sábado, 26 setembro

Tratamento ou ilusão? Veja o que pesquisas, governos, autoridades e especialistas dizem sobre o assunto. Ivan Stabnov

 

No início de 2019, a imprensa francesa noticiou que o seguro do serviço público de saúde (Sécurité Sociale) não mais reembolsaria tratamentos com medicações homeopáticas.¹ Essa decisão foi tomada pela Haute Autorité de Santé, órgão público com funções semelhantes às da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Agência Nacional de Saúde (ANS), no Brasil. O reembolso de tratamentos homeopáticos na França vigorava desde 1984.

O sistema público de saúde da França é um pouco diferente do nosso. Ele funciona por meio de reembolso. Isso significa que qualquer cidadão pode comprar um remédio e ser reembolsado pelo governo.

Na França, até então, o paciente recebia um reembolso de 30% do seguro saúde ao comprar medicamentos homeopáticos, que fossem receitados por médicos em uma consulta. A partir da decisão de não reembolso, o paciente terá que pagar integralmente o valor do medicamento, o que deve gerar uma solicitação maciça de prescrição de medicações alopáticas por parte da população. Esse processo será feito de forma gradativa. A partir de janeiro deste ano o reembolso passou a ser de 15%, e em 2021 o reembolso deixará de existir.

Os três laboratórios que produzem medicamentos homeopáticos na França perderam valor e suas ações na bolsa de valores estão em baixa. A ação do laboratório Bioron, que custava pouco mais de 50 euros, agora vale cerca de 33 (cotação realizada enquanto este artigo era escrito). Os outros dois laboratórios, Weleda e Lehning, também sofreram perdas pela decisão do Sécurité Sociale.

No ano de 2017, na Inglaterra, um fenômeno semelhante já havia acontecido. O National Health Service, serviço público de saúde inglês, anunciou o fim do reembolso de tratamentos homeopáticos e aconselhou o governo do Reino Unido a não mais financiar a construção e manutenção de hospitais homeopáticos. O NHS afirma que os remédios homeopáticos são placebos e representam má utilização de recursos públicos.²

Dois meses depois, o Conselho Científico das Academias de Ciências Europeias (Easac) publicou um relatório denunciando a ineficácia da homeopatia e desaconselhando os serviços de saúde europeus a reembolsar tratamentos homeopáticos, com os seguintes termos: não existe “nenhuma prova cientificamente estabelecida e reprodutível da eficácia dos produtos homeopáticos em nenhuma doença”. A publicação também mostrou que princípios usados na homeopatia não possuem validade científica.³

Até as instituições de ensino médico e farmacêutico discutem a proposta de suspender seus cursos nessa área. Na realidade, a Faculdade de Medicina de Lille, na França, já não mais emite diplomas para a especialidade médica em homeopatia. A Academia Nacional de Medicina da França desaconselha que as faculdades ensinem homeopatia.4

A homeopatia é bastante popular na Alemanha, onde foi criada, na Áustria e na França, onde sua divulgação foi exponencial. Em uma pesquisa divulgada no ano passado, cerca de 72% da população francesa acredita na homeopatia e 52% dos franceses já a utilizaram. É o país com mais médicos homeopatas: cerca de 20 mil profissionais.5

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) inclui procedimentos homeopáticos desde 2006. Os médicos, farmacêuticos e outros propagandistas franceses da homeopatia foram os principais canais de difusão desse método terapêutico no Brasil. O primeiro divulgador da homeopatia no Brasil foi o francês Benoit Mure, um dos fundadores da colônia socialista do Saí, perto de São Francisco do Sul, em Santa Catarina, em 1841. A experiência socialista comunitária fracassou e os colonos franceses se dispersaram na região ou retornaram para a França. Benoit Mure se mudou para o Rio de Janeiro, onde fundou o Instituto Homeopático do Brasil, e ganhou discípulos que difundiram e implantaram a homeopatia no país.

