quarta-feira, 24 julho

As prescrições verdes para a infância são recomendações dadas pelos médicos como complemento às terapias convencionais, e que instruem os pais de crianças e adolescentes a expô-los a determinado tempo em contato com a natureza, em espaços verdes ou azuis, quer seja por meio de caminhadas regulares nos parques, passeios no campo, experiências em hortas comunitárias, imersão e observação de ambientes aquáticos, contato pessoal com animais ou qualquer outra atividade realizada ao ar livre, em meio ao mundo natural. 

Existem cada vez mais evidências dos benefícios do contato direto com a natureza sobre a saúde física e mental do ser humano. A Organização Mundial da Saúde (OMS),1 por exemplo, descreve a natureza como “nossa maior fonte de saúde e bem-estar”.

Atualmente, sabe-se que brincar em espaços azuis na infância – como mar, lagos, rios ou cachoeiras – tem impacto sobre a pessoa a ponto de melhorar seu bem-estar e sua saúde mental, até mesmo na idade adulta, o que reforça a importância de se manter contato com a natureza desde pequeno. 

A conclusão é de um estudo recém-publicado no Journal of Environmental Psychology,2 realizado por pesquisadores da Universidade de Exeter, após analisar dados de 18 países. O ineditismo desse estudo está no fato de ter sido um dos primeiros a investigar o impacto de ambientes com água, e demonstrou a importância desse contato desde a infância. 

Estudos anteriores já haviam investigado os benefícios do contato direto com espaços verdes (como parques, bosques e jardins) para a saúde de adultos. Em 1984, estudo publicado na revista Science3 analisou grupos de pacientes internados e comparou a recuperação entre aqueles que estavam em quartos com vista para áreas verdes com quem estava em quartos voltados para um muro de tijolos. Os resultados mostraram que aqueles que tinham vista para a natureza solicitavam menos analgésicos e ficaram menos tempo internados em comparação aos demais. 

Mas, a dúvida que surge é: “Quanto tempo devo expor meu filho à natureza?” Para responder a essa pergunta, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) lançou recentemente um manual sobre o assunto, recomendando ao menos uma hora diária de convivência em parques, praças e outras áreas verdes. O documento também traz orientações aos pais a respeito da importância do exemplo dos adultos 

pelo apreço ao meio ambiente, além da responsabilidade do poder público sobre a temática. 

Para aprofundar ainda mais esse tema tão interessante, Vida e Saúde foi atrás de uma especialista sobre o impacto que a natureza exerce sobre a saúde e o bem-estar humanos. Conversamos com Eliseth Leão, pesquisadora sênior do Centro de Pesquisa Albert Einstein, líder do grupo de pesquisa interdisciplinar “e-Natureza – Estudos sobre Conexão com a Natureza, Sáude e Bem-Estar (CNPq)”. Ela também é fotógrafa de vida selvagem. 

Conte-nos brevemente o que a levou, como pesquisadora, a investigar a influência da natureza no bem-estar e na saúde humana.

Foi uma soma de fatores. Sempre fui apaixonada pela natureza e pelos animais, desde a minha infância, mesmo nascendo e morando a vida toda na cidade de São Paulo. Então, eu já tinha uma experiência muito positiva da natureza no meu próprio bem-estar. Minhas memórias de infância são repletas das inúmeras visitas ao Parque Estadual da Água Branca, com meus pais, nos fins de semana, e de férias no litoral sul de São Paulo. Comecei a fotografar cedo, e já fotografava natureza, mas não tinha consciência disso. Há alguns anos retomei a fotografia de vida selvagem e me tornei, oficialmente, uma observadora de aves (já que sempre fui apaixonada por passarinhos). Daí foi um caminho bem orgânico incluir a investigação sobre como a conexão com a natureza pode auxiliar na saúde e no bem-estar em contextos clínicos, no ambiente hospitalar, e também explorar possibilidades de promoção de saúde para a população geral. Foi uma forma também de conciliar minhas paixões com o meu trabalho. 

Estudos recém-publicados mostram que o contato infantil direto com espaços verdes (parques, bosques, jardins) gera benefícios para a saúde das crianças. Diante disso, quais seriam as mudanças fisiológicas que ocorrem quando elas entram em contato com áreas verdes? 

Quando as crianças entram em contato com espaços verdes, há um crescimento no seu desenvolvimento. Há um aumento da atividade física, da criatividade, da coordenação motora e da função cognitiva. Há alterações benéficas no funcionamento o sistema nervoso (em comparação com o ambiente urbano/construído), que resultam em níveis mais baixos de cortisol (hormônio ligado ao estresse) e isso favorece um estado de relaxamento. A exposição a ambientes naturais na infância favorece a memória afetiva que repercute em melhor saúde mental na vida adulta, fortalece os vínculos não só com a natureza, mas com as pessoas nesse ambiente. 

