quarta-feira, 29 maio

Em algum momento você já deve ter ouvido que a família é a base da sociedade, considerando seu papel crucial na construção da identidade e no desenvolvimento do indivíduo. Afinal, desde o momento do nascimento, é na família que se aprende sobre amor, religiosidade, respeito, autoestima, obediência, solidariedade, lealdade, empatia, frustração, tolerância, autonomia e responsabilidade, valores essenciais para a vida em comunidade. 

A escritora Ellen G. White, ainda no século 19, já apontava em seu livro A Ciência do Bom Viver, p. 349, que a felicidade da sociedade, o êxito da igreja e a prosperidade da nação dependem das influências domésticas. 

Embora a família tenha funções sociais importantes, como a formação, o cuidado e a proteção de seus membros, é necessário enfatizar que sua importância vai além desses papéis. De acordo com estudos de Pierpaolo Donati, sociólogo e filósofo italiano, a família é uma relação social completa e complexa, que engloba todas as dimensões da existência humana, desde as biológicas até as psicológicas, econômicas, sociais, jurídicas, políticas e, inclusive, religiosas. 

De fato, o contexto vivenciado diariamente no âmbito familiar imprime marcas profundas e permanentes na vida das pessoas, influenciando suas escolhas e perspectivas em relação a si mesmas e sobre o mundo ao redor. O assunto é tão sério que essa perspectiva tem incitado pesquisadores a buscar mais informações sobre como esse ambiente pode afetar a saúde dos indivíduos e, para a surpresa de muitos, os resultados apontam consequências mais sérias e profundas do que se pensava! 

Nesta matéria, vamos abordar as principais implicações para a saúde física, mental e social de um lar desestabilizado e “tóxico” em contraste com os benefícios de uma família bem estruturada. Confira, também, dicas de uma especialista para você construir um lar harmonioso e feliz. 

Ambiente familiar estruturado 

Verdade seja dita: não existe família perfeita. Apesar disso, existem, sim, alguns fatores que fazem a “atmosfera” familiar ser prazerosa, agradável e saudável. Em um lar assim é possível identificar uma organização clara e saudável de seus membros, com papéis definidos e uma dinâmica familiar positiva. Geralmente, uma família estruturada possui uma comunicação transparente, aberta e respeitosa, uma equilibrada divisão de tarefas e uma convivência harmoniosa entre os membros. Além disso,

é comum que haja um ambiente de respeito, afeto e apoio mútuo entre os membros, criando uma verdadeira rede de suporte, o que contribui para a promoção do bem-estar e da qualidade de vida da família como um todo. Ter uma família estruturada pode ser um fator importante para a saúde mental e emocional de seus membros, além de auxiliar na construção de valores e crenças saudáveis para a vida em sociedade. 

Ambiente desfavorável 

É comum que, em uma convivência diária, os membros de uma família enfrentem conflitos e desentendimentos. Cada membro é um indivíduo único, com opiniões e personalidades próprias, o que pode levar a choques e discussões ocasionais. No entanto, quando os relacionamentos familiares são saudáveis, as discordâncias são resolvidas brevemente e todos conseguem se entender, ainda que isso possa levar algum tempo. 

Por outro lado, em famílias desestruturadas, os conflitos são constantes e muitas vezes não há diálogo construtivo para resolvê-los. Em vez disso as discussões são marcadas por agressões verbais e acusações, o que acaba desviando o foco dos problemas. Nessas situações, é comum que os desentendimentos se arrastem por muito tempo, sem uma solução definitiva. 

A atmosfera do lar é largamente moldada pelos pais, e conflitos entre eles acabam por refletir nos filhos, gerando uma atmosfera conturbada na residência. Esse tipo de ambiente tóxico pode ter impacto negativo na saúde mental de quem convive nele. Mesmo que a pessoa tente manter hábitos saudáveis e mentalidade positiva, a toxicidade do ambiente pode acabar afetando sua saúde mental de forma significativa. Nesse tipo de lar, prospera um ambiente opressivo, que pode afetar todas as áreas da vida de quem vive ali. 

A maneira como os jovens são educados e como seus caracteres são moldados desde a infância, influenciará profundamente sua atuação na sociedade. Se a juventude é deixada sem orientação e sem controle, tornando-se voluntariosa, intemperante em apetite e paixão, isso terá um efeito negativo para as gerações futuras. 

  1. Estresse crônico.

  2. Ansiedade e depressão.

  3. Problemas de saúde física: a exposição prolongada a um ambiente “tóxico” pode refletir em dores de cabeça, dores musculares, distúrbios gastrointestinais, doenças autoimunes, doenças cardiovasculares e até mesmo câncer. 

 4. Dificuldade em estabelecer relacionamentos saudáveis. 

 5. Baixa autoestima. 

 6. Problemas comportamentais: agressividade, isolamento social, uso de drogas (lícitas e/ou ilícitas) e até mesmo a prática de crimes. 

7. Dificuldade de interagir e confiar em outras pessoas. 

8. Transtornos alimentares: anorexia, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar periódica. 

9. Distúrbios do sono. 

10. Distúrbios de aprendizagem.

A Organização Mundial da Saúde relatou em 2020 que 10 a 20% das crianças e adolescentes em todo o mundo sofrem de transtornos mentais. O Banco Mundial relatou que, para os jovens, os transtornos neuropsiquiátricos são uma das principais causas de sobrecarga relacionada à saúde. 

Portanto, fica evidente que a convivência familiar é fundamental para o desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo, contribuindo para a construção de laços afetivos e de confiança. A família deve ser um porto seguro, no qual a pessoa encontra acolhimento e apoio em momentos de dificuldade, e celebrações em momentos de alegria. 

