sexta-feira, 03 dezembro

Matéria recheada de informações e dicas de uma nutricionista sobre o doce preferido dos brasileiros Liziane Conrad Costa

Geralmente o consumo de chocolate é mais intenso no período da Páscoa, mas estudos revelam que o doce está presente na dieta do brasileiro o ano inteiro, especialmente agora na pandemia. Pesquisas ressaltam que a pandemia causada pelo novo coronavírus tem contribuído grandemente para o aumento do estresse e da ansiedade. Boa parte das pessoas, quando está no pico da “inquietação”, procura obter alívio por meio do consumo de doces, especialmente de chocolate. A verdade é que a nova rotina de trabalho na modalidade home office tem gerado aumento no consumo de chocolate, especialmente entre jovens e mulheres.

Nesta matéria, reunimos uma série de curiosidades sobre o chocolate, incluindo a origem de seu consumo, o aumento do consumo durante a pandemia, e como o doce preferido do brasileiro afeta o organismo.

OS PRIMEIROS CHOCÓLATRAS

Você já deve ter perguntado a si mesmo de onde surgiu o consumo do chocolate ou quem foram seus “descobridores”. Pesquisas apontam que a origem do chocolate remonta à região amazônica na América do Sul e às florestas úmidas da América Central. Admite-se que os povos astecas e maias foram os primeiros consumidores conhecidos. Eles coletavam sementes de cacau (Theobroma cacao) e faziam uma infusão que acreditavam ser um poderoso afrodisíaco chamado “chocolate” (líquido quente). A bebida, considerada sagrada, era amarga e geralmente preparada com baunilha e pimenta. Após o domínio espanhol sobre esse povo, o cacau foi introduzido em toda a Europa.

CONQUISTANDO TERRAS BRASILEIRAS

No Brasil, as sementes de cacau chegaram em 1746 trazidas por um francês que as deu a um fazendeiro do sul da Bahia. O clima favoreceu o plantio e as lavouras cacaueiras prosperaram na região, que ficou conhecida pelos “coronéis do cacau”. Desde 1989, com o aparecimento da doença chamada “vassoura-debruxa”, na Bahia, o país reduziu significativamente sua produção. Hoje o estado que lidera a produção da amêndoa é o Pará, responsável por 53% da produção do cacau no País.

Fica evidente que os hábitos de consumo do chocolate também variam dependendo da classe social. Nas mais altas, o consumo é maior no inverno e as versões ao leite e amargo são as favoritas. Já nas classes mais baixas, o chocolate é lembrado como opção de presente em datas comemorativas e a preferência é pela versão branca. Em relação à comercialização, a criatividade não tem limites. Pode ser em forma de bombons, gotas, barras, personagens de desenho e outras versões mais peculiares, como ovos e língua de gato.

Além disso, os fabricantes têm aprimorado os chocolates tradicionais ao agregar diversos ingredientes para recheios, como amendoim, amêndoa, avelã, castanha-do-pará, nozes, castanha-de-caju, frutas secas, caramelo, etc. Depois de toda essa descrição, é difícil quem não fi que com água na boca, não é mesmo? Essa paixão toda é explicada pela ciência, e o sabor não é a única razão para tanto desejo. Segundo especialistas, o segredo está na composição. Nenhum tipo de chocolate está livre de açúcar, gordura e estimulantes (como a cafeína). Essas substâncias podem ser responsáveis pelo intenso “gostinho de quero mais”.

O CHOCOLATE E A PANDEMIA

Todo esse cenário de incertezas, mais tempo em casa e teletrabalho fazem com que o chocolate assuma o papel de “paliativo emocional”. A combinação de doçura, cremosidade e sabor singular promove satisfação e conforto quando ingerido. Outros fatores como superfície brilhante, aroma e o som da barra sendo partida geram expectativa e antecipam o prazer. O projeto ConVid – Pesquisa de Comportamento, feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), entrevistou 44.062 brasileiros, entre abril e maio de 2020, e o resultado revelou um aumento de 7% entre mulheres e 5% entre os homens em relação ao consumo de chocolate antes da pandemia, ao passo que o consumo de alimentos saudáveis, como frutas, legumes e feijão, diminuiu ligeiramente no período. Segundo estudo da Associação Brasileira da In-dústria de Chocolates, Amendoim e Balas (Abicab), realizado pelo Instituto Kantar, 82,6% dos lares brasileiros compraram chocolate em 2020, 1,5% mais do que em 2019. Durante o primeiro trimestre de 2021, a produção de chocolates ficou em 189 mil toneladas, aumento de 23% em relação ao mesmo período de 2020, segundo levantamento de dados da Abicab coletados e consolidados pela KPMG. Diante desses dados, resta a pergunta: Esse aumento no consumo de chocolate pode implicar em prejuízos à saúde? Veja abaixo os principais efeitos desse alimento no organismo. Conhecido por muitos como o grande vilão das dietas, algumas pessoas não resistem ao ver o doce nas prateleiras do mercado, e após consumi-lo sentem grande peso na consciência. A grande pergunta

é: O que de fato acontece no organismo ao se comer chocolate? A nutricionista Alleyane Mazzo Espinola (CRN 8642), especialista em Nutrição Humana e Saúde e Nutrição Esportiva, ressalta que, para compreender os efeitos desse produto no organismo, é necessário primeiro ter conhecimento sobre seus componentes.