Alternativa pseudocientífica

No Brasil, as ideias que deram origem ao espiritismo remontam às primeiras experiências com o chamado fluido vital (magnetismo animal e mesmerismo) por parte dos praticantes da homeopatia, nomeadamente os médicos Benoit Jules Mure, natural da França, e João Vicente Martins, de Portugal, que chegaram ao país em 1840 e o aplicavam em seus clientes. Portanto, o kardecismo, que também é de origem francesa, nasceu, no Brasil, ligado à homeopatia. Aliás, tanto Benoit Mure (nascido em 1809) quanto Allan Kardec (que se chamava Hyppolite Rivail, nascido em 1804) vieram da cidade francesa de Lyon, um dos centros de referência para os médicos e farmacêuticos homeopatas brasileiros. Muito seguida e utilizada, a homeopatia é pouco questionada no Brasil. Mas, cedo ou tarde, o debate sobre a eficácia dessa terapia deverá ser abordado pelas autoridades competentes brasileiras.6

A homeopatia é uma prática pseudocientífica que baseia seus tratamentos no uso de substâncias hiperdiluídas7 e que foi inventada há cerca de 220 anos por Samuel Hahnemann, médico alemão que estava tentando melhorar os procedimentos médicos da época, bem rudimentares, principalmente a sangria. Sabe-se que, com rara exceção, a sangria é bastante prejudicial à saúde do paciente, podendo levar até à morte. Há 200 anos a medicina arcaica não conhecia a causa da maioria das doenças, portanto, vários métodos ineficazes eram inventados, passando a ser populares, mesmo sem nenhuma eficácia comprovada. Quando se utiliza um tratamento ineficaz, ele se torna perigoso, já que um tratamento efetivo é desconsiderado, não empregado ou recusado, gerando a não cura ou o não tratamento.

A homeopatia é baseada no conceito de que o semelhante pelo semelhante se cura (do latim similia similibus curantur), isto é, um pouco do que causa a
doença também, de alguma forma, poderá curar. Daí a afirmação da sua pseudociência, já que algo que causa doença não leva à cura. Não se deve confundir a imunização com homeopatia. São conceitos bastante diferentes. Na imunização, uma pequena porção de um agente conhecido é injetada em uma pessoa porque cientificamente é provado que isso leva a uma reação do sistema imunológico, que produz anticorpos contra o micro-organismo em questão, preparando o organismo para uma futura invasão, prevenindo o estabelecimento da doença. A imunização foi largamente comprovada, sendo, inclusive, um tratamento que já salvou milhões de vidas em todo o planeta.

Já na homeopatia a situação é bem diferente. Uma pequena porção de algo que não causa doença é utilizada, como, por exemplo, o Oscillococcinum, medicamento homeopático feito a partir de extrato filtrado do coração e do fígado frescos do pato Anas barbariae. Ora, até onde se saiba, coração e fígado de pato não causam doença. Esse extrato é então diluído inúmeras vezes, até que nenhuma partícula dele se encontre na medicação, resultando em um medicamento composto basicamente pelo diluente, quer seja álcool, lactose ou água. Essa suposta medicação é ingerida, porém não ativa o sistema imunológico.

Em nenhuma pesquisa médica rigorosa foi demonstrado que os remédios homeopáticos foram mais eficazes que o placebo na cura de qualquer doença. Alguns estudos malfeitos ocasionalmente demonstraram ter alguma eficácia marginal. Porém, esses estudos não foram replicados, o que é de suma importância em demonstrações científicas. Em mais de 200 anos não há provas científicas definitivas de que a homeopatia funcione melhor que o placebo.

Diluição da lógica

Se você procurar em um rótulo de medicação homeopática, vai encontrar alguns números e uma letra, por exemplo 10X ou 200C. O número diz respeito a quantas vezes o produto original foi diluído, e a letra diz se cada diluição sucessiva foi de 10 vezes (X) ou 100 vezes (C). As letras derivam dos algarismos romanos. Por exemplo, em uma medicação 30X, uma parte do produto original é diluída em nove partes de um diluente, que pode ser água, álcool ou lactose. Isso é repetido 10 vezes. No fim sobrará apenas uma parte da medicação original para 10 bilhões de partes do diluente.

O Oscillococcinum, mencionado anteriormente, é diluído 200C, o que significa que as partes originais do pato foram diluídas 200 vezes, cada vez com uma diluição de cem vezes, o que resultaria em uma parte do pato para uma diluição de 400 zeros. Ou seja, não há mais pato nenhum no remédio! As leis da química dizem que o ponto em que não resta mais nada do material original é 12C (24X), mas os fabricantes de medicações homeopáticas continuam fazendo diluições de 100 vezes 188 vezes mais depois disso. Voltando ao pato, desde quando pato é uma medicação para curar alguma coisa?

Também existe o conceito de “potência” na homeopatia. Alegadamente, quanto mais diluições, mais potente é a medicação. Uma medicação 10X é pouco potente, enquanto uma medicação 200C é muito potente. Não há lógica que possa explicar essa equação.

