quinta-feira, 06 agosto

As principais descobertas no campo da medicina e da saúde e como elas confirmam a linha editorial da nossa revista. 

Há exatas oito décadas, em meio ao caos do período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, nascia no Brasil a revista Vida e Saúde, o primeiro periódico nacional sobre o tema, com o objetivo de levar aos brasileiros um vasto acervo de conhecimentos sobre a vida e suas leis, a saúde e seus requisitos, a doença e seus remédios.

Nesses oitenta anos, a revista pôde testemunhar uma verdadeira revolução no campo da medicina e da saúde pública, que realmente mudou a vida das pessoas para melhor. Descobertas como a da penicilina para matar micro-organismos causadores de doenças, ou mesmo o entendimento das causas das doenças cardiovasculares, até chegar à era pós-genômica em que vivemos hoje, mudaram radicalmente nossa compreensão sobre o processo saúde-doença.

Esse período também compreende uma grande mudança de paradigma na vida dos brasileiros: deixamos de ser um país essencialmente rural e com maior prevalência de doenças ligadas à falta de higiene e saneamento básico – características das sociedades menos desenvolvidas – e experimentamos os efeitos do crescimento industrial, do avanço tecnológico e da urbanização. Essa mudança afetou radicalmente o perfil de doenças da população. Não mais somos um país com marcante desnutrição, mas, sim, uma nação em que quase 60% da população adulta está acima do peso. Cólera, tuberculose e pneumonias deixaram de ser as principais causas de morte, perdendo o posto para as doenças cardiovasculares, como infarto e derrame, câncer e diabetes.

Nas próximas páginas, convidamos você a viajar ao passado e recordar oito importantes descobertas da ciência na área da saúde que causaram real impacto na vida das pessoas. Dentre uma explosão cada vez maior de descobertas científicas importantes, selecionamos algumas que mudaram o curso da história para sempre.

1938 – 1948

Antibióticos

Doenças como a febre tifoide e a cólera, transmitidas por água contaminada, eram responsáveis por grande parte das mortes no início do século 20. Melhorias nas condições sanitárias reduziram drasticamente sua prevalência. Além disso, a descoberta dos antibióticos foi essencial para o controle de infecções como a tuberculose e as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

Apesar de ter sido descoberta em 1928 pelo cientista escocês Alexander Fleming, a penicilina passou despercebida por mais de uma década, atraindo pouco interesse da comunidade científica. Foi somente na década de 1940 que sua molécula foi isolada, produzida em massa e testada com sucesso em animais e humanos, rendendo o Prêmio Nobel aos pesquisadores responsáveis em 1945 devido às suas propriedades curativas em várias doenças infecciosas.

Sabemos hoje que, além da grande contribuição dos antibióticos, o corpo humano é equipado com um importante sistema de defesa contra infecções, chamado sistema imunológico, capaz de matar vírus, bactérias, fungos e até células de câncer. Esse sistema é mantido em ordem por meio de um estilo de vida saudável, que inclui nutrientes como as vitaminas C e E, e o zinco, presentes nas frutas, verduras e nos legumes. A prática de exercícios regulares e o sono reparador também são essenciais para manter a imunidade em dia e combater as doenças infecciosas, deixando os antibióticos para quando for necessário.

1948 – 1958

Transplantes de órgãos

Em 1954, após pelo menos nove tentativas fracassadas, o primeiro transplante renal foi realizado com sucesso por um time de cirurgiões em Boston, Estados Unidos, liderados pelo Dr. Joseph Murray, da Escola de Medicina de Harvard, que removeu um rim de um doador de 24 anos e o transplantou no corpo do seu irmão gêmeo que estava morrendo de nefrite crônica. O rapaz viveu pelo menos oito anos adicionais após o transplante.

Esse primeiro transplante bem-sucedido abriu portas para o desenvolvimento de técnicas avançadas para outros órgãos, além da criação de medicamentos capazes de reduzir o risco de rejeição. Transplantes de pâncreas, fígado e coração foram realizados nos anos seguintes.

