quarta-feira, 29 maio

A obesidade é um dos mais preocupantes problemas de saúde do mundo. Doença epidêmica, multifatorial, crônica, de alto risco, dispendiosa, e que afeta milhões de pessoas, sem respeitar etnia, idade, sexo, condição financeira nem fronteiras. O aumento de sua prevalência e incidência causa preocupação nos pesquisadores e profissionais da área de saúde. 

A alimentação não serve somente para atender às demandas biológicas, mas também às culturais, simbólicas e sociais. Nos relacionamentos sociais acontece de igual modo; é normal agraciar as visitas com lanches ou jantares. Alegria ou tristeza é pretexto para comer. Assim, o fácil acesso a alimentos saborosos, com alto teor de gordura e a inexistência ou a redução da atividade física são fatores que propiciam o aumento de peso. 

O crescimento da incidência de obesidade se deve especialmente ao consumo de alimentos ricos em açúcares e gorduras, redução do consumo de fibras, sedentarismo e ao estilo de vida. Nossa cultura capitalista e consumista dispõe de estímulos que incentivam o consumo exagerado de alimentos supérfluos, como chocolates, biscoitos, salgadinhos, refrigerantes e sanduíches. 

Nos últimos anos, é possível verificar nos países industrializados uma mudança de hábitos das pessoas, configurando o chamado estilo de vida ocidental contemporâneo e que tem favorecido a obesidade. 

Influências históricas e ecológicas 

O avanço da obesidade no mundo se correlaciona com mudanças sociais, demográficas, econômicas e relacionadas à saúde resultantes do processo de modernização mundial. 

A modernização das sociedades estabeleceu a reorganização do contexto de vida do ser humano contemporâneo e fez surgir um novo modo de vida, em que a oferta e o consumo de alimentos aumentaram notadamente e todo tipo de gênero tornou-se acessível, em especial devido ao desenvolvimento da tecnologia alimentar. 

O mundo tem passado por uma sucessão de transformações nas últimas décadas, entre as quais os fenômenos da globalização e da urbanização. Essas mudanças influenciam a qualidade dos alimentos produzidos e industrializados. O consumo voltado para os alimentos condizentes com o novo estilo de vida é menos satisfatório do ponto de vista nutricional do que no padrão anterior. 

Comensalidade contemporânea 

As tendências de transição nutricional ocorridas neste século em diferentes países acompanham a falta de informação apropriada e a urbanização, levando, assim, a erros alimentares e convergindo para a dieta ocidental. Essa dieta caracteriza-se pelo uso elevado de alimentos industrializados, alimentos refinados, com altas taxas de açúcares, gorduras saturadas e trans, e pelo consumo reduzido em fibras e carboidratos complexos. 

Outro aspecto associado ao aumento da obesidade é a excessiva comercialização de variedades de alimentos ricos em gorduras e energias, como refrigerantes e snacks. Em contrapartida, alimentos como frutas, verduras e hortaliças, com menor densidade energética, estão cada vez menos presentes na dieta da população em geral. 

Como se pode notar, o consumo alimentar tem sido relacionado não apenas à composição e à qualidade da dieta, mas também ao volume da ingestão alimentar. 

Hábitos nutricionais 

  Ao focalizar a obesidade pelos aspectos relacionados à alteração na dieta, cabe destacar que o aumento da ingestão energética pode ser resultante tanto das alterações na dieta que se caracterizam pela ingestão de alimentos com maior densidade energética, quanto da elevação quantitativa do consumo de alimentos, ou pela combinação dos dois. O processo de industrialização de alimentos tem sido apontado como um dos principais responsáveis pelo aumento energético da dieta da maior parte das populações ocidentais. 

Em muitos países, observa-se que o processo de modernização e a transição econômica têm promovido mudanças nas indústrias produtoras de alimentos, colaborando, assim, com o consumo de dietas ricas em gorduras e proteínas e baixa em carboidratos complexos. Na atualidade, existe maior quantidade de alimentos disponíveis, ao mesmo tempo em que a demanda energética da vida moderna tem diminuído. 

No atual cenário, até mesmo o tradicional arroz com feijão vem perdendo espaço na mesa dos brasileiros. O Brasil e outros países vêm americanizando seus hábitos. Algumas pesquisas do Ministério da Saúde constataram uma queda no consumo desses dois alimentos ao longo dos anos. Assim, houve uma elevação no consumo de alimentos altamente calóricos, como frituras e industrializados. 

