domingo, 26 setembro

Pesquisa comprova: nutrição vegetariana é adequada para atletas Davi Boechat

George Silva de Souza, de 60 anos, vive em Bertioga, no litoral do estado de São Paulo, e realiza atividades físicas de alto rendimento. Todos os dias o suboficial reformado da Aeronáutica percorre dez quilômetros na companhia de sua bicicleta e, nadando, realiza a travessia entre a praia de Boraceia e a ilha Montão de Trigo. Os feitos notáveis do triatleta incluem dezenas de maratonas, competições diversas e até viagens internacionais realizadas em condições desafiadoras. Na maior delas, partiu do Rio de Janeiro e pedalou entre países até chegar ao seu destino nos Estados Unidos da América. As marcas foram alcançadas com resiliência, treinamento e uma dieta vegetariana.

Mais do que uma paixão pessoal, as atividades físicas surgiram como meio de mobilidade social para George. De origem pobre, ele sonhava conseguir uma vida melhor por meio da carreira militar, o que lhe exigia um desempenho corporal distinto. A aprovação na Aeronáutica lhe ofereceria salário digno e um futuro próspero, em contraste com sua história repleta de dificuldades.

Aos 15 anos, próximo da idade mínima para a seleção que esperava ansiosamente fazer, George contraiu tuberculose. À época, essa era uma doença conhecida por abater pessoas que viviam em condições de vida insalubres e com má alimentação. A partir daquele momento, seus planos estavam comprometidos.

Em uma consulta, ouviu do médico uma informação desanimadora capaz de fazer ruir os sonhos sobre a admissão na carreira pretendida: “Você nunca vai poder ser atleta. Diga para sua mãe buscar uma boa escola para você. Você vai depender de uma boa formação e, sem isso, só lhe restarão os trabalhos pesados, que você não tem condições de fazer.”

George escapou da doença, mas não ileso. Debilitado, ele carregava as marcas deixadas pelo sistema respiratório comprometido. Como resultado disso, no ano seguinte, foi reprovado na etapa física do concorrido exame nacional para admissão de sargentos da Aeronáutica. Sua mente estava pronta para a prova e George obteve boas notas nas provas teóricas. O mesmo não podia se dizer do corpo. George foi impedido de assumir a vaga de aluno para o cargo de mecânico de aviões, não pelo sucesso dos 40 mil candidatos inscritos naquele ano, mas por sua dificuldade em suportar os esforços durante a prova.

Dois anos depois, já maior e ainda portando as consequências da tuberculose, George se apresentou à Aeronáutica em seu alistamento obrigatório. Ciente de suas limitações, foi surpreendido pela convocação. “O médico, distraído por um auxiliar, não viu minha radiografia, que mostrava algumas manchas nos pulmões. Entrei, mesmo não tendo condições. Ali tive acesso a uma boa alimentação e passei a receber algum salário. Uma grande conquista que veio de forma completamente inesperada”, diz George.

Do último ao primeiro

Servindo na Base Aérea de Santos, os problemas respiratórios deixados pela tuberculose pesaram de maneira desfavorável. No treinamento físico militar, o desempenho de George era sofrível. O último lugar chegava a ser motivo de comemoração, uma vez que nos primeiros meses como militar a corrida de dez minutos terminava na enfermaria. “Eu temia ser enviado de volta para casa. Dependia daquele serviço. Mesmo na condição de soldado, a vida já era um pouco melhor. Aquela era uma escada para o futuro. Eu não tinha opção senão fazer o melhor”, comenta. Exausto, precisava enfrentar ainda a pressão dos superiores. “As humilhações me fortaleceram de tal modo que precisei superar a doença”, afirma.

 

“Acredito que aquele esforço extra foi fundamental para mim. Por causa dele eu pude ir além das limitações impostas pela doença. O esforço físico que me deixava mal frequentemente foi o mesmo que acabou com as limitações que eu enfrentava. Minha capacidade respiratória foi recuperada por meio da proibição que ela me impunha”, explicou George, que naquele ano de treinamento tornou-se o melhor de sua turma. Do último lugar, passou a ocupar a primeira posição. Essa posição se repetiria em muitas outras ocasiões durante sua vida de atleta.

Recuperado dos efeitos da tuberculose, conseguiu, enfim, a aprovação no concurso para sargento da Aeronáutica. Na Escola de Especialistas, em Guaratinguetá, preparando-se para o cargo de mecânico de aeronaves destacou-se pelo desempenho físico. Nos dois anos de capacitação foi levado às atividades de paraquedismo, acampamentos extremos, exercícios e regulamentos militares que exigiram muita dedicação, mas não o afastaram da vocação para as atividades físicas de alto impacto. O resultado do esforço foi a seleção para os jogos militares de 1980. Naquele ano, dentre os dois mil atletas da instituição, esteve entre os 20 selecionados para o atletismo. No pente fino nacional, muito mais criterioso, ficou entre os sete escolhidos. Foi a preparação para essa ocasião que o levou a uma busca ainda maior de desempenho para as provas de 10 km. Na alimentação, encontrou respostas.

“Todo atleta deveria ser vegetariano”

“Na minha equipe havia outro sargento, o Roberto. Ele estava acima do nível dos demais. Enquanto estávamos próximos do fim da prova, cansados, ele conseguia aumentar a velocidade. Todos havíamos sido submetidos às provas mais intensas. Éramos os melhores na nossa modalidade em todo o País. Tínhamos o mesmo treinamento, tipo físico, mas ele era especial.” A admiração pelo colega fez com que George perdesse a timidez e perguntasse a Roberto o segredo para tamanho sucesso: “Eu o observava tentando encontrar algo que ele fizesse que eu pudesse reproduzir. Certo dia, decidi ir direta-mente a ele. Na resposta, ele disse que poderia dizer, mas que eu com certeza não aceitaria nem colocaria nada em prática.