Poucas intervenções cirúrgicas carregam hoje tanta complexidade quanto o transplante de órgãos. No Brasil, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, foram realizados mais de 27 mil transplantes em 2017, prolongando a vida de muitas pessoas que estariam sem alternativa. Porém, mais de 32 mil pessoas aguardam na fila, que não avança muitas vezes pela recusa dos familiares em permitir a doação.

Os avanços permitem agora transplantes de membros, como mãos, e também transplante de face. Pesquisadores no mundo todo buscam também desenvolver órgãos artificiais a partir de células-tronco, na esperança de amenizar a baixa oferta de órgãos compatíveis que torna tão demoradas as filas de espera.

1958 – 1968

Tabagismo

A afirmação de que o cigarro causa câncer, tão verdadeira hoje, nem sempre foi conhecida. No início do século 19, o câncer de pulmão era uma doença rara nos Estados Unidos, até que novas tecnologias permitiram a produção do cigarro em larga escala e a propaganda glamourizou o consumo, aumentando a venda per capta de 54 cigarros/ano em 1900 para 4.345 cigarros/ano em 1963. O câncer de pulmão passou então a ser o mais comum diagnosticado em homens norte-americanos.

Em 1964, com a publicação de um relatório do Ministério da Saúde norte-americano apresentando evidências conclusivas dos malefícios do tabaco, o cigarro foi reconhecido como uma verdadeira ameaça, abrindo portas para uma ampla campanha antitabaco que resultou em mudanças sociais para prevenir o início do tabagismo, promover a cessação entre os fumantes e reduzir a exposição ambiental à fumaça do cigarro.

Sabemos hoje que o cigarro é o único produto comercializado legalmente que mata 60% dos seus consumidores. O Brasil é um dos exemplos mundiais em campanhas antitabaco, que provocaram redução significativa do consumo de tabaco no país. Porém, 14% dos brasileiros ainda colocam a saúde em risco pelo hábito de fumar.

A demora na comprovação dos malefícios do cigarro também é vista com o consumo de bebidas alcoólicas. Ainda se considera saudável beber uma dose de álcool ao dia para as mulheres e duas para os homens. Porém, em agosto de 2018, o famoso periódico médico The Lancet publicou um importante artigo defendendo que o limite seguro para o consumo de álcool é zero! Pesquisadores analisaram o impacto do álcool na saúde em 195 países, de 1990-2016, e concluíram que a contribuição do álcool para doenças e morte é maior do que o anteriormente estimado. Vida e Saúde publicou uma reportagem sobre esse assunto em novembro do ano passado.

1968 – 1978

Fatores de risco para doenças cardiovasculares

Até a década de 1960, pouco se sabia a respeito da causa e do tratamento das doenças cardiovasculares. Após a morte prematura do então presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, em 1945, aos 63 anos de idade, vítima de um acidente vascular cerebral após um pico de pressão alta que chegou aos 300/190 mmHg (“30 por 19”), um grande estudo foi encomendado pelo governo americano para descobrir as causas das doenças do coração. Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Harvard iniciaram um estudo de longo prazo na cidade de Framingham, estado de Massachusetts, para acompanhar os hábitos e a saúde de pouco mais de cinco mil pessoas entre 28 e 62 anos.

Após mais de 16 anos de observação, em 1971 os pesquisadores McKee e Kannel publicaram achados que revolucionaram a medicina: eles concluíram que a pressão arterial elevada era um importante fator de risco para as doenças do coração. Estudos posteriores reconheceram também o diabetes, o tabagismo e o colesterol elevado como causas da doença.

