terça-feira, 21 maio

Andrezza Arantes CastroOs riscos à saúde humana representados pelos micro e nanoplásticos espalhados no ambiente 

Oplástico é um material onipresente. Se você der uma olhada à sua volta, verá quantos itens desse material irá reconhecer. Produzimos objetos de material altamente durável que levam centenas de anos para desaparecer, e que muitas vezes manipulamos em poucos minutos e já descartamos. Apenas uma pequena porcentagem de material plástico é reciclada, a grande maioria é depositada em aterro sanitário ou diretamente no meio ambiente. Esses materiais podem ser classificados segundo sua composição e tamanho; itens maiores depositados na natureza se degradam em partículas menores ao longo do tempo, formando micropartículas, e estas podem ser ainda menores, gerando nanopartículas. Micro e nanopartículas podem imperceptivelmente estar em diferentes tipos de ambientes e organismos, ou seja, aonde quer que você vá o resquício de plástico estará lá, mesmo que não consiga enxergar. Existe uma classe de plásticos chamados mi-croplásticos (MPs). Eles têm tamanho inferior a 5 mm e são classificados em tipos A, B e secundários. (Veja o quadro abaixo) 

em todos os 106 peixes amostrados do Rio Han, na Coreia do Sul; na Nova Zelândia, encontraram MPs em 75% das espécies de peixes comercializadas. A presença de microplásticos já foi detectada em água potável e em diferentes tipos de produtos alimentícios, como sal, açúcar e mel. O simples contato de alguns alimentos com embalagens plásticas ou o uso indevido de plástico pode mediar essa ingestão. Estima-se que, em média, uma pessoa adulta consuma 285 partículas de microplástico diariamente e 109.984 anualmente, considerando apenas itens que correspondem a 15% da ingestão de calorias dos norte-americanos, ou seja, são valores que estão subestimados e são amplamente variáveis, conforme a dieta e o estilo de vida. As pessoas que consomem água engarrafada em embalagens plásticas todos os dias podem ingerir até 90.000 partículas por ano. Estima-se que o ser humano possa consumir cerca de 0,1 g a 5 g de microplásticos ao longo de uma semana, por diferentes vias de exposição. Imagine comer plástico equivalente a um cartão de crédito por semana! 

Impactos na saúde 

Em humanos, os microplásticos já foram identificados no sangue, pulmão, placenta, rins, fezes e até no leite materno. Amostras do leite materno de 34 mulheres foram analisadas; dessas, 26 estavam contaminadas por MPs, principalmente polietileno (PE), policloreto de vinila (PVC) e polipropileno (PP). O leite materno é considerado o melhor alimento para bebês; no entanto, com relação à qualidade do leite, a situação pode se tornar bastante preocupante, já que compostos tóxicos podem estar associados aos MPs, mas até então não sabemos qual o impacto na saúde das crianças. Embora não conheçamos a dimensão dos problemas de saúde que os MPs podem causar nos organismos, a exposição é inevitável. Três categorias principais de prováveis impactos na saúde humana podem ser atribuídas aos microplásticos: químicos, físicos e biológicos. 

O corpo é capaz de eliminar MPs, pois eles foram encontrados em fezes humanas. Entretanto, estamos considerando a via de ingestão. A quantidade que podemos eliminar não pode ser quantificada até o momento atual, atendendo que no presente ainda não é possível quantificar fidedignamente o valor real de MPs no organismo, devido a desafios éticos e metodológicos. Apesar de ser uma área de pesquisa que está em progresso, temos indicativos suficientes de que parte da exposição que vivemos pode ser acumulada nos órgãos e tecidos, mas são precisamente desconhecidos os efeitos em longo prazo. 

Os efeitos tóxicos dos micro e nanoplásticos têm sido estudados principalmente em relação aos sistemas digestivo e respiratório, uma vez que a ingestão e a inalação são as vias de exposição mais significativas. Camundongos que foram expostos a microplásticos apresentaram perturbação no eixo intestino-fígado e tiveram aumentado o risco de resistência à insulina. Estudos já demonstraram que os MPs podem prejudicar a integridade do pulmão e da barreira digestiva, causando inflamação, alteração na produção de enzimas e mudança na composição da microbiota intestinal, consequentemente afetando a imunidade do indivíduo. 

