terça-feira, 21 maio

O valor das histórias

Texto por: admin 1 setembro, 2016 Sem comentários

São muitos os contextos que permeiam a vida da gente e a vida dos outros. Considerá-los pode valer a pena

Quem não tem uma história para contar? Ou quem não se lembra com saudade de histórias que lhe foram contadas na infância? Algumas histórias marcam mais; outras, menos. Tem história com fundo moral; algumas são mais engraçadas e tem aquelas reflexivas também. Histórias em quadrinhos podem ser divertidas, e são, muitas vezes, itens de colecionador.

É bem verdade que algumas pessoas exageram ao contar suas histórias. Os chegados a uma hipérbole, têm lá sua justificativa: “Eu aumento, mas não invento”. E assim, as histórias de pescador vão passando de boca em boca, como na brincadeira do telefone sem fio, alcançando fim surpreendente.

Cada história tem seu valor e nos impressiona de maneira muito particular. Outro dia, lendo sobre a escravidão e travessia dos negros entre a África e o Brasil, algo me chamou a atenção: o banzo.

O banzo foi descrito em 1793 por Luís Antônio de Oliveira – advogado e membro da Academia Real das Ciências de Lisboa – como uma das principais moléstias crônicas que sofreram os escravos. Segundo ele, o banzo atingia os africanos escravizados como um intenso ressentimento que poderia ser causado por saudades da terra natal, por amores perdidos, injustiças e traições sofridas e, principalmente, pela perda da liberdade.

A moléstia se manifestava desde a travessia atlântica ou logo depois da chegada ao Brasil, como uma espécie de suicídio passivo. Outros narradores atribuem ao desgosto pela vida e o desejo de morrer dos escravos, as reações nostálgicas decorrentes da perda da liberdade e dos vínculos com a terra e grupo social de origem, e ainda aos castigos excessivos impostos pelos senhores.

Entre as muitas razões que esses escravos tinham para se desanimar, destaco a perda do vínculo com a terra deles e seu grupo social, ou seja, com a sua história.
A história, individual ou coletiva, fala muito da gente, aponta características da nossa identidade e, pode até, quem sabe, explicar quem somos hoje. Cada história é tão cheia de detalhes que, talvez, não exista mesmo outra igual, afinal um mesmo fato pode repercutir de maneira infinitamente diferente dependendo da pessoa.

A palavra-chave que muda o rumo interpretativo de uma história é contexto. Contextos situacionais, existenciais, políticos, sociais, históricos. É por isso que devemos respeitar o outro, tentando inserir no olhar a palavra contexto.

Será que estamos prontos para aceitar as pessoas com suas respectivas histórias? Somos capazes de amá-las com suas peculiaridades? Valorizamos o próximo com as semelhanças e diferenças que ele nos traz?

Se alguém conhecesse os pormenores da sua história, poderia ser mais compreensivo com seus erros? Tentamos impor nosso jeito de pensar, desconsiderando o histórico alheio e sua visão de mundo? Em que ponto nos encontramos na história da vida e como permitiremos que outros milhares de histórias, daqueles que passam por nós, se relacionem com a nossa?

Prezar a história do outro pode trazer mais vida e saúde ao contexto da sua própria história!

Agatha Lemos é editora associada de Vida e Saúde

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