As doenças cardiovasculares continuam sendo a causa número um de morte no Brasil e no mundo, não mais por desconhecimento das causas, mas pela falta da prática de hábitos mais saudáveis. Um estudo norte-americano com 75 mil mulheres mostrou que 83% dos eventos cardiovasculares (infartos e derrames, por exemplo) poderiam ser prevenidos se todas as mulheres praticassem cinco bons hábitos: não fumar, evitar o consumo de álcool, ter uma alimentação saudável, praticar 30 minutos de exercícios físicos ao dia e manter o peso ideal. O problema é que apenas 3% das mulheres estudadas praticavam esses bons hábitos. A teoria já está documentada, agora é só colocá-la em prática. 

1978 – 1988

Vírus HIV

Em 1983, após uma epidemia de raras infecções fúngicas e cânceres de pele em usuários de drogas injetáveis e homens homossexuais, foi descoberto pelos pesquisadores Robert Gallo e Luc Montagnier um novo vírus, chamado HIV, que causa uma falha progressiva na imunidade e permite o desenvolvimento de doenças infecciosas e câncer. A doença causada pelo vírus passou a ser chamada Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e, sem tratamento, levava o paciente a óbito em nove a onze anos após a infecção.

Essa descoberta pavimentou o caminho para a criação de um coquetel de medicamentos antirretrovirais capazes de manter o vírus sob controle, tornando a infecção pelo HIV uma condição crônica compatível com uma saúde melhor e mais qualidade de vida. Além disso, a descoberta que rendeu um Prêmio Nobel aos pesquisadores permitiu desvendar as vias de transmissão da doença, que se davam pela transfusão de sangue e especialmente pela via sexual, através do contato desprotegido com sangue, sêmen e fluidos vaginais.

Hoje o tratamento da infecção pelo HIV está disponível gratuitamente à população brasileira. Entretanto, a facilidade do acesso ao tratamento tem estimulado muitos jovens e adultos a se envolverem em relações sexuais desprotegidas e com múltiplos parceiros, causando aumento recente na incidência de novos casos de AIDS bem como de outras doenças sexualmente transmissíveis. Apenas como um parêntese, a ciência comprova hoje que maior número de parceiros sexuais não está associado à felicidade. Em 2004, dois economistas pesquisaram a relação entre variedade sexual e senso de bem-estar. Entrevistaram 16 mil norte-americanos sobre seu grau de felicidade e o número de parceiros que tiveram no ano anterior. Homens e mulheres consideraram que o número ideal de parceiros sexuais é um.

1988 – 1998

O genoma humano

O Projeto Genoma Humano foi uma arrojada iniciativa científica internacional com o objetivo de mapear todo o DNA humano, sendo ainda considerado o maior projeto biológico colaborativo do mundo. O projeto teve início em 1990 com recursos do governo norte-americano e foi declarado completo em 14 de abril de 2003.

Para os cientistas, o sequenciamento de mais de três bilhões de unidades químicas do material genético humano permitiria encontrar variações genéticas que aumentam o risco de doenças para então desenvolver possíveis tratamentos. Vários genes foram identificados, como o BRCA2, que produz uma proteína responsável por reparar danos no material genético. Mulheres com mutações nesse gene têm risco aumentando de desenvolver câncer de mama, por exemplo.

O mais interessante do genoma humano, entretanto, foi descoberto há poucos anos. Pesquisadores descobriram que o material genético de cada pessoa não é estático, ou seja, ele muda ao longo da vida de acordo com as interações entre os genes e o meio ambiente. A informação genética recebida dos pais pode mudar ao longo da vida, para o bem ou para o mal, de acordo com fatores externos, como alimentação, excesso de peso, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, estresse e poluição ambiental. Essa nova descoberta, chamada “epigenética”, prova que o que fazemos com nossos genes, por meio do estilo de vida, é mais importante do que os genes em si mesmos. Suas escolhas impactam mais do que a herança. A genética, portanto, não é destino, é apenas uma probabilidade, que pode ou não se concretizar a depender do seu estilo de vida.