Mal sabia ele quanto eu queria melhorar meu desempenho. Estava aberto a qualquer mudança.”

O diálogo entre Roberto e George trouxe à tona a alimentação. A diferença entre os dois nas pistas tinha origem à mesa. George se alimentava com carne em profusão, enquanto Roberto era abstêmio da proteína animal, contrariando os nutricionistas responsáveis pela alimentação de ambos.

Para aqueles especialistas, o consumo de carne por parte dos atletas era fator decisivo para o sucesso. Resultado disso era a alimentação especial oferecida aos atletas, sem limites para as carnes. “Roberto me explicou que o processo digestório da carne era demorado, o que dava vantagem para atletas vegetarianos. Enquanto nós gastávamos energia processando o alimento, ele a utilizava para correr”, relembra.

George, que na infância havia sido privado de boa alimentação e sofreu com as consequências disso, estava ciente dos efeitos do impacto da transformação dos hábitos. Por isso, decidiu imediatamente aderir às orientações de Roberto. Mecânico, ele compreendia que máquinas dependem de combustível de qualidade para seu melhor desempenho e decidiu aplicar a regra ao próprio corpo. Em seu prato haveria abundância, mas, a partir daquele momento, nenhuma carne. As recomendações de Roberto incluíam o consumo de lêvedo de cerveja, castanhas, aveia, germe de trigo, própolis e mel, que se tornaram aliados nessa nova fase alimentar de George.

“Daí para a frente, meu desempenho evoluiu muito. Empatei com Roberto e, algum tempo depois, o superei. A amizade não foi para a frente. Nos tornamos adversários, mesmo estando na mesma equipe. Éramos muito bons e ganhamos a competição nacional promovida entre atletas do Exército, Marinha e Aeronáutica na modalidade corrida de 10 km. De qualquer forma, conheci a vantagem vegetariana por meio dele e sou grato por isso”, diz George.

Quebrando paradigmas

A experiência prática de George há quase 40 anos ganhou amparo científico em junho deste ano. Em um amplo estudo da Universidade de São Paulo com a participação de 38 voluntários submetidos a exercícios para ganho de força muscular, mostrou-se inexistente a distinção entre aqueles que adotam dietas com ou sem proteína animal durante 12 semanas.

Ao término das pesquisas, não foi detectada vantagem no grupo que consumiu proteína animal. Ganho e força muscular desenvolveram-se no mesmo nível. Para a pesquisa, foi observada a indicação ideal de 1,6 grama de proteína por quilo. Hamilton Roschel, autor do estudo, explica que a vantagem de uma dieta onívora era dada pela prevalência de leucina, aminoácido importante para o desenvolvimento muscular. A pesquisa, por sua vez, revelou resultados positivos para atletas submetidos à dieta vegetariana.

“Carne, leite ou ovos apresentam mais proteína por grama de alimento que arroz ou feijão, por exemplo. Dessa forma, ao considerarmos uma aplicação clínica em que o aporte proteico seria provido apenas por alimentos de origem vegetal, vegetarianos estritos necessitariam ingerir volume maior de alimentos para obter a mesma quantidade de proteínas, o que pode, em alguns casos específicos, representar um desafio importante”, explica Roschel. De outro modo, é possível dizer que a diferença está na quantidade de proteína ingerida e não na origem dela. Dieta mista e vegetal são opções igualmente úteis para o desenvolvimento muscular. Segundo Roschel, “as proteínas de origem animal têm mais leucina do que as de origem vegetal. Como esse aminoácido é essencial no processo de sinalização do estímulo anabólico, especula-se que uma alimentação à base de vegetais resultaria em menor conteúdo de leucina e, portanto, um estímulo anabólico tambémreduzido, o que afeta-ria o potencial de vegetarianos estritos de ganhar massa muscular”. Uma vez que as dietas vegetariana e onívora, tão distintas, promovem ganho de massa muscular equivalente, a necessidade de proteína animal no desenvolvimento de atletas de alto rendimento poderá ser rediscutida na prática alimentar desse público. “Nosso achado mostra que, se ingerirem a quantidade adequada de proteína, jovens adultos vegetarianos não têm prejuízo no ganho de massa muscular. Na realidade, o resultado das duas dietas foi igual”, afirma Roschel.

Roschel explica ainda que a pesquisa “reforça outros dados da literatura que apontam que uma dieta vegetariana estrita é absolutamente possível de ser completa, se bem executada e planejada. Estudos anteriores sugerem que ela é, inclusive, possivelmente mais saudável do que uma dieta onívora. Entretanto, para isso é necessário acompanhamento nutricional adequado e até mesmo um processo de educação nutricional acerca das escolhas que a pessoa deverá fazer ao restringir sua alimentação a fontes vegetais”.

O estudo ressalta a importância do acompanhamento profissional e da alimentação equilibrada, práticas já comuns aos atletas, mas muda paradigmas acerca do que vai à mesa deles. Seria essa uma oportunidade de novas discussões sobre a nutrição esportiva? O tempo dirá. Até lá, George pretende ter concluído o desafio de completar a volta ao mundo. Esperamos mais novidades científicas e boas notícias de George, que registrou parte de suas memórias no livro Conquistando o Brasil (CPB) e mantém o site georgesilva.com.br.

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