Hábitos como colocar alimento ou bebida quente em recipientes plásticos que não são específicos para esse fim, usar vasilhas plásticas impróprias para congelador, micro-ondas ou forno fazem com que esses recipientes desprendam partículas físicas ou químicas do material utilizado, contaminando o alimento ou líquido colocado neles. Para prevenir a ingestão não intencional é importante empregar cada tipo de plástico para a finalidade indicada. Cientistas sugerem que a absorção dessas substâncias representa um risco para a saúde humana, podendo ser consideradas tóxicas em certas quantidades e causar estresse físico e químico às células. 

É necessário saber identificar cada tipo de plástico para utilizá-los de forma adequada. Em concordância com a ABNT NBR 13230, os materiais plásticos são identificados com símbolo em triângulo, que indica a reciclabilidade e um número de identificação de 1 a 7, que geralmente ficam no fundo da embalagem. Os números especificam o principal tipo de material plástico daquele item. Essa identificação auxilia no processo de separação para posterior reciclagem, e contribui para que nós consumidores consideremos o uso adequado daquele objeto. Os números 2, 4 ou 5 indicam que o produto é livre de Bisfenol A (BPA), mas isso não quer dizer que está isento de outros produtos químicos que podem fazer mal à saúde quando submetidos ao frio, calor ou à acidez. 

Nada de deixar garrafas PET de água ou refrigerante dentro do carro no calor! O número 5 é o tipo mais adequado para ser usado no micro-ondas, o 7 não é indicado para ter contato com alimento, pois possivelmente pode conter BPA em sua composição, uma vez que é resultado de uma mistura de diferentes materiais plásticos. 

É amplamente reconhecido que o aditivo BPA (Bisfenol A) é utilizado na produção de determinados plásticos, e apresenta efeitos nocivos para a saúde. Foi demonstrado que ele pode causar desregulação endócrina, obesidade, câncer de mama e próstata em experimentos com ratos. Assim como o BPA, outros aditivos também integram os MPs, e eles podem ocasionar distúrbios, sejam eles metabólicos ou endócrinos. Além da numeração, verificar se os potes utilizados dispõem do símbolo de copo e garfo, isso é um indicativo de que o material é seguro para alimento. Ainda que a maioria das pesquisas seja realizada com modelos animais, desconhecemos a proporção dos prejuízos em longo prazo na saúde humana, atentando para o fato de que estilo de vida e genética podem contribuir para amenizar ou agravar os efeitos. Dessa forma, agir com precaução é a maneira mais apropriada e sensata. 

Como podemos minimizar o consumo de MPs? 

Os ambientes aquáticos são os mais estudados quando o assunto são os microplásticos; sendo assim, em várias espécies marinhas e de água doce já foi detectada a presença de MPs em seus tecidos e órgãos. O solo é um ecossistema que ainda não foi completamente explorado em termos de MPs e, infelizmente, a contaminação pode afetar negativamente a qualidade dele, dos organismos que nele habitam e o crescimento e desenvolvimento das plantas, dependendo de sua qualidade e/ou quantidade. A exposição crônica dos seres humanos aos microplásticos encontrados em alimentos e bebidas que ingerimos diariamente representa um risco para a saúde, e pode colocar em dúvida os princípios da segurança alimentar. 

É fato que se respiramos já estamos inalando microplásticos, mas podemos reduzir essa exposição com alguns comportamentos básicos, como: investir em um filtro de água de boa qualidade, usar recipientes de vidro para armazenamento no freezer, na geladeira e no uso de micro-ondas, comer menos alimentos processados (descascar mais e desembalar menos), consumir alimentos ricos em antioxidantes, substituir garrafas plásticas, utilizar bucha vegetal, usar cosméticos mais naturais, consumir de forma consciente, considerar a aquisição de produtos naturais e marcas limpas, priorizar plásticos biodegradáveis e recicláveis, e manter um estilo de vida saudável. Sabe aquele chazinho no fim da tarde? Opte por usar folhas naturais desidratadas. Estima-se que em um único sachê possam ser encontradas até dez partículas de microplásticos. Em resposta à acumulação de microplásticos em seus tecidos, caranguejos demonstraram capacidade de desintoxicação e defesa antioxidante, no entanto, em determinada concentração hepatopancreática, a defesa colapsou. Isso indica que nosso corpo é capaz de lidar com o estresse gerado por tais partículas, mas o que desconhecemos é: Até que ponto? Em qual quantidade? Sendo assim, quanto mais levarmos um estilo de vida saudável melhor, dado que um corpo saudável consegue realizar suas funções com maior eficiência. 

Andrezza Arantes Castro Graduada em Ciências Biológicas, mestre e doutora em Genética e Biologia Molecular 

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