AFINAL, CHOCOLATE É FEITO DE QUÊ?

Que o chocolate é produzido a partir das sementes do cacau que são naturalmente amargas, todo mundo sabe. Mas o que acontece

para que ele chegue às prateleiras com um sabor irresistível? Tradicionalmente, as sementes passam por um processo de fermentação; posteriormente, secagem, limpeza e torrefação; depois são extraídos a manteiga de cacau e seus sólidos. A esses extratos podem ser adicionados outros produtos como açúcar, leite em pó, leite condensado, gorduras substitutas, agentes umectantes, emulsificantes, aromatizantes e edulcorantes. Segundo a nutricionista, o que origina os diferentes tipos de chocolates é justamente a dosagem desses ingredientes:

Chocolate branco – De coloração clara e sabor mais adocicado que os demais, deveria possuir man-teiga de cacau em sua composição, mas geralmente é fabricado com gordura hidrogenada, além de açúcar e leite.

Chocolate ao leite – O queridinho do brasileiro tem em sua composição entre 20 e 40% de cacau, além de açúcar e leite.

Chocolate meio amargo – Contém de 40 a 59% de cacau, pouca quantidade de manteiga de cacau e açúcar.

Chocolate negro ou amargo – Constituído por maior teor de cacau, de 60 a 85%, menor percentual de açúcar, leite e gordura, é de sabor amargo e coloração bem escura. “O cacau é composto de substâncias nitrogenadas como as metilxantinas, as quais atuam como estimulantes do Sistema Nervoso Central (SNC), diuréticos e relaxantes musculares. O cacau também é altamente rico em flavonoides, epicatequinas, catequinas e procianidinas, polifenóis com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e vasodilatadoras importantes”, informa a especialista.

CONHECENDO O VILÃO

De acordo com Alleyane, fica evidente que o consumo excessivo de chocolate pode trazer sérios problemas à saúde. Ainda, segundo ela, ilude-se quem pensa que oschocolates com elevada concentração de cacau estão livres de malefícios. Alleyane alerta que o tipo mais prejudicial à saúde é o branco, devido ao elevado teor de gordura hidrogenada em sua composição. Além disso, seu valor calórico é elevado, o que o torna um vilão para quem está acima do peso e precisa emagrecer. Os malefícios vão desde a temida obesidade, hipertensão, hipercolesterolemia, o diabetes tipo 2, doenças coronarianas, até o agravamento de certos tipos de câncer. Por outro lado, chocolates com maior teor de cacau, vistos como opções mais saudáveis, são ricos em metilxantinas, que podem prejudicar o SNC e os ossos, superando os benefícios dos flavonoides (SEEM et. al., 2019). Existem muitas substâncias químicas no chocolate que nos afetam e estão intimamente relacionadas com as indagações sobre o benefício ou malefício desse alimento. Dentre elas, destacamos a feniletilamina, o ácido oxálico e metilxantinas, que serão analisadas a seguir:

Feniletilamina (PEA) – É responsável pela liberação de dopamina no cérebro, gerando a maravilhosa sensação de felicidade e bem-estar. O problema é que, quando em excesso no organismo, causa enxaqueca.

Ácido oxálico – Reage com os metais essenciais, como ferro e cálcio, e impede que eles nutram o corpo. Quando forma o oxalato de cálcio, pode crescer na forma de dolorosas pedras nos rins. Metilxantinas – São psicoestimulantes presentes no cacau; atuam como estimulantes do SNC, diuréticos e relaxantes musculares. As principais metilxantinas presentes no cacau são a cafeína (em quantidades menores) e a teobromina, conhecida por sua ação benéfica ao coração (GAMMONE et. al., 2018). Apesar disso, essas substâncias, quando consumidas em excesso, podem prejudicar a qualidade do sono, promover crise de enxaqueca (favorecida pela vaso- dilatação dos flavonoides), aumentar o nível de ansiedade, além de serem tidas como responsáveis pelo comportamento compulsivo e adicto ao chocolate. Além disso, um estudo recente postula que elevadas quantidades de metilxantinas refletem em uma ação prejudicial à saúde óssea (SEEM et al., 2019).

QUANTIDADE DE METILXANTINAS NO CHOCOLATE

Pesquisadores apontam que quanto maior o teor de cacau, maior o teor de metilxantinas, em especial para a versão em pó do produto. Por isso, estudos relatam que alimntos ricos em cacau devem ser consumidos junto ou imediatamente após a refeição, pois acabam tendo boa parte das metilxantinas eliminadas (Seem et al., 2019). Portanto, mesmo o consumo do cacau deve ser moderado. Essas informações nos permitem inferir que o aumento no consumo de chocolate pelos brasileiros durante a pandemia pode implicar uma série de malefícios à saúde. Se você é um chocólatra e sente dificuldade de controlar a compulsão pelo consumo desse ou de outros doces, fique atento às dicas que separamos para ajudar você a superar esse vício.

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