Outros fatores que contribuem para a elevação de peso são a alimentação fora de casa e o aumento na oferta de fast-food. O principal fenômeno de consumo no mundo atual é o fast-food. Os alimentos como sanduíches e refrigerantes ganham preferência quando o mais importante é a rapidez e a praticidade. 

 

Comer fora de casa 

No Brasil, o ato de comer fora de casa encontra-se associado a transformações na agricultura, nos transportes, nos serviços de entrega de comida pronta, no crescimento urbano, na expansão industrial e na inserção da mão de obra feminina no mercado de trabalho. 

Diversos fatores, como o tempo de deslocamento devido ao trânsito e o próprio ritmo das grandes cidades, têm dificultado a realização das refeições no domicílio. Tanto a mulher quanto a família não são mais o elemento chave de tomada de decisão em termos de consumo alimentar na maioria das situações, uma vez que as refeições são feitas fora de casa. 

A urbanização promoveu o hábito de as pessoas se alimentarem fora de casa, e com isso a dieta sofreu modificações, proporcionando o crescimento dos serviços de fast-food e da demanda por produtos prontos. 

O aumento da obesidade pode ser explicado pelo fato de que as pessoas, quando fazem suas refeições fora de casa, escolhem alimentos com elevada concentração energética e/ou por terem o hábito de consumir maior quantidade de comida. E ainda existem evidências de que há concentração de restaurantes fast-food em áreas geográficas com alta prevalência de obesidade. No entanto, esse tipo de estabelecimento alimentar sozinho não seria um ocasionador independente da obesidade, mas parte do estilo de vida adotado pelas pessoas. 

Infância 

A vida sedentária proporcionada pelos avanços tecnológicos (televisão, videogames, computadores, smartphones, etc.) diminui o esforço físico das crianças. Cada vez mais as crianças têm preferido brincadeiras com pouco ou nenhum movimento. Atualmente, ao contrário de alguns anos atrás, as crianças passam muito tempo deitadas ou sentadas, jogando videogame, assistindo televisão e navegando no tablet ou no celular. Parte do tempo que antigamente era empregado em brincadeiras que exigiam pular e correr agora vai para a tecnologia. 

A falta de espaço físico para atividades mais dinâmicas também se tornou um problema. Ao mesmo tempo em que algumas famílias vivem em regiões periféricas em que não há segurança nas ruas ou parques, outras crianças no meio da cidade passam o dia trancadas em apartamentos. 

Pode haver uma redução de aproximadamente 600 kcal com a diminuição do tempo usado em brincadeiras de rua e o aumento do tempo empregado em equipamentos eletrônicos. 

As crianças precisam brincar, ter espaço para se movimentar e correr, e não ficar paradas diante de uma tela por horas. 

Televisão x sedentarismo 

O hábito de assistir televisão por muitas horas diárias é considerado um indicador de sedentarismo, por ser um hábito que reduz a prática esportiva de lazer e aumenta o consumo energético, especialmente em crianças e adolescentes. A televisão contribui para a delimitação do estilo de vida ocidental, que abrange os hábitos alimentares, por intermédio do incentivo ao consumo de alimentos exibidos pelo marketing e pela propaganda. 

A maioria dos alimentos veiculados nos anúncios possui elevados índices de açúcares, sal e gorduras, estando em desacordo com uma dieta saudável e balanceada e, assim, possibilita o excesso de peso. A mídia desempenha função na construção e desconstrução das práticas alimentares como, por exemplo, o elevado consumo de fast-foods observado atualmente e que continuamente tem sido veiculado pela mídia. 

Modernização x gasto energético 

Do gasto energético de uma pessoa faz parte a atividade física desempenhada por ela, que envolve todas as atividades voluntárias, como as de lazer, domésticas, ocupacionais e de deslocamento. 

Com a modernização, houve uma redução natural no gasto energético, promovendo um estilo de vida mais sedentário com equipamentos mecanizados, falta de áreas de lazer, como parques, principalmente nas periferias, e com transporte motorizado que diminui o esforço físico, tanto em casa quanto no trabalho, além do crescimento da violência, que levou as pessoas a ficar mais em casa. 

A redução na atividade física afeta o gasto energético diário. Por exemplo, ao cortar a grama com às mãos gastam-se aproximadamente 500 kcal/h, enquanto que com o uso de cortadores elétricos de grama o gasto diminui para 180 kcal/h; e lavar roupas manualmente gasta mais energia do que lavar as roupas na máquina. 

Todas essas modificações colaboram para o aumento do comportamento sedentário e, consequentemente, o desenvolvimento da obesidade. 

