quarta-feira, 27 outubro

A preocupação agora é com a pandemia de saúde mental Carol Felix

pandemia estava bem no início. O comércio, as empresas e escolas haviam sido fechados. A orientação era evitar sair de casa. A verdade é que ninguém sabia ao certo quanto tempo duraria o isolamento social, nem mesmo imaginava seu impacto para a saúde mental. Mas os dias se tornaram semanas, semanas meses e aos poucos fomos sentindo os efeitos emocionais de fazer da casa o ambiente de trabalho, estudo e único local para entretenimento.

Assim como ocorreu com milhares de brasileiros, essa foi a realidade da professora Flávia Lamarques da Silva, de São José dos Pinhais, PR. Mãe da Emanuella de oito anos, Flávia se viu obrigada a ministrar aulas de forma remota, além de auxiliar a filha em suas próprias atividades escolares. Ela conta que revezava o único computador da casa com a filha. “Nossos horários não batiam, tinha que dar aulas e ela precisava assistir às explicações das matérias. Foi muito complicado”, relata.

Como se não bastasse, o esposo, que é autônomo, ficou impossibilitado de trabalhar. Permaneceu em casa com o sentimento de insegurança por não conseguir garantir o sustento da família naquele momento. Ela conta que, na tentativa de administrar as tarefas domésticas, a maternidade e as demandas profissionais, somadas à insegurança quanto à saúde financeira da família, entrou em um ciclo de desorganização mental e ansiedade. “Ficava acordada até tarde ajustando as demandas do trabalho e acordava cedo para dar conta da casa e da filha. Quando me dei conta, estava chorando no chão do meu quarto”, desabafa.

Pesquisa científica

Por ser esse um cenário de escala mundial, viu-se a necessidade de compreender sua repercussão a fim de encontrar soluções que amenizassem os impactos psíquicos na população durante a pandemia. Pesquisadores do Instituto de Neurociência Cognitiva da Universidade Hubei, na China, desenvolveram um estudo sobre as respostas psicológicas diante do isolamento social imposto como medida sanitária para reduzir o contágio do coronavírus. Mais de 1.200 pessoas foram entrevistadas em 194 cidades chinesas. A interpretação dos dados coletados entre janeiro e fevereiro de 2020 serviu como base para projetar os impactos psicológicos do isolamento em todo o mundo. Essa prospecção é chamada de a Quarta Onda da Covid-19, uma métrica das respostas psicológicas adversas diante do impacto e da evolução da pandemia no dia a dia.

Desde a identificação do novo coronavírus, passando pelo primeiro caso confirmado e morte anunciados até o fechamento da cidade de Wuhan, capital da província da China onde ocorreu o primeiro diagnóstico de Covid-19 no mundo, projeções foram criadas para entender o movimento do vírus e seu impacto populacional. A primeira onda seria a chegada do vírus, seguida de outras duas relacionadas ao contágio, o agravamento de casos de doenças crônicas e de outras doenças não monitoradas por conta do isolamento; acompanhando essa métrica está o aumento das demandas emocionais, potencializadas por este cenário de crise mundial. Mesmo que a projeção mire o crescimento dos problemas psicológicos para um futuro próximo, atualmente já é possível identificar o estrago psíquico causado pela pandemia.

Em depoimento oficial,* Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), destacou a saúde mental como fator essencial. “Agora está claro que as necessidades de saúde mental devem ser tratadas como um elemento central de nossa resposta e recuperação da pandemia de Covid-19”, reforça. Em reconhecimento aos impactos emocionais da pandemia, Tedros faz um alerta quanto às consequências futuras. Para ele, “essa é uma responsabilidade coletiva dos governos e da sociedade civil, com o apoio de todo o sistema das Nações Unidas. Uma falha em levar o bem-estar emocional das pessoas a sério levará a custos sociais e econômicos a longo prazo para a sociedade”, enfatiza.