1998 – 2008

A microbiota intestinal

Não estamos sozinhos. Para cada uma dos trilhões de células do nosso corpo existem dez células microbianas vivendo em nós, em todas as partes do corpo, por dentro e por fora. Entretanto, por muitos anos se acreditou que nenhum micro-organismo seria capaz de sobreviver dentro do ambiente ácido do estômago. Até que os pesquisadores Marshall e Warren ganharam o prêmio Nobel em 2005 pela descoberta de uma bactéria no estômago chamada Helicobacter pylori, a grande causadora de doenças do estômago, como gastrites, úlceras e câncer. O tratamento dessa bactéria com antibióticos derrubou as estatísticas de cirurgias para tratar úlceras e cânceres do estômago.

Se apenas um único micro-organismo no estômago pode causar doenças, imagine o que ocorre um pouco mais abaixo, nos intestinos, onde a quantidade e diversidade de bactérias é infinitamente maior? Pegando carona no Projeto Genoma Humano, 200 pesquisadores em 80 instituições começaram o Projeto Microbioma Humano em 2007, para conhecer melhor a composição das colônias de bactérias que moram nos intestinos e outros órgãos.

Essa descoberta mostrou a importância de uma alimentação saudável na composição da microbiota intestinal (antigamente chamada flora intestinal). Alimentos de origem vegetal ricos em fibras normalmente são considerados prebióticos, pois alimentam as boas bactérias no intestino. Já os probióticos, como iogurtes, kefir, kombucha, por exemplo, contêm micro-organismos vivos que ajudam na manutenção de uma boa microbiota intestinal.

Um estilo de vida saudável está associado a um melhor perfil de bactérias no intestino que, por sua vez, estimula a imunidade, favorece o metabolismo e a manutenção do peso, reduz o risco de diabetes, alergias e até doenças psiquiátricas. 

2008 – 2018

Relacionamentos

Ao mesmo tempo em que a revista Vida e Saúde começou a circular pelo Brasil, cientistas começaram a acompanhar a saúde de 268 estudantes da Universidade de Harvard, em 1938, esperando descobrir pistas para uma vida feliz e saudável. Oito décadas depois, acompanhando a trajetória de cada participante, sua vida e saúde, seus triunfos e derrotas na carreira profissional e no casamento, os pesquisadores encontraram resultados surpreendentes sobre os verdadeiros segredos da felicidade, que já renderam dezenas de publicações científicas. A popularidade do estudo, entretanto, alcançou seu clímax em 2015, quando o Dr. Robert Waldinger, professor de psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard e diretor do estudo, gravou uma palestra no canal TED, que foi vista mais de 15 milhões de vezes.

Relacionamentos saudáveis, mais do que fama ou dinheiro, foi isso o que manteve as pessoas saudáveis e felizes ao longo da vida. Laços afetivos protegem as pessoas dos dissabores da vida, ajudam a retardar o declínio físico e mental, e são mais importantes para a felicidade do que a classe social, o QI e até mesmo os genes. As pessoas que estavam mais satisfeitas com seus relacionamentos quando tinham 50 anos de idade eram as mais saudáveis e felizes quando completaram 80.

Além disso, de acordo com Waldinger, “a solidão mata e é tão ruim quanto o tabagismo e o alcoolismo”. Por outro lado, casamentos felizes ajudam a lidar com dores físicas e emocionais.

Ao fim dessa jornada, é interessante perceber que os oitenta anos de investigação médica crescente em complexidade, custo e tecnologia confirmaram que a ciência do bom viver está em saudáveis hábitos de vida, baratos e acessíveis a todos. Escolher alimentos naturais, fazer exercícios regulares, eliminar o álcool e o cigarro e ter bons relacionamentos são atitudes fundamentais para quem deseja longevidade com qualidade. É como se o futuro nos levasse de volta ao passado e nos relembrasse de que viver bem é mais simples do que pensamos. E a revista Vida e Saúde vem falando disso há 80 anos, sempre dando boas ideias para você viver bem.

Luiz Fernando Sella é Médico e mestre em Medicina e Estilo de Vida

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