Trabalho associado à atividade física 

A redução do nível de atividade física e sua relação com a elevação na prevalência da obesidade diz respeito às mudanças na distribuição das ocupações de trabalho (exemplo: da agricultura para a indústria). Observa-se nas últimas décadas a mecanização do processo de trabalho e aumento da atuação da população no setor terciário da economia, cujas funções requerem menor demanda energética que nos demais setores, como o primário e secundário, além da redução nas atividades do setor primário. Essa situação se relaciona ao fenômeno da transição demográfica, com a concentração da população nas áreas urbanas do País, e, ainda, em virtude do desenvolvimento tecnológico.

Ambiente obesogênico 

O ambiente em que se vive pode propiciar à ocorrência de doenças, como, por exemplo, a obesidade. Esses lugares são chamados de ambientes obesogênicos, aqueles ambientes facilitadores ou causadores de escolhas alimentares não saudáveis e de comportamentos sedentários, que dificultam a adoção e a manutenção de hábitos alimentares saudáveis e a prática constante de atividade física. Isso quer dizer que certos aspectos no contexto em que a pessoa está inserida, como a aquisição de alimentos saudáveis, bem como sua disponibilidade e, inclusive, as estruturas físicas, podem interferir nas escolhas familiares e individuais no momento de se alimentar. 

Um exemplo prático são os recintos alimentares de espaços institucionais, como o trabalho e a es-cola. Se essas áreas não forem adequadas, sem propiciar comportamentos e atitudes saudáveis, também podem colaborar para o desenvolvimento e a manutenção do sobrepeso e da obesidade. E assim eles se transformam em ambientes obesogênicos. 

As circunstâncias que envolvem o consumo de alimentos, como, por exemplo, comer sozinho, sentado no sofá em frente à televisão ou compartilhar uma refeição, sentado à mesa com amigos ou familiares, são necessárias para determinar quais alimentos serão consumidos e em que quantidades. Esses fatores reforçam a necessidade de uma estrutura dirigida para a alimentação. 

Além da alimentação, pode-se citar também a falta de espaços que promovem a prática de atividade física. Sendo de igual modo um ambiente obesogênico, já que não é oferecido ao indivíduo uma oportunidade de praticar atividade física, outro aspecto que propicia o surgimento da obesdade. Quando se fala em inatividade física, não é exclusivamente sobre a prática de algum exercício estruturado, como os de academia. A atividade física é um conceito mais abrangente, que inclui o trabalho, os afazeres domésticos, o deslocamento e o lazer. 

Com base nisso, é possível entender como o ambiente obesogênico induz o comportamento se-dentário, contribuindo para a obesidade. Assim, a falta de estrutura urbana pode diminuir o acesso das pessoas a uma vida fisicamente ativa. Exemplificando, um projeto urbano que dificulta a prática de atividade física em espaços de lazer ou por meio de transporte, e a diminuição das aulas de educação física nas escolas. Por outro lado, o que tem ocorrido é o uso de telas cada vez mais constante. 

Atualmente, o ambiente ocidental oferece oportunidades e condições de vida que promovem a obesidade, ou seja, são muitos os ambientes que dificultam as escolhas saudáveis e favorecem hábitos alimentares inadequados e o sedentarismo. 

Pandemia de Covid-19 

Durante a pandemia de Covid-19, houve uma mudança no estilo de vida e, como consequência, houve também crescimento no número de pessoas que apresentaram ganho de peso ou obesidade. O distanciamento social e o confinamento, como meio utilizado para conter o avanço da transmissão do coronavírus, especialmente nos primeiros meses da pandemia, promoveram um aumento do sedentarismo e do consumo de alimentos fornecidos por aplicativos de delivery, com maior oferta de alimentos ultraprocessados, com elevado teor calórico. 

Os acontecimentos vivenciados no decorrer da pandemia, como o medo do adoecimento, as perdas de familiares e amigos, da perda de emprego e, consequentemente, dos meios de subsistência, levaram ao agravamento ou surgimento de casos de ansiedade. O consumo de alimentos ricos em gordura e açúcar muitas vezes é usado para minimizar os sentimentos de medo e angústia. Desse modo, esses fatores podem ser considerados entre os responsáveis contemporâneos por ganho de peso durante a pandemia. 

O ambiente moderno possui muitos estímulos para a obesidade. Os hábitos de vida da sociedade moderna representam um dos principais fatores para o aumento do sobrepeso e da obesidade, impactado, especialmente, por uma alimentação inadequada, com excesso de alimentos ultraprocessados e hipercalóricos, associada à diminuição dos níveis de atividade física. 

 

 

 

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