Atualmente, existe um aumento da miopia nas crianças devido à grande exposição às telas digitais. Quando a criança está na natureza, ela tem a oportunidade de exercitar a profundidade de campo, o que é benéfico para a saúde ocular. Estudos indicam que há uma redução de déficit de atenção e de hiperatividade, pois atividades em ambientes naturais favorecem a capacidade da criança de dirigir e manter a atenção. Outros estudos indicam redução de agressividade, além de a natureza auxiliar também em quadros de sedentarismo e obesidade infantis.

Qual a importância do movimento de “desemparedamento na infância” em prol de maior contato direto com a natureza? 

“Desemparedar” a criança na infância significa possibilitar que ela possa usufruir de espaços externos e naturais. Quando você restringe a criança a um espaço fechado, ela perde a oportunidade de treinar habilidades essenciais ao seu desenvolvimento; ela se torna mais sujeita a quadros alérgicos; perde os benefícios da luz solar, da produção de vitamina D e seus benefícios para o sistema imunológico. Sem falar que crianças privadas do contato com a natureza tenderão a ter menor conexão com o meio ambiente, o que prejudicará no futuro não somente a saúde individual, mas também coletiva e do planeta. Os ambientes escolares precisam ser repensados. Há uma série de conteúdos que podem ser ensinados ao ar livre e precisam ser considerados nos projetos pedagógicos. 

Quais os mecanismos envolvidos na relação entre o contato direto com ambientes naturais na infância e o bem-estar e a saúde mental na vida adulta? 

Se a criança cria uma experiência positiva e de confiança em estar na natureza, é provável que ela leve esse comportamento (estar na natureza) para a vida adulta. Esse mecanismo é chamado de motivação intrínseca, ou seja, o desejo de fazer algo porque é prazeroso, valioso e inerentemente recompensador para a pessoa. Isso cria um ciclo virtuoso de exposição à natureza e obtenção de benefícios para a saúde, pois permite experimentar liberdade, relaxamento e prazer na experiência, que consequentemente elevam o bem-estar subjetivo. 

Qual é o papel dos ambientes naturais na regulação das emoções e no gerenciamento dos processos de estresse e depressão? 

A natureza favorece uma recuperação fisiológica do estresse pela redução da atividade do sistema nervoso simpático. Existe ainda um mecanismo de atenção não dirigida que também reduz a fadiga mental. A contemplação da beleza e a experiência estética (de prazer) que se tem em um ambiente natural promovem a liberação de neurotransmissores (substâncias que o cérebro produz), como a serotonina e as endorfinas, que promovem emoções positivas. 

De que forma o contato direto com ambientes naturais pode favorecer o desenvolvimento cognitivo das crianças? 

Os ambientes naturais oferecem uma série de estímulos que levam ao desenvolvimento de conexões entre as células cerebrais, que se traduzem em aprendizado de diversos níveis. Crianças que não brincam ao ar livre apresentam dificuldades de equilíbrio e coordenação. Andar e fazer atividades em terrenos acidentados, que muitas vezes exigem resolução de problemas, escolhas, movimentos flexíveis, estão na base desse aprendizado. Estímulos ligados à atividade física também se relacionam com o aumento de massa cinzenta no córtex pré-frontal, o que é um fator protetor de depressão, uma vez que essa área parece se relacionar com a depressão. O contato com a natureza oferece oportunidades de envolvimento em brincadeiras cooperativas, imaginativas e de faz-de-conta, ao mesmo tempo em que promove o raciocínio, a comunicação e as habilidades de interação. Partes soltas naturais (por exemplo, rochas, galhos e areia) proporcionam brincadeiras construtivas e convidam as crianças a se envolverem e modular seu ambiente. Ambientes naturais tranquilos e “refúgios verdes” permitem a restauração e regulação emocional. 

Quais os benefícios do contato (direto e não direto) com a água para a saúde e o bem-estar infantil e adulto? 

Além das atividades físicas que podem ser desenvolvidas na água, os sons também ativam o córtex pré-frontal, associado com as emoções. As ondas do oceano ou as quedas d’água contribuem para a formação de íons negativos que aceleram a capacidade de absorção de oxigênio e levam a um aumento da atividade cerebral. Ao inalar esses íons negativos, há um aumento da serotonina, que atua na regulação do humor e do sono. Quando contemplamos elementos da natureza de forma direta ou indireta, nossas emoções também são afetadas. Em estudo que fizemos para investigar um banco de mais de 400 fotografias de natureza, verificamos o quanto elas são produtoras de emoções positivas, de forma que pudemos classificá-las quanto à experiência de prazer que podem proporcionar. Identificamos também que cada elemento natural produz sentimentos diferentes. Contemplar, por exemplo, imagens de aves coloridas pode produzir alegria e fascinação pela beleza; já apreciar imagens de mar com águas transparentes e calmas resulta em uma sensação de paz e tranquilidade, o que também aumenta o bem-estar. 

