimos? Vê-se que a saúde é uma questão altamente ontológica. A existência poderá ter tantas tentativas de respostas quanto o número de habitantes da Terra. Mas em uma coisa acabamos sempre por concordar: existimos para ser felizes e para fazer os outros felizes. Pelo menos deveria ser assim. Apenas uma fração da vida nos é assegurada; e a pergunta que cada um deve fazer é: “Como posso empregar minhas energias de maneira que elas possam render o maior dividendo? Como posso fazer o máximo para Deus e em benefício dos meus semelhantes? Pois a vida vale apenas quando é usada para a consecução desses fins” (Ellen G. White, Conselhos Sobre Saúde, p. 107).

Dessa perspectiva, saúde só tem uma explicação: saúde é potência do existir. Precisamos de saúde porque precisamos de potência para realizar toda a demanda de que a vida nos encarrega; porque ninguém alcança suas metas se arrastando por aí. Ninguém produz, ama, serve ou progride sem saúde.

É com potência, com muita energia que alçamos os voos para os quais fomos projetados. Viver plenamente depende da potência que somente a saúde integral nos confere.

Quanto tempo nos resta? Definitivamente, não sabemos. E como você deseja viver cada um dos seus dias? Qual é o gatilho contextual capaz de nos transportar do conhecimento teórico para o conhecimento prático? Lembre-se de que saúde só faz sentido na dimensão da prática. Então, o que você acha de se arriscar na experiência de um novo estilo de vida, um estilo cheio de potência do existir?

Sucesso! 

Ágatha Lemos é Jornalista, mestre em Ciência e editora associada de Vida e Saúde.

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