Pensando no dia a dia das famílias brasileiras, muitas vezes vêm à mente a típica imagem de “família de comercial de margarina” para descrever uma família feliz, sorrindo enquanto toma café da manhã. Perguntamos à psicóloga Elisabeth se na vida real esse modelo funciona: “Embora essa imagem seja esteticamente agradável, a vida real é muito mais complexa e nem sempre tão idealizada. Ainda assim, é possível cultivar uma família feliz, apesar de desafios e desentendimentos, já que os humanos são seres falíveis que aprendem e crescem ao longo do tempo.” 

Uma vez que as bases do amor estão bem delimitadas, os demais fatores podem ser trabalhados de forma mais eficiente para harmonizar o lar. Abaixo seguem alguns aspectos fundamentais indicados pela especialista para que você possa construir uma família equilibrada e feliz: 

Comunicação assertiva: é aquela que usa de ponderação e gentileza no uso das palavras, pois demonstra apreço e respeito para com seus integrantes e é fundamental para manter uma conexão saudável. O sábio Salomão em Provérbios 15:1 e 2 menciona o bom uso das palavras como sinal de sabedoria: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.” Para desenvolver uma boa comunicação em sua família: 

  • Seja claro, objetivo e respeitoso: falar de maneira clara e direta, evitando mensagens ambíguas, confusas e ofensivas. 
  • Aprenda a ouvir ativamente: preste atenção ao que a outra pessoa está dizendo e demonstre interesse genuíno no que ela tem a dizer. 
  • Fale no momento certo: escolha o momento adequado para abordar um assunto, evitando discutir questões importantes em momentos inapropriados. 

Respeito mútuo e empatia: cada membro da família deve ser valorizado e respeitado em sua individualidade, sem críticas desnecessárias. A troca de insultos entre os pais prejudica a saúde física e emocional dos filhos, que tendem a reproduzir essas condutas. Além disso, os pais precisam intermediar eventuais conflitos entre os irmãos, intervindo imediatamente para que aprendam a conviver em harmonia e para que nutram admiração e respeito, apesar das diferenças. 

Limites: é preciso sabedoria para equilibrar respeito e limites na hora de educar as crianças. Pais que respeitam as vontades de seus filhos por desejarem ser amados, criam filhos desobedientes, impulsivos e intolerantes a frustrações. Eles precisam ser respeitados e obedecidos para então conquistar o amor dos filhos. Uma família estruturada é aquela que determina limites claros, que é constante, coerente no estabelecimento de regras e no cumprimento dos acordos estabelecidos. 

Função materna e função paterna bem definidas: antigamente, quando se tratava do desenvolvimento da criança, dava-se muita ênfase às relações mãe-filho. Hoje fala-se bastante no papel do pai. Além do papel crucial que o pai exerce na triangulação pai-mãe-filho, a presença paterna ainda na primeira infância é crucial também para o desenvolvimento dos filhos na entrada na adolescência. Nesse sentido, consideramos muito importante tanto a função materna, quanto a função paterna na estruturação do psiquismo e na formação da personalidade dos filhos para a vida adulta. 

Equilíbrio entre trabalho, família e diversão: o trabalho é importante, porém passar tempo de qualidade com a família, ter momentos de lazer e diversão são necessários e devem ser considerados questão de saúde física e mental. Construir memórias afetivas positivas fortalece o sistema imunológico, contribui para o desempenho acadêmico, e traz muitos outros benefícios biológicos, psicológicos e sociais. 

Divisão de tarefas e cooperação: a colaboração e o trabalho em equipe são fundamentais para que a família funcione de forma harmoniosa e para que todos possam alcançar seus objetivos comuns e individuais. Definam uma rotina de atribuições domésticas em que todos possam contribuir. A divisão de tarefas domésticas e a colaboração entre os membros da família podem aumentar o senso de pertencimento dos filhos, além de desenvolver habilidades importantes, como organização e trabalho em equipe. Quando as crianças se sentem úteis e valorizadas dentro de sua família, elas desenvolvem um senso de pertencimento que pode ajudá-las a se sentirem mais conectadas e engajadas com a família. Isso também pode ajudá-las a desenvolver um senso de identidade pessoal e a se tornarem adultos responsáveis e autônomos.

Planejamento financeiro: Famílias com dificuldades financeiras tendem a ter mais conflitos e desentendimentos. O planejamento financeiro, via de regra, pode ser um espelho de como a família administra também as questões emocionais. O descontrole financeiro pode ser decorrente da impulsividade e falta de diferenciação entre desejo e necessidade. Portanto, realizem um planejamento financeiro dentro da realidade familiar, estipulando metas a curto, médio e longo prazo. Não contraia dívidas sem o consentimento do seu cônjuge. 

Otimismo: nós pensamos, sentimos e agimos. Sendo assim, as atitudes em família derivam de como pensam seus integrantes. Daí a importância do pensamento positivo. Pessoas otimistas costumam ser animadas, alegres, sonhadoras, resilientes, corajosas, mais proativas e com mais chances de serem bem-sucedidas, inclusive nas relações interpessoais. 

Deus na família: a fé em Deus pode fornecer um senso de propósito e significado, promover hábitos saudáveis e ajudar a lidar com questões emocionais e psicológicas, contribuindo para a saúde integral. Já dizia o salmista: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127:1). 

Fica evidente o impacto significativo da família na saúde física, mental e social das pessoas. É importante reconhecer o papel crucial dela na promoção da saúde integral e no bem-estar, e trabalhar para construir laços familiares fortes e saudáveis, que forneçam suporte e apoio mútuo em todos os aspectos da vida. Aproveite as dicas e coloque-as em prática para desfrutar dos benefícios de um lar equilibrado e saudável. 

Liziane Conrad Costa

Bióloga e mestre em Saúde 

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