Em sua opinião, qual a importância da (re) conexão com a natureza, frente a uma sociedade cada vez mais tecnológica? E quais “prescrições verdes” você daria aos pais, a fim de estimulá-los a levar os filhos para os ambientes naturais? 

A (re)conexão com a natureza é fundamental não só para a saúde, mas também para a conservação da biodiversidade e o equilíbrio dos ecossistemas. Tudo está interconectado. Somos parte da natureza. 

As mudanças climáticas vêm sendo observadas e monitoradas, e têm implicações não só para as doenças respiratórias, por causa do agravamento da poluição do ar, mas favorecem também a propagação de doenças transmitidas por vetores e outras doenças infecciosas. Eventos naturais extremos tendem a aumentar. Ondas de calor, como as que a Europa viveu no início dos anos 2000, é responsável por muitas mortes, e além de aumentarem o risco de incêndios florestais, prejudicam a saúde humana. Algumas regiões do país têm o fenômeno da seca mais agravado, o que impacta a saúde das populações mais vulneráveis, desde o risco alimentar e a desnutrição por baixa quantidade e qualidade dos alimentos, até doenças respiratórias agudas e crônicas por baixa qualidade do ar. A desconexão com a natureza está no cerne de todas essas questões e precisa ser combatida. 

A sociedade precisa ser educada para que haja um engajamento nesse sentido, pois só cuidamos do que amamos e só amamos o que conhecemos. As crianças, contrariando as recomendações pediátricas, têm sido expostas cada vez mais cedo às telas, 

e isso implica em prejuízos imediatos e futuros, ao afastá-las das atividades nos ambientes naturais. A conexão pressupõe um senso de identidade com o mundo natural; um sentimento de pertencimento. O desafio está em construir esse equilíbrio entre o avanço tecnológico/digital e a não destruição da natureza, se queremos preservar a saúde e o bem-estar de todos e das gerações futuras. 

A literatura aponta que o melhor preditor para uma criança conectada com a natureza é um adulto conectado à natureza, pois as crianças dependem dos adultos para o acesso aos ambientes naturais. Há uma ênfase na discussão sobre o impacto da natureza em crianças. Entretanto, pouco se tem explorado o tema na população adulta, quer seja de pais, avós (pensando no quanto a experiência intergeracional é importante no desenvolvimento infantil) e educadores, nesse contexto. 

A recomendação é começar dentro de casa, nas praças e espaços verdes mais próximos e ir galgando espaços cada vez mais preservados, como Unidades de Conservação que requerem mais tempo e recursos para visitá-las. Doses diárias de natureza já podem trazer benefícios. Assistir a documentários de natureza e ler livros que descortinem o universo natural pode ser o primeiro passo. No Programa Cientistas do Amanhã do Einstein, que envolve jovens adolescentes de Paraisópolis, temos apoiado o protagonismo desses jovens que atuam como embaixadores do “e-Natureza” em busca de soluções para melhor relacionamento entre os seres humanos e a natureza. Isso demonstra que oferecer conhecimento qualificado é essencial para esse engajamento. No site do nosso projeto “Um tempo com e-Natureza” (www.enatureza.com), apresentamos evidências científicas e dicas de atividades para todas as idades. 

de prescrição de remédios industrializados por parte da comunidade médica. Frente a isso, como os médicos têm recebido a proposta de “prescrições verdes”? E quanto às políticas públicas? 

Intervenções de saúde com base na natureza não substituem nenhum tratamento médico. A temática “natureza e saúde” tem sido incluída em cursos de pós-graduação, sendo bem recebida por todos os profissionais de saúde, incluindo médicos, pois não se trata de sair por aí “abraçando árvores”, mas, sim, de disponibilizar as melhores evidências científicas que desvelam os mecanismos pelos quais essas intervenções atuam em favor da saúde humana. 

Mas esse é um tema necessário a todos os níveis de educação, pois somente uma população detentora desse conhecimento poderá exigir e contribuir para a elaboração de políticas públicas que, ao reunir as áreas da saúde e do meio ambiente, considerem acesso, acessibilidade e equidade, planejamento urbano, conservação, segurança, incentivo à pesquisa, aspectos fundamentais, dentre outros, para que tenhamos políticas transformadoras e inclusivas. 

Manter (e em muitos casos aumentar) a quantidade e a qualidade dos espaços verdes diante da crescente urbanização é um desafio global premente, reconhecido nos objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU). Isso não é um trabalho para poucos, por isso precisamos de todo mundo! 

Everton Fernando Alves Enfermeiro, biólogo e mestre em ciências (Imunogenética) pela UEM 

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