Por que é necessário haver diluições sucessivas? Por que não fazer tudo de uma só vez? Isso se dá por causa de outro componente do processo homeopático, que ocorre em cada etapa da diluição. É aqui que os fabricantes dizem que acontece a verdadeira “magia”. O recipiente que contém o material é sacudido vigorosamente em um processo chamado sucussão. Toda vez que uma diluição é feita, o recipiente é sacudido, o que de alguma forma supostamente potencializa o efeito e deixa uma “memória duradoura” ou alguma forma de impressão da substância original no diluente. Portanto, o que se compra na loja é basicamente água, ou qualquer que seja o diluente, sem uma única molécula do material original, que supostamente foi alterada de alguma forma que, quando ingerida, resulta em cura. O problema é que água (ou outro diluente) não tem memória, ou seja, essa “energização” é o segredo da homeopatia.

Muitas vezes medicamentos vendidos como homeopáticos na realidade são produtos alopáticos. Um famoso medicamento para prisão de ventre, identificado por um número, na realidade contém cinco gramas de picossulfato de sódio, 20 gramas de Cassia senna e 15 gramas de Collinsonia canadenses – plantas conhecidas por seu efeito laxativo. O picossulfato é um produto químico.

Por que acaba funcionando?

A homeopatia pode funcionar em apenas quatro formas. Ou como efeito placebo, ou como remissão espontânea da doença, o que aconteceria com ou sem a medicação. A terceira maneira é por meio da atenção dada pelo profissional que consulta o paciente.

Certamente os médicos homeopatas são profissionais bem-intencionados, bem como os pacientes que se submetem ao tratamento homeopático. Muitos ainda não atentaram para a realidade da história da homeopatia e sua falta de eficácia ou comprovação científica. Normalmente os médicos homeopatas são dedicados e investem bom tempo na consulta com o paciente, detalhando toda a história dele, ouvindo com atenção e cuidado. Da mesma forma que a psicoterapia é eficaz, assim também pode ser na consulta homeopática, já que por meio do ouvir e falar, sem medicamentos, o tratamento é alcançado. Podemos inferir, então, que a boa relação entre o profissional de saúde e o paciente é curativa.

A quarta via é mais complexa de se entender ou explicar. Como dissemos anteriormente, Hahnemann, ao desenvolver a homeopatia, alega ter utilizado a “energia” como ponto principal de seu invento.

Uma de suas frases foi: “Triturando-se as substâncias medicinais, e por sacudimento de suas soluções (dinamização, potencialização), se desenvolverá e manifestará seu poder medicinal, nelas oculto, e, por assim dizer, se espiritualizará a própria substância material”9 (grifos acrescentados).

O efeito placebo, reconhecidamente, tem efeito benéfico em alguns indivíduos. Porém, alguns problemas podem resultar de seu uso. Primeiro, os placebos não são muito eficazes. Segundo, é possível que exista um tratamento disponível muito mais eficaz e que cure o paciente de maneira mais confiável e rápida. Terceiro, a doença do paciente pode piorar enquanto ele estiver recebendo o placebo. Quarto, há o fator do custo. Quanto você está disposto a pagar por um placebo, sem comprovação de eficácia, especialmente quando é comercializado sem o apoio de pesquisas?

Voltando ao remédio homeopático para gripe, o Oscillococcinum, que é feito a partir do coração e do fígado do pato, você sabia que a produção de um ano de medicação é feita a partir dos órgãos de apenas um pato? A empresa que o fabrica, a Bioron, vende bem mais que 20 milhões de dólares anualmente. A partir de um único pato se retira o valor de 20 milhões! Deve ser o maior esquema financeiro conhecido da indústria farmacêutica.10

O governo da Austrália publicou em 2015 um estudo realizado pelo National Health and Medical Research Council (NHMRC) com a seguinte conclusão: “Com base na avaliação da evidência de efetividade da homeopatia, o NHMRC conclui que não há condições de saúde para as quais exista evidência confiável de que a homeopatia é eficaz. A homeopatia não deve ser usada para tratar condições de saúde crônicas, graves ou que possam se tornar graves. As pessoas que escolhem a homeopatia podem colocar a saúde em risco se rejeitarem ou atrasarem tratamentos para os quais existem boas evidências de segurança e eficácia. As pessoas que estão pensando em usar a homeopatia devem primeiro obter aconselhamento de um profissional de saúde registrado. Aqueles que usam homeopatia devem informar seu médico e devem continuar tomando os tratamentos prescritos.”11

E os animais?

