domingo, 14 abril

Conheça o mecanismo midiático que promove a erotização infantil e a puberdade precoce  – Liziane Nunes Conrad Costa 

As crianças são capazes de trazer alegria a qualquer ambiente. São puras, sinceras, repletas de personalidade e muita energia, adoram brincar e se divertir. A infância é uma etapa crucial de seu desenvolvimento social, cognitivo, físico e emocional, e tudo o que for experimentado, vivenciado e estimulado nessa fase irá mediar a construção do seu eu e do adulto que se tornará.

Nesse contexto, o crescente cenário promotor de fatores como adultização, sensualização, sexualização e erotização infantil tem se tornado preocupante, especialmente por estarem induzindo uma puberdade cada vez mais precoce. São músicas sensuais, dancinhas erotizadas, vestuário adultizado, cenas inapropriadas de filmes, novelas e até mesmo desenhos animados, que estão por trás desse processo e estão roubando a infância.

Antes de tudo, é preciso entender que a sexualidade é inerente ao desenvolvimento humano e faz parte da infância. É por meio da curiosidade espontânea, do reconhecimento do próprio corpo e do diálogo aberto com os pais que esse desenvolvimento acontece de maneira saudável e natural. A sexualidade integra todo o ser físico, biológico, e atua na construção da nossa identidade. A sexualização é outro assunto e pode ser entendida como uma adultização da criança, que ocorre quando é implementada uma conotação sexual para elementos do universo infantil ou quando tornam elementos do universo adulto e relacionados à sexualidade objetos de desejo para os pequenos, como roupas mais sensuais, por exemplo.

Erotização infantil 

A expressão se refere à exposição da criança a conteúdos impróprios, uma vez que ela é desprovida de maturidade suficiente para compreendê-los e elaborá-los. O erotismo pode contemplar ações que variam do sensual até algo que seja explicitamente sexual. Um grande perigo está na prática abusiva de ações vistas como “inocentes” e até mesmo “divertidas” ou “engraçadinhas” por pais, amigos e familiares, mas que estão, pouco a pouco, destruindo a inocência e prejudicando o desenvolvimento natural das crianças. 

Fatores que promovem a erotização infantil 

Os vilões estão por toda parte! São cenas sensuais em livros, novelas, filmes, desenhos animados, letras de músicas que usam termos pejorativos revistas, jornais, outdoors e internet utilizam-se do erotismo infantil para a venda de artigos, como brinquedos e roupas para crianças, muitas vezes com um apelo extremo à sexualidade. 

Disruptores da infância 

As telas exercem grande fascínio, tanto no meio infantil quanto no juvenil, e, infelizmente, a mídia tem se tornado orientadora pedagógica de muitos públicos pelo mundo, construindo, assim, uma identidade sexual distorcida e nociva. Ela é uma das grandes responsáveis por erotizar precocemente as crianças e banalizar o sexo.     

O que requer nossa atenção é o fato de as crianças estarem passando muito tempo frente às telas, desde a tenra idade. Muitos adultos utilizam as tecnologias para manter as crianças “ocupadas” e “quietinhas” enquanto realizam seus afazeres, ou simplesmente para desfrutar alguns momentos de sossego depois de um dia cheio. O problema está na exposição dos pequenos a conteúdos presentes em jogos, desenhos, filmes e séries que, direta ou indiretamente, banalizam comportamentos que não são apropriados para sua faixa etária, mas que estão ao alcance de um click. A influência de muitos programas televisivos em torno da sexualidade infantil tem evidenciado uma grande tendência em caracterizar o estereótipo feminino e  masculino. A violência difunde-se como parâmetro básico para a masculinidade, e a supervalorização da beleza (maquiagem, unhas pintadas, busca por uma aparência mais velha) e apelo corporal tornam-se foco da feminilidade. 

Além disso, muitas das atrações assistidas pelo público infantojuvenil são voltadas para o público adulto, trazendo mulheres desnudas, em poses e danças sexuais que, aos olhos infantis, estão possivelmente sujeitas a ser imitadas/reproduzidas sem que haja ferramentas psicológicas para tanto. Isso pode acarretar mudanças que influenciam o modo de a criança pensar, falar e agir. Isso sem mencionar os conteúdos que incitam condutas de uma vida promíscua, com variadas sugestões deturpadas sobre a identidade de gênero que conduzem a um futuro autodestrutivo.  

Por esse prisma, tratar com normalidade e imparcialidade a exposição dos pequenos a esses conteúdos com elevado grau de apelo sexual e, estimulá-los à reprodução de condutas sensuais e erotizadas por meio de danças, vestuário, comportamento e vocabulário do universo adulto,
é muito grave e alimenta a ênfase do estímulo à pedofilia autorizada pela mídia. É lamentável ver que muitos pais, amigos e familiares estão roubando a infância de seu bem mais precioso, e seguem com suas condutas abusivas como se não houvesse consequências.

Infância roubada 

Segundo a pesquisa TIC Kids On-line Brasil, lançada em agosto de 2022 pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 78% das crianças e dos adolescentes que têm internet acessam redes sociais, sendo que o Instagram e o TikTok estão entre as plataformas mais visitadas pelo público. O estudo revelou também que atividades multimídias como ouvir música (80%), assistir a vídeos, programas, filmes ou séries (84%) seguem entre as mais realizadas pela população analisada. O problema é que na maioria das vezes esse acesso não está sendo monitorado pelos adultos responsáveis, deixando as crianças e os adolescentes à mercê de conteúdos e propagandas imorais e erotizados.