É certo que cada país irá sentir o impacto dessa curva à sua maneira, levando em conta seu histórico de saúde mental. O Brasil, antes mesmo do início da pandemia, já assumia o terceiro lugar no ranking mundial da ansiedade, o que torna a conversão desse dado ainda mais alarmante, explica o doutor em Ciências Médicas pela Unicamp Diego Alexandre Rozendo, pesquisador na área da Saúde Mental. “Dados da OMS apresentados desde 2015 apontam que, no Brasil, mais de 9% da população brasileira sofrem com ansiedade. Isso corresponde a três vezes mais do que a média mundial para esse tipo de transtorno”, explica. Ele reforça que nesses casos as características socioeconômicas precisam ser levadas em consideração. “O Brasil é conhecido como o país do futebol, da alegria, nação amistosa, de muitos relacionamentos, mas também permeada de muita violência, muita disparidade socioeconômica, pobreza, traumas na infância. Uma população com estado de muita vulnerabilidade.”

E é nesse cenário de fragilidade que a ansiedade ganha força, transitando entre um sintoma ansioso: que está relacionado a sentimento de medo, apreensão, antecipação do perigo, características inerentes a todo indivíduo, para um transtorno de ansiedade; nesse caso, um quadro psiquiátrico que potencializa o medo acima dos estímulos ambientais, medos exagerados ou irracionais. Se não tratados, os transtornos passam a desencadear manifestações físicas, psicossomáticas. As pessoas monitoradas durante a pesquisa realizada em 2019, no auge da pandemia na China, apresentaram alguns sintomas físicos inerentes à condição psíquica. Calafrios, mialgia, tosse, tontura, coriza, dor de garganta foram sintomas associados à ansiedade e à depressão.

Estabilidade emocional Diante desse importante quadro psíquico, é preciso encontrar soluções para chegar ao equilíbrio. Para a psicanalista e psicóloga clínica Fernanda Assis Carvalho, admitir essa necessidade é o primeiro passo para a melhora. “Para estabilizar a saúde mental é necessário o reconhecimento da importância dela; sem essa consciência, é muito difícil ter um resultado positivo. Vale ressaltar que ter saúde mental não é estar isento de problemas, nem mesmo ter apenas momentos bons. Saúde mental é ter a capacidade de administrar esses problemas da melhor maneira possível”, reforça a profissional, que também é especialista em psicofarmacologia dos transtornos mentais. Ela afirma que ainda existem muitos estigmas quando o tema é saúde mental.

Negar a recorrência desses transtornos nos afasta das soluções. Você recorda que logo no início desta reportagem mencionamos os desafios da Flávia, uma professora que vivenciou sua primeira crise de ansiedade no auge da pandemia? Não poderíamos finalizar essa história sem contar como ela enfrentou os desafios. Pois é, ela passou por cima dos preconceitos e foi em busca de ajuda psicológica. “A cada consulta, realizada regularmente de maneira remota, fui aprendendo a lidar com minhas emoções, saber distinguir quando estava ansiosa. Parar, reorganizar as ideias e a rotina. No fim do an

o passado, apesar das correrias que sempre acontecem, terminei o ano tranquila, sem estresse, sem precisar ficar até tarde na frente do computador”, conta ; mas reforça que a terapia não tirou dela toda a ansiedade, mas lhe forneceu ferramentas para manejo psíquico. “Não quer dizer que eu não tive alguns momentos de angústia, ansiedade à flor da pele… Mas, com o acompanhamento da psicóloga, aprendi a controlar essas emoções e não deixar que elas me controlassem. Ainda estou em tratamento, mas posso dizer que, se não fosse a psicoterapia, não chegaria bem até aqui”, confessa. Dentre todos os desafios que nos esperam para as próximas décadas, especialistas destacam a construção psíquica das crianças. Há mais de um ano restritos em suas casas e apartamentos, sem contato frequente com outras crianças, os pequenos podem sofrer alterações no modelo de comportamento mental, no futuro. “As crianças naturalmente precisam da

interação social, dependem do contato com outras crianças, do brincar; as experiências lúdicas são tudo para a construção psíquica delas. Por isso a gente ainda não consegue mensurar a afetação dessa pandemia principalmente na mente e no comportamento das nossas crianças, que serão os futuros jovens e cidadãos deste mundo”, finaliza o Dr. Rozendo.

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