Mas em animais, homeopatia funciona? Argumenta-se que se a homeopatia fosse um placebo, não funcionaria em animais e em bebês. Quando se fala em efeito placebo, há vários processos envolvidos: condicionamento, expectativa, compreensão da intenção de tratar, suscetibilidade individual e a remissão espontânea de doenças. Cada um desses elementos pode estar presente, em maior ou menor grau, nos animais. 

Animal não fala. O dono do animal é o responsável pela interpretação do comportamento do animal e ele é sugestionável. O condicionamento é um dos efeitos do placebo. Desde os primeiros trabalhos do fisiologista Ivan Pavlov, foi demonstrado que resposta fisiológica pode ser condicionada em animais por uma substância inerte, ou por um comportamento. Por exemplo, as idas ao veterinário, que são fonte de estresse para o animal, são suficientes para condicionar o bicho, mesmo sabendo que grande parte das consultas de rotina são para vacinas e check-ups, ou seja, o animal será manipulado, sentirá desconforto. Ao levar um cãozinho ao veterinário, mesmo que tentemos disfarçar, o animal sempre perceberá a diferença e entenderá que não está saindo para passear. Nossa linguagem corporal involuntária nos “entrega”. 

O carinho e o contato humanos também funcionam como efeito placebo em animais, e há estudos que demonstram que acariciar cães e cavalos reduz sua frequência cardíaca e o manuseio gentil de novilhas aumenta a produtividade de leite. Um clássico efeito placebo.

A percepção do proprietário e do médico veterinário também pode influenciar o resultado do tratamento. O dono e o profissional veterinário podem relatar melhora, mesmo quando ela não existe, e o animal continua doente. Chamamos isso de “placebo por procuração”, e pode acontecer também com bebês. 

Como o paciente não tem voz, a declaração de que houve melhora reflete uma impressão subjetiva do cuidador, vulnerável a todo tipo de viés cognitivo. Esse fator, somado à remissão espontânea, pode ser o que mais contribui para a popularidade da homeopatia na prática veterinária. 

O Royal College of Veterinary Surgeons, órgão britânico oficial, emitiu recentemente uma declaração: “A homeopatia existe sem um corpo de evidências reconhecido para seu uso. Além disso, não se baseia em princípios científicos sólidos. Para proteger o bem-estar animal, consideramos esses tratamentos complementares e não alternativos aos tratamentos para os quais existe uma base de evidências reconhecida ou que são baseados em princípios científicos sólidos. É vital proteger o bem-estar dos animais comprometidos com os cuidados da profissão veterinária e a confiança do público na profissão de que quaisquer tratamentos não sustentados por uma base de evidências reconhecida ou por princípios científicos sólidos não atrasam ou substituem os que o fazem.”12

Uma revisão de trabalhos científicos foi publicada recentemente pela Associação Veterinária Britânica. Foram estudadas publicações de 1981 a 2014. Os autores reportam que grande parte dos estudos sofre de falhas metodológicas graves, como ausência de grupos-controle e grupos-placebo, uso indevido de testes estatísticos, ausência total de informações sobre fatores de confusão, como as condições de habitat, higiene e alimentação dos animais.13

Também registram casos em que a “melhora” dos animais era uma declaração subjetiva feita por um veterinário homeopata ou pelo fazendeiro, a ausência de métodos diagnósticos simples como testes de laboratório e exames clínicos e, finalmente, o fato de nenhum dos estudos ter sido replicado, e haver outros que jamais poderiam ser replicados, porque faltavam informações básicas sobre a metodologia utilizada. 

Concluindo, não existe base farmacológica para a homeopatia, nem qualquer evidência de eficácia, e que a partir do momento em que sabemos que os remédios homeopáticos não têm efeito real, apenas um provável efeito placebo – sobre o dono –, o uso da homeopatia na veterinária pode comprometer o bem-estar animal e causar sofrimento evitável.

Por mais que seja apelativa a ideia de se utilizar uma medicação sem efeitos colaterais, as razões acima expostas devem orientar o paciente a tomar uma decisão baseada na lógica, na comprovação científica e na relação entre o custo e o benefício. 

Ivan Stabnov é Gastroenterologista e endoscopista digestivo

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