A infância deveria ser uma fase em que a prioridade deveria estar pautada nas descobertas por meio de brincadeiras lúdicas e interação social com familiares e outras crianças, e tudo isso em um ambiente acolhedor e repleto de afeto em que a criança se sinta protegida e feliz. Uma rotina saudável e pura abre as janelas do cérebro e otimiza o caminho para seu desenvolvimento pleno. De imediato, o maior impacto da erotização infantil é observado no aprendizado. Estudos indicam que a erotização precoce pode   minar o interesse e o desempenho da criança nos estudos, prejudicando sua habilidade de refletir e se concentrar. O excesso de estímulos sensuais e/ou sexuais impede a criança de vivenciar experiências lúdicas fundamentais para o progresso da imaginação e formação no convívio afetivo com outras crianças, além de atrapalhar o processo de desenvolvimento do próprio eu, podendo haver uma deturpação na forma como a criança compreende a si mesma. Nessa ótica, verifica-se a preocupação de que a atual imersão da criança no mundo adulto conceba a possibilidade de uma infância adultizada e erotizada, modificando especialmente a construção de sua identidade de gênero e sexual.

 A exposição a conteúdos impróprios, às vezes por falta de cuidado dos pais, ou inclusive por incentivo deles, aguça a curiosidade da criança justamente porque ela ainda não compreende o que está vendo ou ouvindo. Uma cena erótica passando na televisão, sons, imagens, tudo isso chama a atenção dela e desperta suas estruturas mnêmicas (relativas à memória) e intelectuais.

Prejuízos da puberdade precoce

A puberdade é a fase em que ocorre o amadurecimento do corpo para se preparar para a procriação. Nesse período, é comum o aparecimento das mamas, a evolução dos testículos, o surgimento de pelos na região pubiana e nas axilas, a elevação da oleosidade da pele, acne, mudança de voz nos meninos e primeira menstruação nas meninas. Ao ler essa lista de sintomas, logo vem à cabeça a imagem de um adolescente, porém cada vez mais frequentemente esses sinais têm feito parte da vida de uma turminha bem mais nova. 

Considera-se precoce a puberdade que surge antes dos oito anos em meninas e dos nove anos em meninos, sendo que nelas é de cinco a dez vezes mais comum. Embora o estresse, a obesidade e a herança genética estejam entre os principais fatores promotores desse fenômeno, os endocrinologistas alertam para o crescente impacto dos estímulos sexualizados recebidos.  

Numa idade em que o comum é a interação com outras crianças, as que entram na puberdade cedo demais podem se sentir rejeitadas. As meninas que menstruam muito cedo, por exemplo, passam a evitar ir ao banheiro com as colegas com medo de que descubram. Ser diferente nessa idade promove sofrimento emocional. Geralmente, esse cenário é acompanhado de transtornos psicológicos e emocionais ligados à mudanças de comportamento provocadas por alterações hormonais, constrangimentos na escola ou na rua por causa das modificações físicas e a falta de sintonia entre o amadurecimento físico e  emocional. Para piorar o quadro, os pais costumam ter muita dificuldade para lidar com o problema. Por isso, o acompanhamento de um psicólogo pode ser interessante.

Além da questão emocional, as crianças que iniciam a puberdade precocemente correm o risco de apresentar alterações no crescimento, especialmente a diminuição da estatura final, e apresentam maiores chances de sofrer com hipertensão, diabetes do tipo 2, obesidade, infarto e acidente vascular cerebral (AVC), risco de câncer em virtude da exposição precoce ao hormônio estrógeno nas meninas, além do maior risco de abuso sexual.

É muito importante os pais e responsáveis estarem atentos ao desenvolvimento das crianças para que possam intervir, caso percebam indícios de uma puberdade precoce. Existem tratamentos medicamentosos que podem “frear” o desenvolvimento prematuro do corpo, cuja expectativa visa retardar a puberdade até o mais próximo possível dos doze anos de idade. Para tanto, um médico especialista deve ser consultado.

Dicas para proteger a infância

Sinais de alerta

Pode ser que alguns pais já tenham percebido comportamentos atípicos
de seus filhos e estejam inseguros em relação aos conteúdos ou às situações que a criança já possa ter vivido. A base deve ser sempre o diálogo com os pais, mas alguns comportamentos podem ser sinais de alerta de que está na hora
de procurar a ajuda de um profissional:

Como enfrentar essa fase
na era digital

Antes de tudo, lembre-se de pedir sabedoria a Deus para lidar com esse cenário. A formação do caráter é a obra mais importante que já foi confiada a seres humanos; e nunca no passado seu cuidadoso estudo foi tão importante como hoje. Jamais qualquer geração prévia teve de enfrentar desafios tão significativos; nunca antes crianças e jovens foram confrontados por perigos tão grandes como hoje (adaptado de Ellen G. White, Educação [CPB, 2021], p. 159).

É importante se conscientizar sobre o tema para ensinar às crianças e aos adolescentes sobre autoproteção. Uma ótima forma de ajudar a combater a erotização infantil é manter diálogo sempre aberto, evitar atitudes que incentivem a adultização e sensualização, além de monitorar de perto o conteúdo que as crianças consomem nas mídias e na internet. É ficando alerta que você protege e preserva crianças e adolescentes do assédio das tecnologias digitais.

 Incentive e oportunize atividades ao ar livre, jogos de tabuleiro e a prática de esportes para minimizar o tempo que passam em frente às telas, e assim você poderá aumentar as chances de seu bem mais precioso ter a infância preservada e desfrutada da melhor maneira possível, para que se torne um adulto pleno, saudável e feliz.  

Liziane Nunes Conrad Costa
Bióloga, Mestre em Biociências e Saúde 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *